sábado, 25 de março de 2017

espelunca

líria porto

vendem minha pátria
por qualquer mixaria
na bacia das almas

(os entreguistas
os usurpadores)

*

sexta-feira, 24 de março de 2017

mandona

líria porto

mamãe me empurra
mamãe me freia
mamãe me escuta
de cara feia

(e se eu fosse
a mãe da mamãe?)

*

mea culpa

líria porto

dedo que me acusa
só o da minha mão

*

assim ó

líria porto

a minha alma gênia
rebelde sem calça
às vezes me prende
às vezes me assalta

*

quarta-feira, 22 de março de 2017

ao rés do chão

líria porto

a escrita me ferra me fode
me finca me fura e me faz
submisso

*

terça-feira, 21 de março de 2017

haicai

líria porto

no céu tudo limpo
dona chuva –– faxineira
não deixa uma nuvem

*

segunda-feira, 20 de março de 2017

paranoia

líria porto

daqui pra lá de lá pra cá
na faixa do meio –– no exato ponto
do equilíbrio
perdeu o eixo e nunca mais
por mais que queira
chegará à beira
                       de algo explícito

vive entre quatro paredes
para ele tudo é um risco

*

domingo, 19 de março de 2017

corriqueiras

líria porto

as palavras que uso
são aquelas do batente
das conversas diuturnas
que dão co'a língua
nos dentes

*

bíblico

líria porto

samaria
cinco maridos
e o cântaro do amor
vazio

(nada que um cesto
possa resolver)

*

fera

líria porto

de bloquear sentimentos
estimular os instintos
surgiu um homem cruel
potencial assassino

sábado, 18 de março de 2017

irremediável

líria porto

a fome me come a sede me bebe
o ar me respira e o que me consome
é o tempo

*

o déspota

líria porto

comum como os outros
apenas com mais poder
tornou-se um tirano

*

haicai

líria porto

as nuvens cinzentas
enquanto a chuva despenca
o vento assobia

*

sexta-feira, 17 de março de 2017

eu não sou um robot

líria porto

uma coisa não deixo
que o horror me governe
que me ponha arreio
use freio e espora
que estale o chicote
em nome da ordem
e do progresso

(por amor colaboro
ponho estrela no peito)

*

quarta-feira, 15 de março de 2017

desabafo

líria porto

quarta-feira bruta
e os filhos da puta todos
não merecem a mãe que têm

*

segunda-feira, 13 de março de 2017

démodé

líria porto

esse jeito tão sincero de dizer as coisas
tão direto
peito aberto
parece que caiu de moda
incomoda quem tem culpa no cartório
quem se esconde atrás
da hipocrisia

*

serão

líria porto

sem hora para me ver
a me chamar de senhora
disfarça junto à mulher
o que fizemos
fazemos
quando ao invés do escritório
ele some no mundo

*

perfil

líria porto

mudei de lugar
e de outro ângulo
pude te ver diferente

*

temporários

líria porto

qual um rio sem mar
sem olhar para trás
abre caminho
envereda-se
segue em frente
tropeça nas pedras
transborda de sonhos
desvia-se
porém não deságua
seca antes
:
a vida acaba
na foz

*

domingo, 12 de março de 2017

contradições

líria porto

a carne é faca
foice de dois legumes

*

de pescador

líria porto

o céu transborda e derrama
no corpo verde do mar
o azul inteiro da abóbada
todo o amarelo solar

eu me estatelo na areia
uma sereia me abana
com sua cauda de peixe
e sua voz maviosa

*

sábado, 11 de março de 2017

requinte

líria porto

chique é comida no prato
chique é não ser marionete
chique é o estado laico
chique é a escola pública
chique é ter trabalho
sapato agasalho
a fartura é chique
(a miséria é brega)
chique é cuidar da vida enquanto a morte não vem
chique é a diferença
chique é poder discordar
chique é poder acordar
chique é o voto consciente
chique é a pergunta
(a manipulação - essa é brega)
(a guerra é brega)
(a desesperança é brega)
(o desemprego é brega)
pensar é chique
(a ignorância é brega)
:
a vida?
ah a vida é chiquérrima
e a morte inevitável

*

sexta-feira, 10 de março de 2017

vastidão

líria porto

nas estradas do espaço
poeira de estrelas e buracos
negros

*

o avesso

líria porto

olhos nos olhos
no fundo
vê-se defeitos
virtudes
tantas essências
e fluidos
muitos acertos
e erros

olhos nos olhos
do espelho

*

quarta-feira, 8 de março de 2017

irmãs

líria porto

manhãs tardes e noites
as auroras os crepúsculos
o sol a lua as estrelas
um mundo de igualdade
todas as raças e credos
sem violência preconceito
de muita camaradagem
fartura compreensão
sabedoria saúde
é isso que nos desejo
e não apenas um dia

*

segunda-feira, 6 de março de 2017

colheita

líria porto

fosse fácil viveríamos cem anos
o tempo passa –– aumentam-se os obstáculos
os ossos se esfarinham o corpo dói e o coração
já não é o mesmo

chegada a hora
olhar tirana nos olhos

(tomara não haja medo)

*

escambo

líria porto

troco o dia da mulher
por igualdade entre os sexos
e uma lava-louças

*

domingo, 5 de março de 2017

difícil

líria porto

dar cabo de mim?
o tiro entra por um ouvido
sai pelo outro

*

quarta-feira, 1 de março de 2017

da sereia

líria porto

aqui no canto do mundo
um canto desafinado
pra distrair-nos dos dias
de injustiça e barbárie

*

08 de março

líria porto

mulheres do mundo inteiro
todas as crenças e raças
brancas negras amarelas
mestiças peles vermelhas
lésbicas mulheres trangêneras
todas num corpo só
pela igualdade de gênero
pelo direito de ser

*

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

colarinhos-brancos

líria porto

vassalos do poder
lacaios do capital
entreguistas
fecham acordos
fuçam e furam leis
alinhavam remendos
sem sequer saber
cerzi-los

*

haicai

líria porto

manhã cinza chumbo
galos cacarejam e os cães
ladram no quintal

*

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

voo

líria porto

escalar o penhasco
e ao chegar lá no alto
jogar o corpo no espaço

*

necessidades

líria porto

madame
resolve a fome e a gula
almoça e janta com santo
ceia e merenda com lúcifer

*

sábado, 25 de fevereiro de 2017

chin ching

líria porto

a bunda murcha
os peitos pela cintura
a mulher em cingapura
(belíssima)
a receber seus fregueses

*

rio doce

líria porto

mariana
não o riso espontâneo das águas
rio com lágrimas sal nos lábios
batismo de sangue
e lama

*

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

gratuito

líria porto

eu amo as brabuletas humanas e insetas
eu amo as humanas brabuletas e incertas
eu amo as mundanas

*

desilusão

líria porto

de chorar virou do avesso
por esperar tanto tempo
não o denunciar
achar que sapos são príncipes
e que ela própria
é princesa

*

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

haicai

líria porto

vênus platinada
qual estrela de cinema
a pisar nas nuvens

*

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

sensíveis

líria porto

partes internas das dobras
por onde passam arrepios
lá onde moram as cócegas

*

autorretratação

líria porto

monoglota troglodita –– filósofa de boteco
penúltima flor do lar inculta
e velha

*

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

di_urnas

líria porto

de pular de galho em galho
ora macaco ora passarinho
canto e faço micagens
mas não me afasto um milímetro
dos meus princípios
e afins

*

pena capital

líria porto

condenados desde o nascimento
deslizamos pelo corredor da morte
durante toda a vida

*

docinho

líria porto

açúcar açúcar açúcar
mascavo cristal refinado de confeiteiro
necessito mais açúcar que oxigênio

*

conselho

líria porto

se eu fosse tu
(acontece que não sou)
faria tudo diferente
e nem por isso
melhor

*

pontos fortes

líria porto

se queres ler minha alma
começa por me levantar a saia
procura-me nas varizes na celulite
na fragilidade

*

domingo, 19 de fevereiro de 2017

possuir-me?

líria porto

pobre diabo
possuir é apoderar-se da alma
nenhum homem o conseguiu

*

haicai

líria porto

manhã sem véu
o sol reza a missa
mas não perdoa

*

sábado, 18 de fevereiro de 2017

o pato de troia

líria porto

vestiram verde amarelo
ocuparam a avenida
acusaram julgaram
bateram panelas
exigiram o impeachment
instalaram o caos
enfiaram a viola no saco
e depois
morderam a língua

das complicações

líria porto

despenco dentro de mim
e quanto mais chego ao fundo
percebo que nesse mundo
não há lugar para o simples

(há quem prefira
rosas de hiroshima)

*

meteoro

líria porto

o macho veio com tudo
apontou –– errou o murro
raspou na orelha do mundo
espatifou-se em si mesmo

*

delação

líria porto

quando as verdades são murchas
mentiras são suculentas
acusa-se um lado de espúrio
se não têm provas
inventam-nas

*

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

da concorrência

líria porto

pomba gira dança roda pira
pomba é
foda –– levou meu amor
e eu sobrei no terreiro


*

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

moça de família

líria porto

a manhã –– linda e cheirosa
irmã de aurora e tardinha
quer visitar a prima
mas não pode

(é que noite tem má fama
vive de bar em bar
cercada de puta
marmanjo
a cheirar pó de estrela)

*

doméstico

líria porto

domingo maria foi morta
com a faca da cozinha
a mesma que preparava
a comida do assassino

*

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

tortura

líria porto

fagulhas
agulhas de fogo
fincadas nos poros
no couro nas unhas
nos ossos
forçam-nos a fazer
o que querem
os poderosos

*

paupérrimo

líria porto

saio à procura do verso
a mendigar qualquer rima

vejo-o na esquina –– inerte
com crise de hipotermia

*

belzebu

líria porto

o postiço –– um capiroto
com seus dedinhos infectos
seus ministrinhos de merda
a transformar meu país
num solo impróprio
infértil

*

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

amore

líria porto

íamos juntos
lado a lado
abraçados
de mãos dadas
pelas ruas
pelos becos
pela avenida

nos lugares
perigosos
segurava-te
mais forte
tinha medo
que sumisses
que te fosses
antes de mim

tu partiste
fiquei órfã
sem afago
sem amigo
e tua falta
é mais funda
que a tua cova

*

sábado, 11 de fevereiro de 2017

xeque-mate

líria porto

despencam-se os impérios
com eles os poderosos
aqueles que imaginam
que a vida só é válida
para eles próprios

(reis cavalos e bispos
nós todos somos peões
tudo vai num mesmo golpe
para a mesma vala)

*

repartir o pão

líria porto

não choveu –– senti certo alívio
cansei-me do céu chorar
lágrimas de crocodilo

(soubesse o céu o que é justo
quanto dói a escassez
chovia no sertão)

*

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

síntese

líria porto

mais dia
menos dia
noite

*

haicai

líria porto

despenca do céu
qual bola de um deus menino
a lua amarela

*

haicai

líria porto

imensa redonda
a lua feita a compasso
tu e eu na janela

*

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

mascarados

líria porto

então eu não fui
neguei-me
quis ser eu só para mim
sou a pessoa que tenho
não poderia perder-me
por alguém que conhecera
num baile de fantasia

*

obra

líria porto

o poema
nunca fica pronto
a gente mexe mexe mexe
e quanto mais mexe
mais fé

*

bullying

líria porto

verso me pega
é na curva

atravesso a avenida
estapeia minha bunda

a poesia destroça-me
(a poesia é profunda)

*

o passado

líria porto

quisera tê-lo esquecido
deixei-o faz tanto tempo
porém frequenta meus sonhos
ressurge dos labirintos
atiça medos remorsos
revolve minha desordem
bagunça-me os sentimentos

*

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

haicai

líria porto

os lírios no mato
brotaram como capim
natureza pródiga

*

bisavós

líria porto

depois dos setenta
a velhice galopa
e o espelho 
como algoz
esfrega o tempo
nas nossas
fuças

(melhor manter o humor)

*

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

passeio

líria porto

dispersou-se o vento
ficou-me a brisa
camisa de algodão
caminho na praia
pegadas na areia
espero me sigas
tarde de verão

*

devastação

líria porto

goles de ressentimento
algumas gotas de mágoa
consumidos todo dia
funcionam como veneno
fazem surgir algum câncer
entopem as coronárias

*

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

até que a vida nos junte

líria porto

a gente não nasce grudado
porém um dia se encontra
resolve andar lado a lado

*

marcha-ré

líria porto

era uma vez o futuro
então ergueram os muros
não se vê mais o horizonte

*

autofagia

líria porto

cadáveres cheios de vida
um banquete às bactérias –– às varejeiras
um brinde

*

tribunal

líria porto

quem sabe de ti
tu ou eu
que vejo teu desajuste
tuas maldades orgulho
e ainda assim te aceito?

quem sabe de mim
eu ou tu
que não perdoas meus erros
e em mim só achas
defeitos?

quem sabe de nós
quem nos julga?

*

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

cuspida e escarrada

líria porto

olho-o e me convenço
esse espelho não é meu
deve ser da minha avó
a mais velha mulher
do mundo
:
a matusaleia

*

em resumo

líria porto

a vida é a santa –– é a puta
a que promete e não cumpre

a morte é certa

*

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

audrey

líria porto

esta senhora de luxo
carregava no colo os famintos
os desvalidos

(com_paixão é o limite)

*

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

viúva alegre

líria porto

sem ti
sempre um perigo
à sombra de mim
sem o farol que ilumina
sem o sol –– à míngua
;
e no entanto
feliz

*

ao molho madeira

líria porto

carne de segunda
osso duro –– carne
de pescoço

(as uvas estão verdes)

*

contenda

líria porto

pois servo é meu corpo
minh'alma é liberta

aquele é a pedra
e esta é o vento

tal como um casal
os dois sempre às turras

(um solta
outro puxa)

*

domingo, 29 de janeiro de 2017

reviver

líria porto

lembranças fazem comigo
o que um borrifo d'água faz
co'as plantas

*

sábado, 28 de janeiro de 2017

extermínio

líria porto

furassem-me os olhos
cortassem-me a língua
domassem-me o espírito
apagassem-me o pensamento
dessem-me soda cáustica
ou coca-cola

*

mordaça

líria porto

aos trambiqueiros puritanos moralistas de plantão
palavras com patentes vocábulos graduados
compatíveis com a moral os bons costumes
e a tradicional família de minas
:
pênis ânus nádegas vagina pelos pubianos genitália
papai noel coelhinho da páscoa barbie cicuta
estricnina e pindamonhangaba

*

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

morador de rua

líria porto

tu lá fora eu aqui
a pensar que a tempestade te adoece
enquanto –– da vidraça –– eu te olho
e tu bebes mais um gole
de injustiça

*

seiva

líria porto

o tempo –– no dia a dia
suga das nossas veias
a mocidade e o viço

a vida?
goteja

*

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

em regime fechado

líria porto

chupo as balas
que lambem a intimidade
dos meus lábios

*

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

(in)sensibilidade

líria porto

o que chamamos concreto
(isto isso aquilo)
e poderá ser medido
em quilos litros ou metros
não deve ser comparado
ao que sentimos
(amor ódio compaixão)
ou à tristeza dos muros
à maravilha da arte
ou ao perfume
da flor

*

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

regresso

líria porto

se rua fosse avenida
perderia meu sossego

mudar-me-ei
para o beco

*

haicai

líria porto

tal qual um brilhante
estrela de magalhães
cruzeiro do sul

*

sábado, 21 de janeiro de 2017

supremo corte

líria porto

um juiz submerge e com ele
as sujeiras da república

*

lusco-fusco

líria porto

a sol me cega
a treva apaga meu olho
só me resta a penumbra
a luz das estrelas
e a lua

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

laçada

líria porto

sem saber se é namoro
ou apenas amizade
(melhor seja as duas coisas)
vez por outra dormir juntos
sem cobrança sem ciúme
e depois voltar pra casa

(romeu romeu
eu sou minha
tu és teu)

*

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

curitiba

líria porto

da primeira vez
em praças em avenidas
ipês e araucárias

da segunda vez
caquis pulavam os muros
dos quintais daqui

*

intolerância

líria porto

em nome de deus
matava-se perseguia-se
santa inquisição

*

haicai

líria porto

o sol de pantufas
amanhece de mansinho
curitiba city

*

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

febre

líria porto

pele arrepiada
uma quentura no entorno
fogo dos infernos

*

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

drumondava

líria porto

em cima –– no caminho –– tinha uma nuvem
tinha uma nuvem acima do passarinho

*

fêmea

líria porto

assim sua língua
capaz de capar machista
fio de navalha

*

domingo, 15 de janeiro de 2017

haicai

líria porto

é hoje que escapo
para a terra de leminski
num pássaro de aço

*

taxas

líria porto

nas estradas do céu
não tem pedágio

*

haicai

líria porto

pastoreio nuvens
conduzo-as ao bebedouro
bacia do rio

sábado, 14 de janeiro de 2017

vida

líria porto

tu eu –– nós todos
grandes pequeninos
dentro duma bolha
vamos à deriva
flutuamos
seguimos
em nossa película
cada vez mais frágil
cada dia

*

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

infanticídio

líria porto

transformou o trio
(um por um dos filhos)
em neurótico psicótico
irresponsável

*

desmanche

líria porto

no dia de reis retirei os enfeites
as bolas douradas as luzes vermelhas
os laços os anjos
as estrelas

os passarinhos não tive coragem
quem sabe quisessem fazer novos ninhos
cantar sobre a árvore alegrar
o verde

*

bin

líria porto

dizia-me –– aqui é o meu oásis
bebia-me comia-me e voltava saciado
pra sua vida de areia

(eu era a predileta do harém)

*

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

infantilidade

líria porto

fugi do namorado
não quis vê-lo cada vez mais velho
sem selo de validade
nem deixei que assistisse
minha caduquice

*

musa

líria porto

abandona-me
vai embora
sai com outros
e são tantos
eu a espero
quando volta
vem altiva
orgulhosa
como eu gosto
:
não suporto poesia rasteira
disposta a lamentos

*

saída

líria porto

o mundo assim -– hostil
nenhum portal de fuga

o corpo fica aqui
a mente centrifuga-se

e torna-se mais lúcida
viagens planetárias

vasculha vênus marte
júpiter e saturno

procura outras galáxias
enfrenta os obstáculos

pr'algum lugar se muda
exausta

inconclusa

*

convivência

líria porto

tu não és o meu brinquedo
eu não sou tua boneca
o que será de nós dois
debaixo do mesmo teto?

(nossos roncos nossas neuras
nossos barulhos internos
tomara nossos espinhos
não estraguem nossas pétalas)

*

penúltimo capítulo

líria porto

eu tinha um amor morava longe
a quilômetros e quilômetros de mim
(mais de seiscentos)
todo dia de manhã telefonava – vou à padaria
queres que eu te leve alguma coisa?

eu sempre respondia
quero amor eu quero sim
traz-me queijo
e pão com gergelim

*

autômato

líria porto

depois que vim embora
depois que ele se foi
o vácuo entre nós dois
qual um buraco negro
sugou o gosto das coisas
deixou em minha boca
sabor de isopor

(sem doce sem azedo
viver não cheira
nem fede)

*

marola

líria porto

rio de mim –– oceano-me
mas jamais um tsunami

*

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

a obra

líria porto

escoras de madeira aparas de ferro
vozes de operários batidas de martelos
e o urro da serra makita nas pilastras
de concreto

*

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

meu menininho

líria porto

enforcou-se
nas cordas do meu corpo
:
não o aninhei ao peito
jamais provou do meu leite
e dorme para sempre
sem pai sem mãe
sem ninguém

*

descontentamento

líria porto

contigo fui ao inferno
(fazia muito calor)
quis ir ao céu me disseste
vai com deus
porém no céu senti frio
um vazio interior e não sei
o que é pior

*

domingo, 8 de janeiro de 2017

vermelho

líria porto

dispara para rateia
(lado canhoto do peito)
o meu amor

*

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

desejo

líria porto

frutos proibidos
(pois que já tínhamos donos)
atraíamo-nos como imãs
afinávamos a saliva
(água na boca)

*

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

moinhos de dentro

líria porto

montei dom juan
qual fosse rocinante
(era ele o meu quixote)
enquanto dulcineia
em obras de caridade
ajudava os pobres

*

pecado capital e interior

líria porto

comeu massa comeu queijo
doce creme molho tudo
e teve fome de macho

pecou por gula
e luxúria

*

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

autoestima

líria porto

sou a pessoa que tenho
mesmo assim sem garantia
pois existem aqueles dias
que por ti eu me abandono

*

madame

líria porto

espera que o sol durma
vire-se pra o outro lado
depois ela sai pra rua
vai quieta –– sem barulho
mergulha na poça d'água

nuinha

*

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

poema sem face

líria porto

mulheres espiam casas
homens perseguem mulheres
e ingerem pílulas azuis

não houvesse tanto desejo
o diabo dormia em paz
e não bebia conhaque

(eu amo drummond de andrade)

*

rasante

líria porto

viveu como fosse peixe
no ventre da própria mãe
depois rompeu o açude
mostrou as asas as unhas
aventurou-se a voar
quis ser águia

(mas teve medo de altura
e virou galinha)

*

imensidão

líria porto

"maria quando é gota é chuva"
enxurra e rompe as margens
faz tempestade dilúvio
controla trovão
e raio

(maricota tem poder)

*

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

o time

líria porto

mulheres não são bolas
que rolam pra lá e pra cá
dando alegria a moleques

mulheres são jogadoras
matam no peito marcam gols
e cobram pênaltis

*

descontrole

líria porto

às vezes saio de mim
depois volto –– envergonhada
com cara de tacho

*

haicai

líria porto

no chão vaga-lumes
todas as estrelas brilham
nas noites sem lua

*

na areia

líria porto

as minhas pegadas de encontro às tuas
quando se tocaram caminharam juntas
talvez para longe para algum lugar
onde os amores –– para além da morte
sobrevivam

*

domingo, 18 de dezembro de 2016

adolescência

líria porto

namoricos duraram anos
entremeados por outros meninos
que ocuparam o vácuo das ausências
depois dos términos e das brigas

um tal de ficar de mal de ficar de bem
mas lembramo-nos do riso e dos olhos
toda vez que ouvimos blue moon

*

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

giro

líria porto

espelhos redondos me enquadram melhor
eu gosto dos circos e dos compassos
nos picadeiros o meu mundo
rola

neles retiro a minha máscara

*

cisco

líria porto

não estou à altura do menino
ele me olha de cima e sou
diminuto

*

de vida e morte

líria porto

essa eu largo esse eu levo
essa eu limito esse eu alopro
essa eu enluto

(as mulheres vivem mais
mas não melhor)

*

parceria

líria porto

direitos e deveres iguais
sem quaisquer preconceitos
privilégios ou abusos
de autoridade

e punição aos infratores

*

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

cana

líria porto

uns homens me conquistaram
marcaram meus territórios
moraram em meu corpo
fincaram bandeiras

outros vieram a passeio
(turistas)
armaram barracas
conheceram-me os recantos
fizeram alguma lambança
e debandaram

por conta da monocultura
sou terra arrasada

*

fogo no circo

líria porto

forja-se a verdade
co'a matéria das mentiras
a mídia a repeti-la
a transformá-la em fatos
a difundir os boatos

uns por ignorância
outros por canalhice
batem panela em varanda
usam a bandeira da pátria
como fosse fantasia

(uns se beneficiam
da cortina de fumaça)

*

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

o show

líria porto

o tempo passa qual flecha
segue ligeiro seu rumo
(uns nascem uns morrem)
enquanto o sol e a lua
assistem o espetáculo
de camarote

*

óbvio

líria porto

aos netos eu não ensino
com eles é que aprendo
a lógica do que salta
aos olhos

*

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

alívio

líria porto

a sorte
é que o tempo
se não cura
põe unguento

*

involução

líria porto

o silêncio responde ao silêncio
e cada qual virado pra seu lado
dialoga co'as paredes

*

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

festas

líria porto

periquita
toma essa taça comigo
sem ti eu não sei se consigo
sentir a acidez o tanino
e depois parar

(sou capaz de beber no gargalo
e dormir na sarjeta)

*

haicai

líria porto

de lá da janela
a espreitar a noite escura
a lua amarela

*

sábado, 10 de dezembro de 2016

fiat lux

líria porto

a poesia
expande-se pelo espaço
engloba todos os astros
(luminosos e iluminados)
flutua no infinito

poeta do universo
deus nem existe

*

ateísta

líria porto

diante do infinito
vai de ateu a agnóstico
porque deus insiste

*

fuxico

líria porto

a aranha –– cheia de dedos
faz rodeio pra tecer a teia

*

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

mãe d'água

líria porto

iara está de casa nova
ela tem cobertor de orelhas
e dorme em kama sutra

para que o sol penetre
e o vizinho veja-a ao banho
iara abre as cortinas

(não morram de inveja
não percam o juízo
a casa de mãe d'água
é o paraíso)

*

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

capitu

líria porto

quando chegavas tarde
sabe-se lá de onde
(eu nunca perguntei)
vinha o compadre
fazer-me as devidas
honras

*

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

golpistas

líria porto

depois de perder nas urnas
de nos puxar o tapete
cutucam com vara curta
atiçam povo e poderes

*

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

autoconhecimento

líria porto

sei que não sei
na verdade eu nunca soube

por mais que tenha tentado
eu mergulhava no raso

e todo eu é profundo

*

ferroadas

líria porto

os poemas sempre chegam
nem sempre bons ou ruins
apenas algo capengas
necessitados de abelhas
que pólen e mel
eles têm

*

sem atrasos

líria porto

ao chegar a minha hora
não me prolonguem a vida
não me adiem a morte
:
eu sempre fui pontual

*

porvir

líria porto

o golpe no golpe
tucanos de toga
tucanos no pódio

onde?
no cu da mãe

*

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

excesso

líria porto

a balança aponta nossas bundas
esfrega-nos às fuças açúcares
e carboidratos

*

panelas na varanda

líria porto

meu povo tem outra cara
os que foram pra avenida
brancos ricos bem nutridos
(os privilegiados)
querem manter as mamatas
as férias em miami –– as contas
na suíça
:
eles pediram o impeachment
e tacam fogo no circo

*

domingo, 4 de dezembro de 2016

declínio

líria porto

mortes golpes retrocessos
perdas irreparáveis
o mundo gira ao contrário
com muita velocidade

até o final do século
o que seremos nosotros
nossos corpanzis sem cérebro?

(nós já fomos dinossauros)

*

centenária

líria porto

guardei a dor na gaveta
dobrada passada a ferro

outra dor apareceu
eu fiz o mesmo com ela

e tantas dores vieram
abarrotaram o armário

com as dores bem cuidadas
mas com desgaste nas peças

eu morrerei
é de velha

*

sábado, 3 de dezembro de 2016

inábil

líria porto

tu te perderias pelas minhas veias
sem jamais me tocar o coração

*

inábil

líria porto

eu me perderia pelas tuas veias
sem jamais tocar-te o coração

*

da poesia

líria porto

por onde os versos caminham
por onde tropeçam os poetas

as palavras que são rios
as palavras que são pedras

*

infância

líria porto

amoras pitangas gabirobas
essas frutinhas miúdas
que as crianças adoram
povoam nossas lembranças

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

natalidade

líria porto

no tempo das ceroulas
casais se reproduziam
como coelhos

*

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

bola de cristão

líria porto

férias de um ano
(reapresentação em 2018)
toga de juiz e bico
de tucano

(xô satanás)

*

chama

líria porto

a vida –– um flash
um relâmpago

antes e depois
a escuridão

*

cilada

líria porto

no caminho da sucessão
rampa escorregadia beira
o precipício

*

terça-feira, 29 de novembro de 2016

perplexidade

líria porto

água doce no rio
no mar água salgada
com que sabedoria
o mundo –– o seu traçado
assim sem autoria
teria havido um guia
teu deus seria mágico?

(porque eu sou ateu)

*

matiz

líria porto

cambiante
meu sangue furta-cor
mestiço

*

doutrinação

líria porto

fui abduzida por um ET sem escrúpulo
sua tromba penetrou-me pelo ouvido
seu zumbido engravidou-me
:
o aborto
eu provoquei

*

processo

líria porto

o corpo –– vela que queima
cera que se derrete
entorna e muda o contorno
enquanto encurta o pavio
até apagar-se o fogo

*

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

é o cu

líria porto

nasci de chocadeira
mamãe não fazia bobagem
e filho pela vagina
jamais

(mamadeira de três em três horas
e babá eletrônica)

*

sábado, 26 de novembro de 2016

luto

líria porto

qual murro no peito
hoje –– a meio pau –– minha bandeira
vermelha

fidel eternamente

*

redemunho

líria porto

o diabo me carregue
leve-me para as grimpas da árvore
ou para a crista da nuvem

*

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

tara

líria porto

na casa de tolerância
velhos insuportáveis
passavam as mãos nas meninas
e consumiam viagras

*

trabalheira

líria porto

para fazer a montanha
o vento empurrou –– uma a uma
as partículas de poeira

*

naja

líria porto

bato de frente comigo
contesto mau pensamento
tenho tendência suicida
porém não acho propício
morrer do próprio veneno

*

regressão

líria porto

o cheiro denso da chuva
penetra minhas narinas
eu volto a ser a menina
que soluça aquele pranto
sem consolo sem alento
que só cessa quando dorme
nos braços de sua mãe

*

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

a poesia é o jardim suspenso da palavra

pontos colaterais

líria porto

virou a bunda pro leste
olhava fixo o crepúsculo
fincou um dedo no norte
o outro enfiou no sul

*

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

elípticas

líria porto

a gente é concebida
e tem data presumida
para apear no planeta

(mães são naves)

*

o feto

líria porto

espectro de extra-terrestre
que se reveste de gente

*

terça-feira, 22 de novembro de 2016

ser_tão

líria porto

na sede do rio o verde
desesperança

*

portugueses

líria porto

beijos de freira –– doces
de lamber os beiços

*

vestígios

líria porto

cada poeta que lemos
deixa traços indeléveis
em nossos poemas

*

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

indícios

líria porto

valia-se da força
para dominar mulheres
submetê-las a sevícias
espancá-las humilhá-las
por isso creio –– o crime
foi legítima defesa

*

domingo, 20 de novembro de 2016

temporal

líria porto

d'agora em diante
(e agora nunca acaba
ou pelo menos durante)
não me preocupam as horas
pois que agora foi ontem
e continua agora
desde quando fui criança
até a hora da morte

*

extremos

líria porto

embora tão diferentes
um é macio o outro crespo
são eles meus prediletos
o abacaxi e o pêssego

*

sábado, 19 de novembro de 2016

hibernação

líria porto

para livrar-me de um verso
preciso deixá-lo escrito
mesmo que depois o enfie
no fundo de uma gaveta
para não lhe ouvir o grito

*

incêndio

líria porto

qualquer paixão me adverte
acende uma luz vermelha
depois dispara a sirene

*

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

lâminas

líria porto

estraçalhar dilacerar –– verbos
cujas sílabas são cacos de vidro
estilhaços de metal

*

mamãe

líria porto

a língua da vaca é áspera
inspirados são seus olhos
e pela vida ela pasta
a doar seu corpo inteiro
(o couro o leite a carne)
a homens degenerados
que não percebem nem sentem
a humanidade da vaca

*

haicai

líria porto

cortina de tule
nas entranhas da neblina
minha própria rua

*

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

bolo de rolo

líria porto

espero-te para um café
café com beijo é ótimo
sem beijo também é bom
mas fica incompleto
e com sexo então
ah com sexo
nem é preciso o café

*

miudeza

líria porto

só quem se sente pequeno
precisa de pedestal

*

epitáfio

líria porto

aqui jaz meu corpo
meu arquivo morto

*

putanas

líria porto

nós –– mulheres públicas
não nos deixaremos privatizar

*

perdigueiro

líria porto

tenho bom faro
vasculho o escuro e acho
o que procuro

*

perecíveis

líria porto

nosso tempo de validade
impresso no avesso da pele
ninguém lê ninguém percebe

*

caí na tua sopa

líria porto

talvez devesses saber
a quantas anda a política
enquanto dormes e sonhas
os ratos rondam e roem
tua aposentadoria

*

literalmente

líria porto

foi um banho de água fria
a minha ducha queimou
em pleno dia de chuva

disseram-me -–– é a resistência
estou cada vez mais frágil

*

antisséptico

líria porto

tomei banho de caneca
-–– perereca pés axilas -––
o resto limpei com álcool
estou mais morta que viva
:
porém não fedo

*

revisor

líria porto

o cu não é lindo –– é tímido feioso
condenado a viver onde o sol
não bate

*

regras

líria porto

o rio passou dos limites
depois retomou o traçado
amarrado à corrente

*

nababos

líria porto

prometem o céu e tomam
o dízimo

*

lascas

líria porto

primeiro a mesa de mármore
agora a de vidro –– tão quebrável
quanto a dona da casa

*

sábado, 12 de novembro de 2016

aposentadoria

líria porto

pendurar as chuteiras
as luvas de box e passar o bastão
para mãos preparadas

quem foi rei
perde a majestade

*

ativos e passivos

líria porto

o ar que asfixia
que me fecha os pulmões
e me obstrui as veias
é o mesmo que respiras
cigarro entre os dedos
fumaça nas narinas

*

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

dificuldades

líria porto

dentre o que me comove
o que se move com esforço
um besouro que capota
um pássaro de asa quebrada
um ancião de bengala
uma barata nas últimas

*

autoflagelação

líria porto

a provar que sou minha dona
castigo-me ou me abandono
depois volto arrependida
e não me perdoo

eu tenho um carma comigo
u'a mágoa – alguma espécie
de enjoo

*

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

rasteiras

líria porto

foram muitos pesadelos
e a cada vez que acordava
mais um assalto
outro susto
:
os bandidos variavam
só eu era o mesmo pato
com mesma cara de espasmo
e dor de barriga

*

lambança

líria porto

atravesso co'a bandeja
lá_vai dona beja – mil talheres
e à mesa
homens brancos velhos
e poucas mulheres
todas belas recatadas
e de touca

(patos são aves cagonas)

*

terça-feira, 8 de novembro de 2016

avaliação

líria porto

eu sou eu – não tanto quanto quero
nem tão pouco quanto pensam

*

blefe

líria porto

trambiqueiro salafrário
mas porém depois de morto
atribuem-lhe qualidades

*

caminho de mesa

líria porto

a agulha leva o fio pelo risco do bordado
como a mãe conduz o filho
:
de mãos dadas

*

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

avant-première

líria porto

no fundo do nosso sono
colorida ou branca e preta
uma fita de cinema
estrelada por nós mesmos

(não perco uma sessão
de sonho ou pesadelo)

*

haicai

líria porto

a lua embaçada
um acúmulo de nuvens
e poças de chuva

*

domingo, 6 de novembro de 2016

destemor

líria porto

guardou os sapatos de salto
as saias mantilhas leques castanholas
e empunha a bandeira de luta
:
vermelha

*

solitário

líria porto

sua vida não daria um romance
porém houve versos – oásis em meio
ao deserto de palavras

*

sábado, 5 de novembro de 2016

mescla

líria porto

infância e velhice no mesmo aposento
vovó tem sonhos inocentes e o menino
sabedoria

*

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

utilidade

líria porto

um velho
qual prato lascado
ninguém leva à mesa
(dá dó jogar fora)
empilha-o num canto
usa-o como tampa

*

desértico

líria porto

na alma uma tenda
e a vida montada
em camelo

na cabeça
um turbante

*

admiração

líria porto

janela boquiaberta
deslumbrada ante o crepúsculo
come mosca

leio clarice lispector
de queixo caído

*

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

plugue

líria porto

entre mãe e filho
aquela intimidade de placenta
de cordão d'umbigo

*

haicai

líria porto

o sol pegou fogo
e labaredas queimaram
o chão do cerrado

*

machão

líria porto

sua voz é grave
agudos são seus impropérios

*

domingo, 30 de outubro de 2016

equívocos

líria porto

a poesia pode ser óbvia
o poema não
se o poeta pesa a mão
a poesia se encolhe
e enquanto empalidece
palavras tropeçam
em si mesmas

*

elos

líria porto

já não sou eu sou nosotros
formamos um coletivo
lutamos todos por todos
por semelhantes motivos

tua fome é minha fome
sentimos o mesmo frio
somos homens somos bichos
nasceu de ti é meu filho

(couro pele pena escama
precisamos proteger-nos
dos terríveis predadores)

*

escravidão

líria porto

limpo tudo
(um esforço desgraçado)
o cupim disfarça-se de aleluia
chega manso desveste as asas
entra no armário enche a pança
e caga

*

sábado, 29 de outubro de 2016

poeminha doméstico

líria porto

consigo lavar dois banheiros
com meio balde d'água
ficam tão limpinhos
perfumados
na próxima encarnação
posso ser arrumadeira
:
nesta não – de mim afasto
esse carma

*

pianíssimo

líria porto

arranjei uma vassourinha movida a bateria
enquanto limpo o assoalho eu leio mario
quintana

*

donana

líria porto

ontem ria com todos os dentes
hoje sorri com um leve movimento dos lábios
nem disfarça a tristeza

*

projétil

líria porto

qual bala de chumbo penetrou-me o peito
alojou-se profundo e embora não sangre
carrego o peso de um amor sem saída

*

o oportunista

líria porto

escorrega para a zona de conforto
como a merda para o intestino
e o fosso
:
semelhanças não são coincidências

*

psicologismo

líria porto

fosse qual fosse
alface couve espinafre
verde o repugnava
:
também não queria tomate
preferia marrom ao vermelho
(chocolate)

serve cocô perguntaram-lhe
nem respondeu – devorou a salada
e gostou

*

tumulto

líria porto

tenho a bandeira vermelha
o touro quer sangue

fustigo-o até que se canse
também fico exausto

a luta é de grandes

*

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

caça

líria porto

a poesia é um pássaro
o poeta um menino com bodoque na mão
com espingarda de chumbinho

(o poeta é aprendiz
de assassino)

*

terça-feira, 25 de outubro de 2016

corpos

líria porto

encaixe perfeito
as asas da borboleta
pegadas na areia

*

borderline

líria porto

entre a lucidez e a loucura
uma rua pequena
por onde trafegam crianças
poetas sonhadores libélulas
e gente que escreve
com sangue

*

disperso

líria porto

norte sul leste oeste
vagou por tudo quanto
perdeu-se

precisou retornar
o vento era contra - a chuva
a favor

*

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

tragicomédia

líria porto

a vida –– essa peleja
essa batalha sem trégua
a gente faz o diabo
rói as unhas
arranca os cabelos
mata um leão por dia
nada contra a correnteza
(usa todos os chavões)
até que a morte apareça
e passe a régua

*

domingo, 23 de outubro de 2016

reticente

líria porto

aqui ali onde seja
que as certezas se instalem
duvido que elas tenham consistência
ou que permaneçam incontestáveis

*

sábado, 22 de outubro de 2016

carruagem

líria porto

no mundo dos sonhos
nossa outra vida paralela
o resgate do tempo as lembranças
as pessoas que se foram para sempre
nossos medos ou desejos

nesta noite eu não tinha oito anos
caminhava de mãos dadas com vovô
o mais lindo libanês levou-me
à frança

(acordar é um choque épico
e eu era a rival da minha avó)

*

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

maria fumaça

líria porto

sou minha mãe minha filha
(quem me cuidava se foi
quem cuidei não me precisa)
vou eu por mim
(e tenho me saído bem)
mas em breve serei minha avó
minha neta
velha demais ou pequenina
para responder por mim
:
preciso ir à estação
com passagem
só de ida

*

correria

líria porto

os dias passam
como se usassem patins
voam e trepidam

*

(in)flexível

líria porto

mudo de ideia
mudo de posição
mas não fico mudo
nem cego nem surdo
perante a injustiça
:
não sou uma pedra

*

enxurros

líria porto

como o trovão e a nuvem
papai dava a bronca
eu chorava

(eu sou a cara da chuva)

*

terça-feira, 18 de outubro de 2016

(des)conhecimento

líria porto

cerramos as pálpebras
reviramos os olhos
miramos o inconsciente

(decifremos nossos códigos)

acordados
nossas pupilas perscrutam
a realidade?

(nós temos dois mundos
o de dentro o de fora)

*

affffffffffffff

líria porto

a fama da foda
a fêmea do fubica
a fístula da febre
a fofura da filha
o furo da fábula
:
a fofoca

*

poetice

líria porto

a vida num parágrafo
talvez numa estrofe
numa trova

não há rimas
para flores que aportam
no pântano

*

meio-dia

líria porto

fincado igual prego
em cima da sombra
no ponto de ônibus

*

domingo, 16 de outubro de 2016

haicai

líria porto

sábado de outubro
a lua feita a compasso
embrulhada em nuvens

*

programação

líria porto

se a morte aparecer
não tiver ninguém por perto
para cuidar dos detalhes
tomara me dê um tempo
para destrancar a porta
pentear os meus cabelos
pintar os lábios

(se ela não tiver pressa
ainda visto a mortalha
e deito co'as mãos
no peito)

*

uterino

líria porto

alimento colchão filtro
seja o que for é um tanto nojenta
a placenta

quando fiquei pronto e vi o mundo
berrei como um bezerro

*

sábado, 15 de outubro de 2016

obesidade

líria porto

perdeu a noção dos limites
invadiu as próprias bordas
produziu estrias

*

mazela

líria porto

naftalina
aquela moça menina
tão recatada do lar
deitada com o mordomo
na cama do castelo

*

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

de brisas e brumas

líria porto

o marido abominava
as calçolas no arame

(cuecas podia)

madame radicalizou
andava de vento em popa

*

à queima roupa

líria porto

bastava um tiro
o resto era tara
de assassino

*

fictícios

líria porto

não o que fomos o que somos
mas o que gostariam que fôssemos
no que poderiam nos transformar
:
assim nos amam
como seres imaginários
como personagens dos seus sonhos

*

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

destilado

líria porto

toda vez que a gente dorme
bebe uma dose de morte

(se for um copo desmalha)

no dia do sono eterno
entorna o alambique 

*

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

picadeiro

líria porto

a vida me diz – tu não podes
passo debaixo da lona e assisto o final
do espetáculo

*

domingo, 9 de outubro de 2016

custosa

líria porto

um redemunho na testa
outro no cocuruto
a menina não tem peia
não mandam nela
os adultos

é fazedora de arte
queixa-se a mãe para a avó
e a caduca a aplaude
tem uma herdeira
isso é ótimo

*

cirandinha

líria porto

belas manhãs
claridade
a primavera é uma festa
além das flores
nas árvores

*

do avesso

líria porto

entre nós – furos
desculpas esfarrapadas
e por debaixo dos panos
a vida sem alinhavo

*

meia lua

líria porto

papoula cor de uísque
vou na proa dessa barca
sem leminski
:
só com alice

*

sábado, 8 de outubro de 2016

mandamentos extras

líria porto

não trazer para casa o que não podes comer
não adquirir o que não ousas usar
não dizer sim para todo prazer
não soltar a franga

*

abandono

líria porto

fez mais que o necessário por um resultado
e o que obteve foi proporcional ao contrário
de tudo que sonhava

(no caso houve sorte
livrou-se do encosto)

*

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

somenos

líria porto

a nossa pele do avesso
e ninguém vai saber qual é branca
qual é preta

*

lanterninhas

líria porto

o sol cai
estrelas brilham
clareiam a trilha
pra lua reinar

*

nosotros

líria porto

os ossos todos juntos
na mesma vala comum
ou então as nossas cinzas
numa única urna

(que nada e ninguém nos distinga
pelo que um dia fomos ou parecíamos
ser)

mendigos e príncipes

*

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

temperamentais

líria porto

pessoas como cactos
polpa carnuda flores
cuidados simples
e unhas

*

violência

líria porto

o amor é caro
o ódio – produto gratuito
distribuído pelas redes sociais
(muita vez às escondidas
em conversinha privada)
é também panfletado
nas ruas

(ouve o som das panelas)

*

gota d'água

líria porto

a fonte secou
a sede não cede
e o que pedem?
:
(h)umi(l)dade

*

pretextos

líria porto

a verdade
mesclada de pequenas ilusões
capazes de apaziguar nossas
consciências

*

passagem

líria porto

atrás da neblina o sol
o farol que ilumina o caminho
e indica a direção

*

excitação

líria porto

lava
do porão à proa
e mesmo que navegue
ou naufrague
o mar não apaga
esse fogo

*

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

príapo

líria porto

deus menino tem um pinto
o dia a brincar com ele
o pinto dorme ele acorda-o
acaricia-o e sente
aquela grande alegria

deus menino tem um pinto
(mais importante que ele)
que um dia vai ser galo
e ser o rei das galinhas

*

saudosismos

líria porto

tenho um cofre para guardar ninharias
quando não me resta coisa alguma
elas me aliviam

(um caco de xícara uma flor seca
um disco quebrado
a bandeira ultrajada do meu país
a roupinha velha do meu filho)

*

o pastor

líria porto

vendia lotes no céu
mas não garantiu o seu
no dia que ele morreu
o diabo amarrou-o
enfiou-lhe um tridente na bunda
chamou-o de concorrente
levou-o para as profundas

*

lábia

líria porto

nesse jogo de palavras – além da língua
vence quem tem saliva

*

o plano

líria porto

uma navalha
um talho na jugular
o vermelho a tingir-lhe a blusa
e tudo se acaba

(abrir os pulsos
caiu de moda)

*

domingo, 2 de outubro de 2016

carcomido

líria porto

o prato que te ofereço
é marmita requentada
pois que perdi o traquejo
não faço mais pão de queijo
nem macarrão alho e óleo

proibiram-me os molhos
só bebo água e refresco
e o contexto é mais pobre
que os panfletos da igreja
e as notícias do governo

(que venha a morte mas antes
a revolução)

*

hipnose

líria porto

os tiranos têm um imã
um brilho agudo

(serpentes
olham fixo
e devoram
passarinhos)

*

sábado, 1 de outubro de 2016

nem vem

líria porto

(sou de paz
mas pombos não cagam
em meu ombro)

*

biológica

líria porto

às vezes fico flora de mim
às vezes fico fauna
e viro bicho

*

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

trivial

líria porto

separo os feijões pro lado
os murchos os carunchados
os outros vão pra panela
cozinham sob pressão
:
fritar o alho a cebola
umas tirinhas de bacon
juntar os grãos bem cozidos
deixar engrossar o caldo

com arroz carne e couve
(alguma farofa?)
garanto-te – é pra lá
de bom

*

o cão

líria porto

o sol morde
o vento sopra
a brisa lambe

*

involução

líria porto

descendo do macaco
primata bicho fóssil
homúnculo na selva
de pedra

*

ninhada

líria porto

no mês de setembro
nascia-lhes o sexto filho
exatamente no dia
que leda fez oito anos

completei sete em outubro
lizete seis em dezembro
em junho a ana fez quatro
em novembro o ciro fez dois

depois do césar mais três
(a wânia a tânia o cícero)
mas meu pai ficou frustrado
queria onze meninos
:
um time de futebol

*

fracasso

líria porto

fui poeta – não sou mais
passarinhos roubaram-me o verso
fico a chocar palavras
nenhuma trova nenhum poema
só garatujas mal-ajambradas

*

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

ponte para o abismo

líria porto

juntar num mesmo balaio
analfabetos políticos
traidores e canalhas
um punhado de juízes
senadores deputados
procuradores polícia
novos ricos e egoístas
banqueiros e empresários
velhos casados com misses
delatores premiados
alguns fundamentalistas
pelegos de sindicatos
mais o apoio da mídia
e estará feito o desastre
o fim da democracia
o enterro da liberdade

*

terça-feira, 27 de setembro de 2016

crise

líria porto

sem profundidade sem superfície
quem puder me traga um copo d'água
com estricnina

cabocla

líria porto

tenho inveja não
nem de quem tem terra
nem de quem tem luxo
tenho inveja é de quem lê
de quem escreve sem erro

*

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

fartura

líria porto

benjamim da sorveteria
fornecedor de meu pai
ele chocava os ovos
mandava os pintos pra nós
meu pai os alimentava
até que virassem frangos

(nunca faltou-nos carne
nem bolos nem omeletes)

*

cismas

líria porto

marandovás em camadas
nos troncos das laranjeiras
eu tinha nojo e medo
porém pensava – veria
nascerem as borboletas

(para que servem as lagartas?)

*

delicadezas

líria porto

meu pai cimentou o quintal
em volta das laranjeiras
fez canteiros em relevo
e semeou esporinhas
:
as florinhas roxas
brancas cor-de-rosa
povoam-me ainda
os olhos

*

dias de são nunca

líria porto

conquanto nossas angústias
perpassem quaisquer milênios
sabemos que as petúnias
florescem desde setembro
e tingem com a cor fúcsia
canteiros dos quais me lembro

(nós fomos crianças juntos
subimos em paus-de-sebo
fizemos graças bagunças
vivemos sem arremedo)

domingo, 25 de setembro de 2016

o ovo

líria porto

o zero nada vale
o zero vale tanto
o zero não é o mesmo
conforme o lado
que esteja

*

rugas

líria porto

velho
é o homem encolhido
dentro da pele

*

a cura

líria porto

arrancar a crosta
lancetar a mágoa
deixar vir à tona
e drenar a dor
o ressentimento
:
quando necessário
afundar um pouco
e raspar o osso

(cicatriz não dói)

*

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

raia

liria porto

no pódio os masoquistas
nas arquibancadas
os sádicos

*

temporada de caça

líria porto

as verdades que inventam
(suas convicções
e razões inexplicáveis)
valeriam mais que provas
condenariam inocentes
protegeriam canalhas?

*

branca

líria porto

a bata de renda
que a lua usava
foi lavada pela chuva
e pendurada ao vento
no varal do firmamento

*

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

visão

líria porto

muita vez nos pomos
em seu ponto cego
o amor nos olha
mas não nos enxerga

*

segundo seu josé

líria porto

um amigo quando some
está a fazer besteira
ou fala de ti por trás
ou te prepara a rasteira

*

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

vaidade

líria porto

à sua imagem e semelhança
deu no que deus – arrogância

*

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

levianos

líria porto

sejamos honestos
tu não prestas eu não presto
mas somos muito melhores
que aqueles que nos acusam
sem provas

*

minguante

líria porto

de novo
a lua parece um ovo
e aparece no céu
para espiar o inferno
do povo trabalhador
que se sente ameaçado
por um governo de merda
que lhe caça os direitos

*

domingo, 18 de setembro de 2016

benigno

líria porto

correu atrás do amor
um tempão a persegui-lo
deu-lhe flores e bombons
e o amor igual um grilo
pulava dum galho noutro
então desistiu do amor
e buscou nalgum amigo
tudo que sempre quis
:
camaradagem

*



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

abro mão

líria porto

o finado teu marido
um finório conhecido
deitou-se na minha cama
rolou comigo achou bom
devolvi-o são e salvo
e ainda com saúde
:
a pensão é tua
já tive o meu quinhão

*

os critérios

líria porto

português e matemática
tirava notas ótimas
(tinha que saber)

história e geografia
tirava notas médias
(teria que estudar)

seria reprovada
por mau comportamento
ou pela cor da pele?

*

véspera

líria porto

ontem foi um dia feio
na verdade um dia péssimo
de pensamentos confusos
pancadas na minha testa

ontem foi um dia estranho
de pedras e metais duros
levei mil tiros nas costas
com pregos e parafusos

ontem foi um dia extenso
durou muito mais de um século

*

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

desmedida

líria porto

quem é aquela mundana
que vai pra a rua sem roupa
que sem pudor sem juízo
provoca o sol e os monges?

quem é aquela maluca
com pinta de mulher-dama
que se enrosca nos poetas
como se fora u'a musa?

*

fossa

líria porto

sentia-se um lixo
nem o laxante o ajudava
precisava escorrer o chorume
convocar urubus livrar-se da carniça
voltar a ser osso duro
:
cortou os pulsos

*

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

rebarba

líria porto

casamentos são monógamos
casamentos são monólogos
casamentos são monótonos
casamentos são monóculos
casamentos são o canto
de falos e falas
falidos

*

envolvimento

líria porto

há o que se fala em tese
há o que se fala com tesão
:
um é da boca pra fora 
o outro é da pele
pra dentro

*

domingo, 11 de setembro de 2016

sinceridade

líria porto

preciso um apagador
pra desmanchar o que fiz
não o quiseste
era giz

(a dor
esta não conta)

*

descabreado

líria porto

ir por aí
sem norte
tal como fosse
um nenhum
sem documento
sem renda
só à procura
de rima
de algo que
por sensível
não me ferisse
de morte

*

lorota

líria porto

não levem ao pé da letra
toda verdade que dizem
falam pelos cotovelos
a maior parte
                     é vertigem

*

homens

líria porto

beberam-me à jugular
a poesia que eu tinha
precisei ficar sozinha
pra poesia voltar

(amores são vampiros)

*

sábado, 10 de setembro de 2016

piração

líria porto

o girassol ficou louco
a causa todos sabemos
aquela ideia fixa
olhar o sol na pupila
até cozer o miolo

*

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

dissimulados

líria porto

em algum lugar de nós
os pensamentos
as lembranças
porém em nós há um pântano
onde se afundam
em segredo
medos pecados e culpas

(esquecemos
por defesa
nossos pedaços
mais sujos)

*

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

vaivém

líria porto

a vaia voa
viaja
vai à veia
do velhaco
e o vaidoso
o vendilhão
viciado
em vanglória
em vale-tudo
é varrido
pra valeta
onde vivem
as varejeiras

(vê-se
num vapt-vupt
em desvantagem
vertiginosa)

*

mapa

líria porto

da praça sete à casa
subia a avenida afonso pena
virava à esquerda na getúlio vargas
chegava à contorno com rua do ouro
e ali mesmo subia a pouso alto
até a salutares

porém se tinha pressa
pela altura da praça tiradentes
pegava o atalho da aimorés
em direção à serra

(abraçava-a ofegante e um tanto cansado
aquele amante)

*

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

tropa de choque

líria porto

pelo andar da carruagem
ameaças ao futuro
eles voltaram ao poder
o abuso da polícia
continua

*

fogo cruzado

líria porto

quis enquadrar-me
colocar-me na mira
escapei
:
não sou a mãe do seu filho
nem sua refém

*

terça-feira, 6 de setembro de 2016

cartilhas

líria porto

semear letras
ao brotarem as palavras
colhê-las em ramalhetes
e ofertá-los às crianças
:
livros são buquês

*

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

sangria

líria porto

dei de ficar no quarto
só saio com verso pronto
perco parte da manhã

esse verso miserável
que me rouba o melhor sol
não vale um tostão furado

(falta-lhe vitamina d)

*

serragem

líria porto

tem gente que é cara de pau
tem gente que é fogo de palha
tem gente que é duas caras
e mentiroso e covarde

*

domingo, 4 de setembro de 2016

fraudes

líria porto

personagens de nós mesmos
inventamos sobre nós o que queremos
e passamos fielmente a acreditar

*

flash

líria porto

morrer é poema épico
(solene como um soneto)
viver é haicai

*

sal na boca

líria porto

tudo fosse estranheza
chorássemos o gosto – o sacrifico
do porvir

*

acabada

líria porto

pesadelos trituram-me as noites
transformam-me o repouso em aflição
dói-me a carne doem-me os ossos
(os pentelhos)
já dei coices no espelho e até na sombra
:
eu fui ferida de morte

*

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

nódoa

líria porto

a cada etapa da vida
viramos a página – algumas naturalmente
outras muito constrangidos

(assaltaram minha pátria)

*

o substituto

líria porto

sempre a tramar o golpe
que em eleições livres sequer seria
o síndico do edifício

*

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

colírio

líria porto

meus olhos
ficam claros quando choro
tenho lágrimas corrosivas
capazes de apagar
as nódoas

*

misógino

líria porto

não sei se consigo
com quem mais viesse
cercar o maldito
fazê-lo sentir-se
frágil acuado
tal como as mulheres
que ele humilha
com gestos palavras
de forma covarde

*

terça-feira, 30 de agosto de 2016

inesquecível

líria porto

então vieste senhora
diante dos teus algozes
dos seus focinhos dentuças
revelaste as artimanhas
e as entranhas do golpe
travestido de impeachment
(o que existe em suas tripas)

com galhardia e honra
e pela democracia
(ainda que ela sucumba)
terás lugar na história
:
volta querida

*

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

quinta coluna

líria porto

há muita mentira jogo de interesses
quem aponta o dedo cheio de certezas
veio para a ceia como fosse judas
por trinta dinheiros
e por traição

*

pandilha

líria porto

piores que tsunamis e tornados
o congresso do momento
sua corja de calhordas
e canalhas

*

rapina

líria porto

urubus rondam o congresso ratazanas
afiam os dentes aguardam para breve
a decomposição da carne as vísceras
da democracia

*

nocaute

líria porto

o verso pode ser
um murro com luva de boxe
(só a pancada – o choque)
nada de moralismo romantismo
auto-ajuda
ou luvas de pelica

*

a prova

líria porto

cinquenta e quatro milhões
noves fora - nada?
:
sem crime é golpe

*

domingo, 28 de agosto de 2016

modismos

líria porto

entrar na onda
é pra quem fica
na areia
:
vivo em alto mar

*

sepulcro

líria porto

na parte que me cabe neste minifúndio
exato o tamanho de uma campa
gravem este epitáfio sobre o mármore
:
aqui jazz um samba

*

sábado, 27 de agosto de 2016

arremesso

líria porto

conforme pronunciada
com raiva ou ternura
uma palavra se torna
pedra
                 ou pluma

*

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

estrelato

líria porto

a beleza que persigo
tanto se esquiva de mim
alguma coisa de rita
e muito de marylin

(howard e monroe)

*

velho

líria porto

o ofício dos ossos a capa de pele
a carne que sofre a morte
que em breve

*

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

trem de doido

líria porto

homossexuais rebeldes
desajustados
briguentos contestadores
grávidas violadas pelos patrões
viciados epiléticos bêbados
putas – todos para barbacena
é lá que se faz o controle
:
uma viagem sem volta

(prendam-me em camisa de flor)

*

pernoite

líria porto

achei que morava em mim
mas não – sou apenas hóspede
deste quarto/ sala
:
só trouxe a muda de roupa
à manhã já vou-me embora

*

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

cirrose

líria porto

as dores no fígado
(havia outro verso aqui)
podem levá-lo a óbito

a vida cobra com juro
cada dose de bebida

*

autobiográfico

líria porto

que papelão – um lapso
e tudo ficava escrito
não tinha como
evitá-lo

(vivia nas entrelinhas
nos pés de página)

*

terça-feira, 23 de agosto de 2016

o vinho

líria porto

uvas pisoteadas
a cada estouro das cascas
o caldo tinto – tu vinhas
comemorávamos
o pão eu fazia em casa
o amor trazias
do minho

*

caça

líria porto

sobretudo sobre nada
como um poeta sem tema
que só persegue
a palavra

*

violência doméstica

líria porto

a criança é queixo duro
mas levar tapa na boca
isso só piora as coisas

*

medalha

líria porto

a bandeira brasileira
a nação alegre
yellow red

*

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

mulher

líria porto

lua cheia lua nova
lua crescente lua minguante
lua azul lua de mel lua de papel
lua só
:
nua

*

domingo, 21 de agosto de 2016

bem-vinda

líria porto

a chuva penetra o chão
dá de beber à floresta
alimenta os rios

*

ambíguo

líria porto

silhueta duma santa
e eu que nasci ateu
implorava àquela virgem
tirasse do meu caminho
aquele cristo cruel
que me batia de dia
e à noite
em minha cama
vinha extorquir meu corpo
furar-me com seu espinho
lamber-me o sangue
e o mel

*

a professorinha

líria porto

vou te ensinar passarinho
faz assim – balança as asas
dá um pulinho e voa

*

checkup

líria porto

olha as calhas os rufos
vê o estado das telhas

limpa os ralos os bueiros
a água não se acumule

a chuva é benfazeja
mas pode nos desabar

(a casa qual nosso corpo)

*

sábado, 20 de agosto de 2016

roteiro

líria porto

quanto me arrependo
não ter conduzido
com mão forte e firme
o leme as rédeas

o tempo não para
o vento prossegue
esparrama os sonhos
e as folhas secas

e é por orgulho
talvez covardia
que vagueio solta
barco à deriva

*

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

o galego

líria porto

terezinha por favoire
nosso amoire – o joaquim
sei que é teu mas bem podias
emprestar-mo sem reservas
seus bigodes aprumados
quando esfregam minhas pernas
fazem cócegas me animam
e eu me quedo tão feliz

(prometo-te
devolvo-to inteiro
sem faltar
nenhum pedaço)

*

solas

líria porto

descalço despercebido
lidava com a timidez
mas com roupa de domingo
a igreja abarrotada
na hora da eucaristia
um vexame
:
suas botinas chiavam

*

dodói

líria porto

mija fogo caga brasa
na toada mon amour
finca o pé segura o taco
ou serás em tempo breve
o próximo cadáver

*


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

proteção

líria porto

o que tenho no meio das pernas
vive esfolado – o jeito é tomar mais cuidado
e usar joelheiras

*

maravilha

líria porto

elke e eu
a mesma idade
ela morreu
vislumbro a lápide
a frieza do mármore
:
é sempre tão cedo
porém seja feita
a vontade da vida

(dorme criança
ri de deus atenta os anjinhos
e brinca de santa)

*

haicai

líria porto

a lua amarela
flor na lapela do céu
em noite de gala

*

companhias

líria porto

não era sozinha
tinha sua sombra
seus pensamentos
as lembranças
um ou dois espelhos
e ainda
sua autoestima

*

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

a louca

líria porto

sou eu mas não sou
pois que perdi o controle
posso passar por mim
dizer bom dia boa noite
reconhecer-me de longe
quem dera de algum lugar
em que alguém me afirme
saber de mim mais
que eu mesma

*

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

i(r)mã

líria porto

coincidência ou acaso
destino – seja o que flor
tropecei nas tuas pétalas
só assim me perfumei
e tantos anos depois
também tu tens o meu cheiro
estejamos longe
ou perto

*

origamis

líria porto

mãos livres
fazem dobraduras
papéis ganham o espaço
voam como pássaros
como aviões

(o papel do papel
é ser outra coisa)

*

acertos

líria porto

a coisa está braba
a dupla discute
periquito fala
a fêmea retruca
ela reivindica
direitos iguais
se houver acordo
o casal arrulha
acaso não haja
acabam com tudo
desfazem o par

*

fragrâncias

líria porto

ele enfia a cara
entre suas pétalas
parece que a dona
(pele perfumosa)
tem dentro um jardim
que ele pesquisa
como cientista
seres que procuram
a suprema essência
ou a própria origem

*

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

receita

líria porto

quiseram fazer de mim uma mulher direita
trocaram os ingredientes fizeram erradas misturas
e deu no que dei

*

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

da sucursal do inferno

líria porto

de hoje em diante
(dez de agosto de dois mil e dezesseis)
todo inocente será réu
e deverá ser punido exemplarmente
:
ladrões criminosos usurpadores
juntamente com a cambada de congressistas
juízes banqueiros empresários latifundiários mídia
representantes das elites e da direita
terão vida boa e o dever de tornar cada vez pior
o salário e os dias do povo

escolas sem partido conduzirão à alienação
serão abolidos os direitos individuais e trabalhistas
sucateadas a saúde e a cultura
dilapidado o patrimônio público e instituída
a exclusão das minorias

pérolas aos porcos

(as reclamações
dirijam-nas
ao mordomo)

*

caliandra

líria porto

eu não sei dizer
quantas vidas tenho

nasci no cerrado
morri tantas vezes

resisti às secas
aos ventos incêndios

espinhos existem
são minha defesa

machuco as serpentes
toda vez que tentam

destruir os ninhos
que eu guardo dentro

*

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

gravidade

líria porto

ô vida dura
a gente luta emagrece
pensa que pode tudo
então bambeia o espartilho
e os peitos batem
à cintura

*

platônicos

líria porto

eu aqui tu aí e a lua lá
a aboiar as estrelas puxar as marés
rolar como louca ao redor
do sol

*

perspicácia

líria porto

tímidos e tristes
(observadores)
para disfarçar
usam ironia
um humor sagaz
(beiram o sarcasmo)
porém sentem afeto
por pedras
palavras
cães
gatos
cigarras

(uns são poetas
palhaços de circo
bichos do mato
veterinários)

*

domingo, 7 de agosto de 2016

rolo

líria porto

amava-me como se ama os amigos
e me achava meio doida – eu era doida por ele
o miserável fingia não ver e eu fingia gostar dele
como amigo

*

reflorestamento

líria porto

vovós – árvores frondosas
nascidas em terra fértil

sombra folhas flores frutos
os netos novas sementes

vovós somos matas
virgens

*

sábado, 6 de agosto de 2016

condenação

líria porto

moro sobre a cratera
houve-se um estrondo
um tremor de terra

se houver injustiça
quem vai penar no inferno
é o juiz

*

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

responsabilidades

líria porto

querer eu quero
poder eu posso
será que devo?

minhas palavras
não têm o peso
do meu silêncio

quando me calo
torno-me cúmplice
(eu sou covarde?)

porém se falo
eu pago o preço
(desço do muro)

*

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

gesto

líria porto

estreita-se a vida
a morte me espreita
e para enfrentá-las
(não com desrespeito)
dou uma banana
pra cada

*

terça-feira, 2 de agosto de 2016

desequilíbrios

líria porto

os que abusam da força
do poder da autoridade
são eles próprios covardes
fracassados impotentes

*

a esmo

líria porto

sem razão explicita
e no meio do nada
a vida faz curva
:
aonde vai a estrada?

*

desalento

líria porto

além da pele
secaram-se-lhe a alma
o desejo
desgraça pouca
é bobagem

(e a vida se escoa
e a morte não chega)

*

domingo, 31 de julho de 2016

tapa-buracos

líria porto

madame não mais o quer
então vem pra minha cama
sussurra-me o nome dela
fingimos que nos amamos
(também não tenho ninguém)
e a gente se locupleta
e a gente parece outro

*

sábado, 30 de julho de 2016

do aprendizado

líria porto

colo de mãe – terra firme
de onde se aprende a partir
navegar em mar revolto
voltar com o barco repleto de peixes
e as mãos em concha

*

sexta-feira, 29 de julho de 2016

figurante

líria porto

uns mais outros menos
na escola e na vida
fomos ou seremos
meros passistas
sem nenhum destaque
sem nenhuma alegoria

(da ala das baianas
sei que vou sambar
nua na avenida)

*

quinta-feira, 28 de julho de 2016

desuso

líria porto

deu teia de aranha e até picumã
mas o compadre chegou e a viúva
está salva

*

árido

líria porto

quem é do deserto
só conhece areia
não sabe o que é
terra fértil

*

consentimento

líria porto

fulano levanta minha saia
alisa-me debaixo da mesa
falo entredentes – canalha
sento-me sempre
junto dele

*

quarta-feira, 27 de julho de 2016

desigualdades

líria porto

amontoados nos morros
casebres de taipa latão
a dura vida dos pobres

a confrontá-los mansões
quem tudo tem tudo
phode

*

avozear

líria porto

faz-me de gato e sapato
e por querê-lo consinto-o
finjo-me aborrecida
no entanto rio-me
oceano-me
transbordo a bordo
de um menino

*

checkup

líria porto

fiz exames
passei nas preliminares 
o sangue é bom

(falta vasculharem as entranhas
remexerem as profundezas)

*

pé atrás

líria porto

estranhamo-nos – desconfianças à baila
olhares enviesados perguntas plenas
de espinhos

*

pouquidade

líria porto

há quem consiga
mudar de par todo dia
como trocasse a roupa
e preenchesse os vazios
que só se completariam
com novos acessórios

*;

terça-feira, 26 de julho de 2016

formosa

líria porto

maria não passa batom
nem precisa –– é bonita
de nascença

*

desencontros

líria porto

repartida em gomos
uma bergamota
a terra
os meridianos
essas longitudes
greenwich é zero
nada mais importa
pois a nossa hora
jamais coincide
:
anoiteço
amanheces

*

segunda-feira, 25 de julho de 2016

editoras

líria porto

desconheço o mercado
e não sei vender meu peixe
então pesco pra consumo
meu e dos meus amigos
:
àqueles que me procuram
que apreciam o (des)tempero
há sempre um lugar um naco
alimento-os com fartura

(comemo-nos em prato fundo)

*

domingo, 24 de julho de 2016

benzedura

líria porto

uns mais uns menos
os medos que temos
dos sacripantas
:
um ramo de arruda
sal grosso água-benta
adiantam?

*

dos milagres

líria porto

o vosso deus
que acreditais e eu não
o arquiteto do mundo
fez tudo bem – tão perfeito
(vede as margaridas)
que às vezes penso
o sujeito
deve ser deusa

*

sábado, 23 de julho de 2016

o mexicano

líria porto

com seu chapéu
fazia-me sombra
cobria meu corpo
com o poncho

para minha boca
seus bigodões

*

jaulas

líria porto

nascidos para os espaços
confinados em gaiolas
homens bichos
e pássaros
:
rebeliões

*

quarta-feira, 20 de julho de 2016

desejo

líria porto

se esta lua fosse tua
eu mandava sequestrá-la
só para tê-la sozinha
na intimidade

*

fracassados

líria porto

mulheres de grelo duro
tememos pinto mole
e saco murcho

*

recatada