segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

aprendiz

líria porto

olha a lagartixa
ela pula rebola espia
espicha-se

oh
que coisa horrorosa
vovó

florinha
beleza não é tudo

*

domingo, 28 de dezembro de 2008

ilhados

líria porto

cercados de poesia
por todos os lábios

*

trottoir

líria porto

tanto tato
nem tocavam no assunto
enquanto eu torcia
por um tête-à-tête
entre a puta
e o santo

*

travessura

líria porto

amarrar numa vara um balde
cutucar a mangueira no quintal do vizinho
e de alma amarela pescar seu caldo

*

plebeu

líria porto

deu-se mal
ao parecer
diferente
du_que
era

: quebrou a cláusula

*

sábado, 27 de dezembro de 2008

lucius

líria porto

peixe d'água doce
grandes olhos
carnívoro quieto
longos bigodes
dentes afiados
predador

(onde fui amarrar meu burro?)

*

noivado

líria porto

a chuva
rio vertical
estende no mar
seu lençol

*

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

rabanadas

líria porto

sonhos fritos
dão-nos pesadelo

*

unguento

líria porto

vivi muito aprendi a curar as feridas
devo e quero lamber minhas crias

(seja minha a dor de existir)

*

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

catirina

líria porto

desta fenestra
fresta funesta
a vida não presta

bom é o meio
o seio o recheio
o veio o pomo
o povo

bumba-meu-boi

*

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

de ocasião

líria porto

precisa toque retoque
uma demão de vermelho
uns afetos no recheio
o objeto é propício
e a circunstância
esplêndida
:
aproveita a pechincha
vendo um coraçâo

*

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

a nuvem balofa

líria porto

vivia aluada
não tinha juízo
qualquer vento fraco
jogava-a de um lado
a outro

um dia essa fofa
tão triste tão triste
chorou um bocado
e de lágrima em lágrima
chuviscou

*

nosso par era ímpar

líria porto

gostemos ou não
somos cães à procura
de osso

*

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

batalhas

líria porto

cada qual com suas tralhas
bagulhos silêncios barulhos
não me deixes tua cruz

já arrasto meus pedaços
minhas penas minhas plumas
meus fracassos

*

ajuste

líria porto

o silêncio tece o verso
então eu te peço
não fales
deixa o galo acordar
a aurora guardar as pantufas
o relógio acertar o meu tempo
o sol clarear

*

domingo, 21 de dezembro de 2008

teatral

líria porto

vestida de renda
tirana me ronda
eu não me rendo

finjo-me estátua
ela passa e desatenta
carrega outro

fim do primeiro ato

*

sábado, 20 de dezembro de 2008

consumo

líria porto

gosta gasta e o gesto
custa-lhe o pasto de um ano
:
doze pancadas mensais

*

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

chega de chuva

líria porto

o sol se aprochega
tímido
a pedir licença
santa paciência puxa-o
: entra senta-te
queres pouso?

*

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

solitária

líria porto

as ruas seduzem-na
a cidade a devora

lombriga dentro das tripas
à noite tem função

*

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

caótico

líria porto

caos caso ocaso acaso descaso
avesso inverso inverno inferno
céu

e no meio da pedra
o caminho

*

insânia

líria porto

a nuvem despenca produz cada estrago
não tem quem segure essa doida
ela passa entre os dedos dos santos dos anjos
até do capeta – nem parece a chuva pacata
que fez serenata em outros dezembros

*

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

reforma

líria porto

quando a lüa tinha trema
e camões lindamente a descrevia
quisera ter nascido no fonema
da extremada lüa que o estremecia

*

dúbia

líria porto

a poesia me salva me serve me situa me solta me supre
mas porém me sacaneia segrega sitia solapa
subjuga

*

deboche

líria porto

já fui moço
corpo firme
pele lisa
nunca tão tolo
ou com firulas
:
velho sim
jamais pacóvio

*

sol d'inverno

líria porto

chega sem aviso entra sem bater
deita sobre o corpo e como um posseiro
finca bandeira

esvai-se na hora
do gozo

*

escorrega_dor

líria porto

o poeta
senta no arco-íris
e desliza

*

obtuso

líria porto

vasculha
interpreta à sua maneira
fala sobre tudo que sequer entende

*

virada pra lua

líria porto

toda vez que preciso
um anjo me acode
tanta sorte faz-me
rica

*

estampa

líria porto

a chuva lambe a terra
arrepia-a e põe flor
nos seus cabelos verdes

: que moça moderna

*

domingo, 14 de dezembro de 2008

vadia

líria porto

de segunda a sábado veste-se de seda
no domingo fica nua

inspiro expiro suspiro transpiro espero
e – palavra – a poesia se me nega

*

às claras

líria porto

o que arde  faz alarde
(embora eu me acovarde)
é a vontade de dizer-te
vem

(não tenho coragem)

*

cosméticos

líria porto

os dias se sucedem
e nesta toada
só a velha lua
fica nova

*

sábado, 13 de dezembro de 2008

necessidade

líria porto

poeta é passarinho
aterrissa quando tem sede fome
ou asas partidas

*

arrulhos

líria porto

o vento pede a persiana fala  para para
não podes não podes não me faças cócegas
tem cuidado com as minhas lâminas

*

a trepadeira

líria porto

cresceu
espalhou-se
pulou o muro

foi mostrar a flor
pra deus e o mundo

*

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

pé de vento

líria porto

eu nem bem piscava era sexta-feira
esta que me olha eu não sei quem sou
pois criança brinco com espelho velho
:
vida apressadinha  tu me desesperas
puxas meu tapete no melhor
da festa

*

desejo

líria porto

tu pensas morreu – ei-lo
fagulha em mato seco metido
no teu leito

*

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

vento

líria porto

não vou te esquecer
só se eu tiver alzheimer

caso aconteça
ao tocares-me
sopra as cinzas

*

nu achar das amigas

líria porto

brincadeiras
cirandas
amarelinhas
lembranças
ficamos velhas

desmanchá-las
tecê-las
manchá-las
sê-las
achá-las belas

bebê-las
(as nuances)

*

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

carências

líria porto

reclama exige lamenta-se
quer atenção redobrada

então fica só
e sem nada

*

disparo

líria porto

não tiro de letra
tiro de palavra

de sentença

*

perda de tempo

líria porto

quem quiser ganhar no grito vai ficar rouco
tenho ouvidos moucos para apito

*

conquista

líria porto

alisa do lado de lá
alisa do lado de cá
arruma as penas
sacode o corpo a cabeça
abre o bico pisca
me olha

: oh

sabiá sabe de mim?

*

cachaça

líria porto

posso?
:
impossível - dessa boi não bebe
e nem passarinho

*

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

teatro

líria porto

um no palco um na plateia
ele rei ela plebeia

(pode ser que haja vaia)

*

sábado, 6 de dezembro de 2008

búuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

líria porto
rola pro outro lado
cobre a cabeça com lençol
medo medo medo
encolhe o tronco as pernas
pesadelo pesadelo pesadelo
mais parece um feto

(defuntos
puxam-lhe
o pé)
acorda sem fôlego
ufa

*

resplendor

líria porto

a floresta de estrelas que vejo do mato
em nada se compara ao deserto
da cidade

(na roça
as noites são bordadas)

*

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

meio pedra meio tijolo

líria porto

mundo estúpido
vida sem sentido
olho o espelho
vejo um velho
jeito trôpego
riso cético
busco um copo
encho a cara
:
hoje tem espetáculo?

*

fim

líria porto

dentro em pouco
um pé juntinho do outro
e com a roupa do corpo

*

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

pasta

líria porto

perdeu amá-la
e sem roupa sozinho
fechou-se no armário
da cozinha

abriu o gás

*

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

descarrilamento

líria porto

a
cobra
de
ferro
vai
rente
na
estrada
carrega
no
dorso
a
bosta
das
vacas
os
rolos
de
aço
o
fardo
e
o
fado
dos
t
r
a
b
a
l
h
a
d
o
r
e
s

*

assim ou assim

líria porto

devagar
a perceber
cada
detalhe

ou rápido
a desfazer-se
dos entraves

*

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

impossíveis

líria porto

palavras não cabem em mim
despetalo-as letra a letra
incinero-as - livro-me das cinzas
não das vermelhas
e das roxas

*

domingo, 30 de novembro de 2008

miserável

líria porto

sinto a sede de um rio seco
de um vinho findo

não vieste
              não virás

e as uvas estão verdes

*

recreio

líria porto

passarinhos e morcegos
chupam mangas
lá no alto

a festança é nas grimpas
da árvore

*

sábado, 29 de novembro de 2008

meninice

líria porto

sempre que chora
arcos se formam
dentro da íris

os verdes de outrora
nadam vermelhos
e tristes

*

carma

líria porto

nasci renasci
sou descendente
e ancestral

limpei-me com tudo e todos
mas não consigo
comigo

*

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

abominável

líria porto

não correspondido
o amor é um escalpelo
: reduz o cérebro
transforma-o em troféu

*

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

chorume

líria porto

leito dilacerado
di_amantes miseráveis
ouro de tolo

não vou a_mar nenhum

*

terça-feira, 25 de novembro de 2008

destaque

líria porto

galeria de obras-primas
a vida abriga meus queridos
na ala principal

(no porão amontoados
os chatos de plantão
os pobres de espírito
os ingratos)

*

entre o relativo e o absoluto

líria porto

na solidão das sextas-feiras
a impressão de que o tempo se encomprida
embora a vida se nos pareça tão breve

*

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

degelo

líria porto

tem um sujeito tímido quieto circunspecto
cujo jeito arredio causa-me arrepio

vontade de fazer-lhe cócegas beijar-lhe a boca
até que o amor o desvencilhe dos limites

e fiquemos quites

(hosana nas alturas)

*

domingo, 23 de novembro de 2008

precipitação

líria porto

partiste tão de repente
eu te disse eu te pedi
avisasses-me com antecedência
iríamos em nave única

(o cruzeiro as três marias tu viste a lua?
aquele cometa tem rabo quente
trancei as fitas do arco-íris)

já não tenho olhos
para este mundo

*

o bêbado

líria porto

beijou o defunto
e lhe disse
:
vai meu irmão
o céu é perto
mas fala com o chefe
só irei lá pra cima
se nalguma estrela
tiver um boteco

*

imitação

líria porto

quanto mais o tempo passa
mais se parece à avó
:
a pele
as manchas os olhos
os óculos de aros grossos
os chinelos as vestes
o jeito de caminhar
a intolerância a sapatos novos

(como fora um carbono
uma cópia xerox)

*

angu perdido

líria porto

meu soneto é capenga e obsoleto
minhas rimas óbvias como minhas primas
minhas trovas são a prova de que nenhum poema
nenhum verso poderá salvar-me

*

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

ironia

líria porto

tem (des)gosto pra tudo
doces ácidos picantes – que amarga
chega a vítima

*

olhos d'água

líria porto

implorei ao mandachuva
tivesse dó do sertão
por lá tecesse umas nuvens
não de inundação dilúvio
um chuvisqueiro molenga
que perdurasse algum tempo
preenchesse o nosso açude
amansasse-nos a sede
engordasse o nosso gado
salvasse o feijão
o milho

o azul não demudou
o sol continua a pino
a chão racha esfarinha-se
permaneço de joelhos
a insistir na ladainha
:
se este céu não tiver senso
não acudir quem precisa
será desleixo desdém
pelos bichos pelas gentes
destas terras desvalidas

*

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

forasteiro

líria porto

entrar e sair - tão fácil
se lá dentro não existir
um olhar de azeviche
que sem precisar suplique
: fica

*

terça-feira, 18 de novembro de 2008

moe(n)da

líria porto

(es)colhe teu destino
o tempo se (es)coa
(a vida não perdoa
quem se omite)

cara ou coroa?

*

entardece

líria porto

à volta da mesa
oito cadeiras

sirvo-me de ausências
e sopa de feijão

quem sabe amanhã?

*

pia batismal

líria porto

não sei se posso
faço-o sem permissão
por um verso laço letra
qualquer palavra
se ela tiver asas
caço-a numa rede
chamo-a borboleta
e só

*

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

sem pantufas

líria porto

arredei nuvem trovão
a chuva puxei pro lado
enxuguei todo o azul
fiz manhã de salto alto

*

decepção

líria porto

desembaraçar nós destrinçar-nos fio a fio
é descobrir na verdade um amontoado
de mentiras

*

domingo, 16 de novembro de 2008

vaticínio

líria porto

divagar
vestir os vestígios da alvorada
desvendar vértices voragens
vertigens

voar é vocação

*

sábado, 15 de novembro de 2008

depois da tempestade

líria porto

minha mãe a grande árvore
guardou-me entre folhagens
protegeu-me do mau tempo
cresci dentro dum invólucro
sem conhecer chuva e vento

um dia caiu um raio
derrubou folhas e galhos
abalou tronco e raiz
ainda assim me agarrei
à sombra imaginária

de mamãe herdei o verde
tatuado no espírito

*

desmedida

líria porto

arrombo as molduras
as retas os planos

desprezo os quadrados

prefiro as montanhas
os morros os gordos

os triângulos

*

natimorto

líria porto

o único filho
morreu enforcado
nas cordas do corpo

que homem seria
feliz infeliz
não tenho respostas

o filho varão
talvez preferisse
ser uma menina

(e fosse quem fosse
de todas as formas
seria minha cria)

*

refrega

líria porto

entre umbigos e ofensas
o sangue ferve

lâmina
perigo iminente

homem ou verme?

*

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

haicai

líria porto

chuva copiosa
as rugas amadurecem
em torno dos olhos

*

binò^óculos

líria porto

a insana
tir'água do joelho
espirra nos artelhos
enxuga c'os pentelhos
a bund'alvíssima

(tua'alma me pertence
caíste n'armadilha
já vi um cu.rioso
d'olho triste)

*

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

onde cantam os bem-te-vis

líria porto

esta terra tem um cheiro
beiro a serra sinto um bem
um ardor me atravessa
um prazer um arrepio
um desalojar das penas
um desejo singular
de morrer neste lugar
e de aqui renascer

*

paciente

líria porto

sem sono relaxa
continua na cama
passarinho sem asa

*

condições

líria porto

após o rapto
o pedido de resgate

a lua só voltará
se o sol baixar o facho

*

torrão

líria porto

atrás da aspereza das folhas
a doçura do canavial

*

meninice

líria porto

as mangas amadurecem
meus olhos não descem das galhas
o cheiro se espalha pelas lembranças

(e se eu pular o muro?)

*

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

repeteco

líria porto

a cabeça ferve
igual caldeirão
intenções
pensamentos
ideias
versos reversos
conversas
repetição

*

terça-feira, 11 de novembro de 2008

pôr de solas

líria porto

a loucura dos olhos abertos
o tempo a pesar-nos as pernas
o verso apesar dos invernos
a boca amarga o chá de ervas

(se a película é tão fina
quanto bolha de sabão
por que tocá-la?)

devia haver um decreto
deixem quieto o poeta
é lindo viver
de brisa

*

boca a boca

lítia porto

quando meu amor falou tenho carunchos no pulmão
não consegui nem chorar

meu peito doeu meu coração doeu minha alma doeu
e só pude dizer – não há de ser nada
respiro por nós

*

eureca

líria porto

perdeu-se o sono entre as trevas
a noite dura mil anos – não sei pedir
nem  rezar

vigio o escuro
sua cara sem cabimento
sequer um sonho
ou um susto

acendo um verso
               invento uma estrela

*

contradições

líria porto

para (en)cobrir seus (esc)ombros
precisou tecer mil xales

(o corpo do pobre jazia no esquife
envolto por flores cercado de olhares
tão liso tranquilo tal qual pedra
mármore)

às vezes a morte
é mais generosa
que a vítima

*

roda-viva

líria porto

a rotina – pata de elefante – amassa-nos a alma
precisamos sair do casulo buscar a cor
das nossas asas

quando a lida me tortura tem a dureza do jugo
cato alegria no bolso

a roda do mundo gira e nada fica parado
passam o sol o vento a chuva
a lua o rio a estrada

eu era moço outro dia
fiquei velho num piscar
:
danças comigo?

*

indigência

líria porto

abstrato prato
maltrato concreto
a fome não tem muro

casebre quatro por quatro
tapera de pau a pique
pobreza a mostrar a cara

miséria em riste

*

pragmatismo

líria porto

eu te uso
tu me usas
não é abuso


é no máximo
o mínimo recurso
dos solitários


*

lamento

líria porto


a língua lânguida alisa o lábio alonga a lenda
faz duma lágrima
                               a lengalenga

*

franqueza

líria porto

coçou-se-me a ponta da língua
cuspi depressa a saliva
a dor foi junto aprendi
toda palavra engasgada
precisa encontrar destino
ou vira tumor maligno

*

recesso

líria porto

manhã cinzenta
vidinha mole
rimas me espetam
versos me bolem

fico na cama
olhos fechados
a chuva bate
molha o molhado
:
o feriado

*

timidez

líria porto

tô fraco tô fraco tô fraco
bicho aflito
dispara do mato pro pasto
para o quintal

tô fraco tô fraco tô fraco
o corpo cinzento pintado de branco
corre dum lado pra outro
pra cima pra baixo
sem direção

tô fraco tô fraco tô fraco
galinha d’angola que graça
bota ovo no buraco
tô fraco tô fraco

tô forte?

*

de floração

líria porto

apraz-me olhar as árvores
a calma com que se movimentam
parecem-se a mulheres grávidas
no aguardo do rebento

*

desbandeirada

líria porto

vou-me embora pro horizonte
lá sou amigo do infante
aquele que adiante
depois da ponte da fonte
busca a nascente o poente

vou-me embora pro horizonte
não me pergunte o quadrante
nem me peça que o aponte
vou-me embora pro horizonte

(lã onde o sol alua)

*

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

pôr de lua

líria porto

estou naquela fase
cheia de resumo

foge-me o verso
a rima escapole-me

peço a são jorge
lave-me leve-me

love me

*

asso/alho

líria porto

doce amargo
gosto de desgosto
dissabor

bandeja mesa cama
fosso

*

domingo, 9 de novembro de 2008

carretel

líria porto

encontros diários ficaram semanais
mensais e eu que era a outra
sei que há outra

mente para ela para mim
ela acredita
eu finjo

(e vou dar-lhe o troco)

*

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

dentuça

líria porto

durante a tua ausência
deitei-me do outro lado
dormi de rosto colado
com a tua fronha

a saudade é uma doninha
a saudade é uma toupeira
ela rói dentro e fora
rói os ossos rói o peito
o corpo os sentimentos
a saudade rói os sonhos

e mostra os dentes

*

um mapa para vítor

líria porto

se vieres à tarde
à tua frente terás o pôr-do-sol
à esquerda mangas prestes a madurar
à direita uma parede
eu no corre_dor

(as grades ficarão para trás)

dormirás
em berço
de almo/fadas

*

suflair

líria porto

ao cozer em fogo brando
certas letrinhas minúsculas

tomou-me espécie de encanto
recheá-las com borbulhas

deixá-las leves macias
iguais suspiros de açúcar

daqueles que em nossa língua
transformam-se em gostosuras

levam-nos a flutuar
em carruagens de espuma

*

anarquista

líria porto

fico a olhar a moça recolher o lixo
ajuntar o cisco com vassoura e pá

vem depois o vento está tudo limpo
espalhar as folhas bagunçar o pátio

*

sumidouro

líria porto

foi-se o sol
levou meu xale de lã

igual a canoa
o sonho resvala
para as turvas águas
do inconsciente

os medos as dúvidas
tudo vem à tona
depois se dissipa
dentro da sombra

*

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

antecipação (villa rizza)

líria porto

sem colarinho
as tulipas de cerveja
floresciam

*

cheiro verde

líria porto

em nossa casa
quando nascia menino
vovó – cozinheira de mão cheia
fazia durante o resguardo
sopa de galinha com farinha de milho
muita salsa e cebolinha

meu pai engolia o quarto
quinto sexto sétimo oitavo
nono filho
                  às colheradas

depois dizia
sou rico

*

radiofônico

líria porto

ouve-se o mar 
por ondas longas
e curtas

*
para um passarinho
felicidade tem asas
*
(líria porto)

cisterna

líria porto

a boca aberta da terra
tem a garganta coberta
de água límpida

*

lembranças

líria porto

e quando amanhã for ontem
esperanças serão acervo

*

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

a árvore

líria porto

joão desferiu-lhe os golpes
a galha matou joão

não sei dizer - foi vindita
ou legítima defesa?

*

talagada

líria porto

delírio vive nas nuvens
pinga lágrimas
enxurrada
córrego

rio no mar/asmo

*

terça-feira, 4 de novembro de 2008

exagero

líria porto

qui-lo
pintou-se-me então um grilo

: se este for como o outro
e eu cometer a estultice
a sandice a imprudência
de elevá-lo ao altíssimo?


*

crepúsculo

líria porto

um sino corta a pracinha
hora do ângelus

naquela conversa mole
de céu de mar de azul

enquanto o sol extrapola
bebe cerveja no bar

a lua fica lá fora
a caminhar pela areia

com sua saia de roda
e sandália rasteira

*

retorno

líria porto

chegar de viagem
entrar sem vacilo pela porta da frente
deitar a bagagem na sala
percorrer a casa
cômodo por cômodo
de canto a canto
e concluir
aqui é o paraíso

*

involução

líria porto

no fundo
no fundo
somos
o quê?
:
e no raso?

*

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

vigia

líria porto

enquanto dormem
fico eu alerta
quando despertam
voo pra cama
e sem um toque
nenhum fonema
vidas se escorrem
(s)em segurança

(merde)

*

perdição

líria porto

não sei o que fazer
em noites como esta
estou à flor da pétala

é essa lua portenha
a infiltrar-se nas brenhas
eu finjo não a desejo
invento sono bocejo
ela me roça

entrego-me

*

de língua

líria porto

penso penso
concluo
:nada é tudo

e vice
verso

*

domingo, 2 de novembro de 2008

promessa

líria porto

juro pela língua que esta língua há de lamber
pelo cale-se do vinho cuja cor reduz-me o verso
pelos cravos e espinhos arrancados destas pétalas
pelos passos que caminham nestes caminhos de pedra
hei de me entoar poeta

*

(des)conforto

líria porto

o lugar da legítima é duro e fixo

o da amante
macio e flutuante

*

sábado, 1 de novembro de 2008

cantoria

líria porto

enquanto o velho poeta
em seu cansaço abissal
arrisca um verso abstrato
a poesia concreta-se
no bico do pássaro

*

fora do trilho

líria porto

trombada de nuvem dá cada estrondo
pior que trombada de trem

tem gente que afirma
nuvem é vapor

: eu não acredito

*

último ato

líria porto

corda
laço
pescoço
passo

i
m
p
a
c
t
o

o corpo?
lasso

*

ambulatório

líria porto

ai doutor a dor seria
angústia trauma
enfarte?

não maria
gazes

*

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

manivela

líria porto

olhos vagos passos trôpegos
dedos trêmulos
quis voltar atrás
estrada sem retorno
caminho percorrido
foz de rio

*

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

desentendimento

líria porto

disse-me poucas e boas
falei-lhe muitas
e péssimas

*

filosofia

líria porto

frida foi à feira à fábrica à farmácia
enfrentou fila
fartou-se de feijão farofa frango frito
anfetamina fenilefrina fenilanina
frustrou-se
ficou frágil e infeliz

falei-lhe – frida faz-me o favor
afrouxa a face flauteia flui
afirma-te

viver é outra coisa

*

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

oxalá

líria porto

nuv'encorpada
igual uma barca
vagueia no ar

o bafo de fogo
mormaço quentura
quem atura?

ô mandachuva
manda brasa
manda água
água
á
g
u
a

*

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

da esperança

líria porto

prestes a cair
o velho se levantava
plantava rosas vermelhas

olgas

*

culpa

líria porto

aquela mulher miserável
a remexer o lixo
fez-me sentir vergonha
do nosso estilo
de vítima

*

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

escaravelho

líria porto

anda a vida por aqui a passos largos
não consigo alcançar as próprias pernas

em tempo tão curto paguei muito caro
finaram-se cinco sextos da minha espécie

*

recesso

líria porto

comer dormir e sonhar
usar chinelo de pano
roupa larga leque de abano
rir da morte das desgraças
andar de cara lavada
deixar que a vida te faça
afagos de vez em quando

*

cor-de-rosa

líria porto

chamas de homem de cor
quem coroar a cordilheira
ousou sem pedir licença

*

sobrevivente

líria porto

levei um tiro
entrou no ouvido
foi por um triz

bebi veneno
agora quero
dropes de anis

eu sou não muito
um quase tanto
porém feliz

a missa é omissa
mas meu pecado
é só preguiça

chega domingo
voo ao mercado
pinga e linguiça

ao fim the end
au revoir c'est fini

(tanto faz dar na cabeça
quanto na cabeça dar)

*

contorno

líria porto

teus braços
a exata medida
do meu manequim
:
não sobra nem falta
um milímetro

*

pretensiosa

líria porto

meio sábia
meio cética
meio cínica
meio sóbria

súbita

(quatro meios
de se achar
o dobro)

*

a poesia

líria porto

acaricio-a
ela finge me querer
mas dorme com uns
com outras
bígama mundana
lésbica
:
puta com cara
de santa

*

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

altar

líria porto

tal como o padre ergue a hóstia entre os dedos
o sol se levanta atrás da montanha
e consagra a manhã

*

preocupação

líria porto

persigo um cisco preto
não sei se ponto ou se letra

fecho o olho ele aparece
abr'olho ele se esguelha

ninguém dorme sossegado
com a pulga atrás d'orelha

*

arrepio de morte

líria porto

afastou-se de mim
afastei-me dele
e aquela história de pele
foi para o espaço

sorte nefasta que afasta de nós
o prazer

*

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

divisão de tarefas

líria porto

amor
limpa por favor a geladeira

não me sobrou um queijinho
cerveja laranja pudim tomate
ou pedaço de pizza

*

domingo, 19 de outubro de 2008

viúva negra

líria porto

a aranha ruiva
contrasta com luto
combina com lágrima
atiça os marmanjos
remexe com_padre

*

rede

líria porto

(versos para lui)

o corpo balança ao sabor do vento
apascento as tristezas as preocupações
durmo ao relento releio drummond

o sonho passeia na praia de santos

*

mormaço

líria porto

a corda o laço
o pescoço o passo
o impacto

o corpo lasso
solto no paço
da solidão

*

sábado, 18 de outubro de 2008

ai meu pai

líria porto

(para fátima queiroz)

na pedra
dentro da sua couraça
a dor mais antiga da terra

a dor de existir

no rio
a pedra deitada em seu leito
chora e soluça calada

é dor resistir

*

terça-feira, 14 de outubro de 2008

tiete

líria porto

(versos para nana)

tua arte_manha para me envolver
deu caldo

eis-me aqui defronte
teu poema errante
cujo alvo ainda
baba

*

pacote

líria porto

desde que se entende por gente
considera parente
bem desnecessário

*

domingo, 12 de outubro de 2008

estupefata

líria porto

traíste-me partiste parti-me
puta que pariu fiquei tão triste
devia ter ficado indignada

*

sábado, 11 de outubro de 2008

surto

líria porto

a mim não me importa
se o verso é curto se a rima é torta
se a morte furta o calor do corpo
o sangue o suor

prossigo absorto a tirar da aorta
o ardor a força e persigo a sorte
por sentir que a vida tem norte
e tem cor

*

traição

líria porto

a ferida jorra
chaga aberta em minhas costas
suja o chão de vinho

bebo o sangue do barril
à pura que te pariu

*

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

bisturi

líria porto

poeta
nau frágil
mar de emoção

navegar é preciosismo
escrever é precisão

*

terça-feira, 7 de outubro de 2008

rouquidão

líria porto

se a pena emudecer
quero um bico um gorjeio um assobio
um rio pra rimar remar mudar de rumo
um amor roma romã
avessos e direitos

*

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

fumaça

líria porto

queimou-se como vel(h)a
perdeu cera forma pavio
a c(h)ama ficou pouca
e agora
na penumbra
não deslumbra
nem son(h)a

fuma

*

domingo, 5 de outubro de 2008

(c)asa de avó não pode ser pequena
e precisa ser i-n.e.s-q.u.e-c.í-v.e.l
*

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

boteco

líria porto

na quina da rua
a tonta da lua
fazia ponto

igual uma puta
naquela disputa
de homens

*

réstia

líria porto

dorme tima

o sol lateja
mina purpurina

a manhã é linda
por si sol

*

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

hummmmm

líria porto

lavo tomates maduros
levo-os ao forno e asso
depois amasso-os tempero-os
e faço o molho da massa

*

sirene

líria porto

todo dia ao fim da tarde
sinto um aperto um alerta

o lusco-fusco me ap(r)onta
a grande noite se acerca

*

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

pressa

líria porto

o uivo do vento
assim sem palavras
parece o lamento
do homem que corre
e sente que a vida
esvai-se

*

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

indiferença

líria porto

da porta pra fora a doçura da cana
da porta pra dentro a secura
que o canavial

*

poema para zita

líria porto

noites e noites sozinha
mas não abre mão da pensão
alimentícia

a lua depende do sol

*

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

abrigos

líria porto

dentro da semente
mora a floresta

tem bico de pena
no avesso do verso

*

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

re_tiro

líria porto

da missa não sabes a metade
um terço

(nenhum quarto)

vemo-nos por aí
e nunca mais nus

*

manha

líria porto

vento brabo – as folhas caem
juntam-se nos cantos como lágrimas
empoçadas

*

terça-feira, 23 de setembro de 2008

cortes

líria porto

andarilho sobre versos
dilacero os pés
firo-me em cacos de vírgulas
sangro-me sobre as rimas
perco a seiva

*

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

quatro-olhos

líria porto

eu preciso de vidraça
para ver a paisagem

*

estações

líria porto

terno e bengala
o inverno fechou as pálpebras
prima_vera acordou ranzinza
o céu se cobriu de cinza
:
depois verão
é outono

*

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

cilada

líria porto

o futuro é uma mortalha
o presente existe
presos ao passado
nós somos a nossa
armadilha

*

tridente

líria porto

isso t(r)emo
alguém como o demo
querer ser meu dono

*

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

avoada

líria porto

pentear-me para quê
se pentes não ordenam pensamentos
se nada está quieto
fora ou dentro

*

asas abertas

líria porto

a paz que eu quero
não é a paz das pombas brancas
nem dos cemitérios

a paz que preciso
é a das crianças negras pardas índias amarelas
felizes como todas as crianças

a paz que necessito é de oportunidades
não de balelas

*

domingo, 14 de setembro de 2008

adiante

líria porto

parto sem dor sem contração
levo no colo o amor franzino
o ectoplasma do natimorto

não quero flores a dor é minha
vou carregá-la como troféu
deixo-te só  salgo as feridas

rasgo as mentiras
a_deus

*

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

rio das velhas

líria porto

seu curso não pára

há muito deixou a nascente
atravessou campos distâncias
aproxima-se da foz

já não teme desaguar
teve medo nas montanhas
saltava-as trêmulo

mistura-se ao mar
a qualquer momento

*

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

agressividade

líria porto

prendeu o amor entre os medos
sentiu o sangue ferver
amor é fogo e preso
estoura bolhas nos gestos

*

lixo atômico

líria porto

se a lua cair do céu
além dos cacos quebrados
aonde vamos guardar
olhares enamorados?

e se as estrelas em greve
não quiserem mais piscar
será que vais resistir
voltaremos a brincar?

se o sol apagar o facho
e tornar-se um astro frio
eu vou aguentar viver
como vel(h)a sem pavio?

se a terra onde moramos
depois da judiação
quiser se vingar dos homens
nós mulheres  escapamos?

sei não

*

terça-feira, 9 de setembro de 2008

escotilha virada para o (a)mar

líria porto

a vida
jogo de carta de_mar_cada
deu-me zape sete-copas espadilha
quatro ases de ouro - minhas filhas
e ainda me deu em poesia
a capacidade de blefar

*

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

em_barco

líria porto

o rio é que anda
faz curvas na mata
cócegas na pedra
alarga as beiradas
afasta obstáculos
serve-me de estrada
e me lava os pecados

*

nos braços de morfeu

líria porto

o bom desta cama
além do macio
é sentir nosso corpo
canoa no rio
deslizar pelo sono
margeado de sonhos
em calmaria

*

domingo, 7 de setembro de 2008

muar

líria porto

colou as penas nos braços
subiu num banco
tentou

caiu de quatro

*

sábado, 6 de setembro de 2008

chibatadas

líria porto

rastejo atrás das palavras
maltratam-me dos donos da pena
os que condenam a língua portuguesa
aos salões dos palácios
e da academia

*

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

margens

líria porto

a infância
água à procura de leito
tanto pode se tornar
rio a caminho do mar
quanto brejo
lamaceira

*

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

papel

líria porto

poetas têm língua bipartida
veneno chocalho rastejo
silvo

(areias movediças
tragam a nossa alma)

*

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

esfinges

líria porto

olho o homem bigodudo a mulher de cara séria
a menina de veludo o velhinho irrequieto
cada cabeça é um mundo
:
o pensamento
um mistério

*

rima ruim

líria porto

acende um pito no outro
não esconde a agonia
o filho que vai nascer
da pança da conceição
vai achar um mundo roto
o pai sem teto sem trampo
a mãe sem registro civil
:
sina de verme e lombriga
pior que vida de cão

*

domingo, 31 de agosto de 2008

revisão

líria porto

eu me livre da inútil exposição
cale a minha boca baixe o meu facho
resguarde-me dos arroubos verborrágicos
afaste-me dos risinhos e ironias
tenha um dia a sensatez
dos sábios

*

sábado, 30 de agosto de 2008

terrena

líria porto

qual fosse um pião
girava em seu eixo
o que não a impedia de rodar
bailar
valsar
ao redor de um tal sol

*

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

a esperar o sol

líria porto

nu'a madrugada
morrer durante o sono
:
carcaça no horizonte
alma alvoroçada

*

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

abertura

líria porto

o sol
abril
:
lua-de-mel
é no lençol
do céu

*

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

igual o arco-íris

líria porto

melhor assim
sem anunciar
sem se despedir
ao perder ardor
arthur sumir

*

terça-feira, 26 de agosto de 2008

assim somos

líria porto

nossa humanidade consiste
em nos sentirmos fortes como o tronco das árvores
capazes de resistir às intempéries
e estarmos tão vulneráveis quanto a folha
que a qualquer momento
                                         pode se desprender

*

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

destino

líria porto

a vida vai como o rio
míngua turva-se clareia
enche transborda faz curvas
tem leito margens peixes
areia pedras canoas
mas não tem retorno

*

domingo, 24 de agosto de 2008

coração

líria porto

acorrentou-me o insensato
trancou portas e janelas
e perdeu as chaves

*

sábado, 23 de agosto de 2008

madaminha

líria porto

corpo disforme
não pensa mais em amante novo
prefere o velho amor de guerra
meio cego meio coxo

*

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

palavras de quem não merece arrimo

líria porto

grato pelo verso que me deste
pelas letras que brincam entre meus dedos
pelo gesto que permite a um ateu
poema tão singelo quanto o gelo
derreter-se ao sol

grato pela musa que voa até mim
com asas de andorinha

*

na seca

líria porto

arvorar-se poeta é tão audacioso
quanto o ipê florir na serra
no mês de agosto

*

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

en_fim

líria porto

do mundo nada se leva
bem nos diziam os antigos
então brinquemos de roda
dancemos cantemos alto
ou fiquemos em silêncio
tais como velhos amigos
daqueles que nos entendem
a cada lágrima ou suspiro

(eu sinto a morte me chama
pois me espere  e sentada)

*

perplexidade

líria porto

noite de chuva tu trazes
mistérios da natureza
decifra comigo o enigma
que induz o bicho-homem
a destruir o planeta

ajuda-me a entender
se embrenhado em si mesmo
razão há para este homem
poluir o ar os rios
exterminar as florestas

diz-me noite friorenta
sem lua e sem estrelas
qual o motivo das guerras
pois isso não compreendo
o homem matar o homem

*

andrógino

líria porto

bonito bonita
o porte delgado
às vezes pavão
uma corça um cisne
outra vez um corcel
uma garça

(elegância não falta)

os olhos são tristes
a boca sorri
e um colibri
desprende-se d'alma

esbelta figura
presença agradável
isola-se afasta-se
bom cheiro bons modos
donzela não é
também não é macho

(um pouco de cada)

bonito bonita
é obra de arte
capricho de deus
em dia de graça

*

safo

líria porto

eu amo essa dona
testemunha ocular
ponto de apoio

eu amo essa dama
seu cheiro sua maciez

eu amo essa cama
lençóis fronhas travesseiros
colchas cobertas

eu amo essa fama
de sem-vergonha

*

terça-feira, 19 de agosto de 2008

sol_tei_rão

líria porto

enquanto a lua sobe
o sol desce
nunca ficam lado a lado
como namorados

a lua decidiu
vai casar com marte
e deixar ab_soluto
o rei dos astros

*

domingo, 17 de agosto de 2008

gramática

líria porto

muita vez meu verso some
foge daqui vai pra longe
eu acho  ele se esconde
na profundeza das regras

eu fico triste sem graça
perco o jeito de escrever
meu verso volta e me abraça
devolve-me a minha essência

*

sábado, 16 de agosto de 2008

de xale

líria porto

no inverno o sol alua
é de manhã e anoitece
a tristeza me visita
ponho mesa para duas
e espero a primavera

*

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

chaga

líria porto

a punhalada nas costas
provocou-lhe um furo fundo
a alma ficou exposta
quem olha sabe – ainda gosta
daquele filho da prússia

*

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

a fotografia

líria porto

quando alguém afirma
ela se foi para sempre
ele tira o retrato do bolso
pisca-lhe o olho esquerdo
dá-lhe um sorriso e murmura
:
todos eles são tolos
não sabem que estás aqui

ela ri
linda como antes

*

terça-feira, 5 de agosto de 2008

dio santo

líria porto

um moreno tão bonito
ao fitar o seu semblante
toda a pele se eriça
bate um frio baixo-ventre
logo acende um pisca-pisca
deus do céu o que são issos
premências?

*

domingo, 3 de agosto de 2008

ataranto

líria porto

num ponto o pranto
o sentimento
:
por_tanto eu aguento

*

sábado, 2 de agosto de 2008

(e)vidências

líria porto

algo me diz tem cuidado
sigo a intuição

o coração dispara
eu paro
ouço o alarme
são raios relâmpagos
trovões tempestade
o diabo

(o coração não me engana)

*

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

rameira

líria porto

vi-me em cama de vime

havia um buraco
um homem a cavá-lo
um homem a cavalo

um pouso

*

terça-feira, 29 de julho de 2008

despeito

líria porto

pavão tem pé feio
dizia o invejoso
enquanto a ave
abria a plumagem
e exibia sua cauda
impecável

e tu
és perfeito?

*

mineira

líria porto

nasceu no triângulo
e a instável figura
impôs-lhe uns espantos

de terras tão planas
um vento aprumado
jogou-a às montanhas

sentiu na viagem
de sonhos loucuras
vertigens desmaios

perdidas instâncias
cavalga sem rédeas
nas próprias palavras

*

segunda-feira, 28 de julho de 2008

estéril

líria porto

falar tão calado
silêncio gritante

e o amor desarmado
desanimado agonizante

*

domingo, 27 de julho de 2008

tonta

líria porto

no labirinto
nenhum equilíbrio
só ruídos barulhos
silêncios murmurados
por descuido

*

sábado, 26 de julho de 2008

a um bravo

líria porto

ao balançar suas lâminas
a persiana me lembra
o barulho das orelhas
dum cachorrinho branco

morreu faz algum tempo
mas su'alma me visita
ele era meu amigo
mais do que muita gente

sinto saudades do tiu
seu focinho cor-de-rosa
a roçar a minha porta
minha alegria

*

quinta-feira, 24 de julho de 2008

agenda

líria porto

domingo ia à missa
segunda rezava o terço

na quinta
maria das quantas
limpava o quarto
e punha o lixo
na cesta

no sábado
(aleluia)
vinha um soldado
tirar-lhe as teias
da aranha

(nu
      tempo
             restante)

*

quarta-feira, 23 de julho de 2008

tentação

líria porto

eu ouço um rugido
e vem da cidade

a fera noturna
acende mil olhos
estende os tentáculos
aperta o boêmio
em seus braços

*

se conselho fosse bom

líria porto

precisas mudar daqui
esta casa é muito grande

: também sou
não vou me mudar de mim

*

segunda-feira, 21 de julho de 2008

idas e vindas

líria porto

o nosso caminho
de espinhos e pétalas
bifurca-se

adeus ó amado
não vou te esquecer

um dia quem sabe
os braços do rio
misturem nossas águas

*

sábado, 19 de julho de 2008

certezas

líria porto

sem sombra de nuvem
azul absoluto

sem sombra de dúvida
nem o mandrake

*

sexta-feira, 18 de julho de 2008

anúncio

líria porto

vivo comigo faz décadas
durmo e também desperto
almoço janto e me banho
penteio-me enxergo-me
completo-me
quem quiser morar aqui
por certo terá problemas

porém se permanecer
saberá dos sabiás
das andorinhas gorjeios
dos sóis das luas estrelas
das janelas sem tramela
dos temperos arrepios
e dos desmaios no leito

*

conciso

líria porto

tão direto
que encurvado
arreta-se

*

balançam haicais

líria porto

noite de luar
as flores da laranjeira
grinalda de pétalas

*

barcos de papel
sobre as águas da piscina
arrepiam-lhe a pele

*

avião no espaço
urubu gira faminto
procura carniça

*

ratos e morcegos
entre as sombras do quintal
pela noite adentro

*

dia ensolarado
sabiás catam gravetos
nos jardins da praça

*

restos na lixeira
em caixas de papelão
cascas de bananas

*

varal

líria porto

quando chega a madrugada
e a manhã não veio ainda
o sol que maneja as cores
põe a noite no estaleiro

entre o azul e os olhos
tudo pode acontecer

*

ressentimento

líria porto

tua raiva agarra-se à garganta

a minha
entre a língua e os dentes
mistura-se à saliva

cuspo-a na pia

*

descanso

líria porto

a vida como onda
sempre em movimento
atravessa o tempo

acalma-se na praia
éter namorada

*

quinta-feira, 17 de julho de 2008

versinhos tirânicos

líria porto

levo relevo
carrego pra todo canto
dou de mamar acalento
mas quando morde meu peito
saio de mim

*

pote de ouro

líria porto

a amizade é bonita
parece água de bica
nela se bebe à vontade
lava-se mágoa
tristeza

se acaso faz tempestade
e a água se embacia
o mau tempo logo passa
e jorra límpido
o riso

onde mora a amizade
nasce o arco-íris

*

quarta-feira, 16 de julho de 2008

onde estão as chaves?

líria porto

eu nunca vou te esquecer

(não sei quem sabe
e se eu tiver alzheimer)

*

segunda-feira, 14 de julho de 2008

análise

líria porto

cavoucar profundo lá no âmago
revirar nossos monstros e conceitos
é revelar-nos o que temos nos porões
é refazermos a imagem do espelho

*

o bordado

líria porto

um pano branco
a ponta da agulha
as linhas de cor
as borboletas

ponto
após
ponto

*

foi-se

líria porto

morre um dia morre outro
morre um e morre o outro
e mais dia menos dia
sou o novo morto

amanhã pode ser tarde
ontem era hoje

*

alguém

líria porto

um grão de areia
igual a todos os outros
nem melhor e nem pior

suficiente

*

invisível

líria porto

nem a grande nem a pequena - a do meio
a que não manda nem obedece
aquela de quem se lembra
vagamente

*

intrincado

líria porto

sem respostas às perguntas
sem remédio para os males

valerá estar num mundo
de penas e de pesares?

*

rompante

líria porto

emoções acumulam-se
represam-se as atitudes
um dia o dique rebenta
quem segurava não aguenta
põe a perder quase tudo

*

indiferentes

líria porto

tal como eu me atirava em teus braços
o mar se joga sobre os rochedos

iguais a ti
as pedras permanecem impassíveis

*

passo atrás

líria porto

a minha cara de lua
a tua cara-metade
ficamos lá cara a cara

eu te olhava de frente
tu me olhavas de lado
cara ou coroa pergunto-te

tu não respondes
acovarda-te

*

sem pressa

líria porto

névoas rugas nuvens
cãibras dores ferrugem
mesmo assim a velhice é breve
e a vida - um luxo

*

domingo, 13 de julho de 2008

abracadabra

líria porto

escrevo
afio a pena

um dia quem sabe
num rasgo relâmpago
raio ou milagre
eu encontre
a mágica

*

trapézio

líria porto

o coração pede
o corpo permite

viver é salto sem rede
arrisco-me

*

quinta-feira, 10 de julho de 2008

agonia

líria porto

tem um poema calado
a desprender-se do lado
onde o grito se afigura

um poema de silêncio
sem palavras e sem fala
entranhado de estranhezas

sua cor a cor do sangue
seu teor o horror à guerra
a maldição do mundo

*

de passagem

líria porto

lua rola bole olha-me
cola-se em minha janela
brinca brilha mostra-se beija-me
gosta cora encolhe-se peço-lhe
fica um pouco mais
espera-me

lua míngua
vai-se embora

*
confiança
é dormir igual criança
na cama de outrem

quarta-feira, 9 de julho de 2008

deserto

líria porto

palavras me exaurem
quando penso morrer à míngua
brotam-me versos como margaridas

depois da chuva
mares de areia
viram jardim

*

prece

líria porto

ó deus
acaso existas
antes faço uma troca não um pedido
se a dor destinar-se a meu filho
seja-a a mim –– e seja
ao triplo

(nenhuma fêmea suporta
o sofrimento da cria)

*

domingo, 6 de julho de 2008

recuerdos

líria porto

os nossos braços cansados
já não apontam estrelas

quem as tem cravadas n'alma
em sonho é capaz de vê-las

tais como uma lanterna
a clarear as lembranças

dos tempos bons da infância
quando a gente tinha medo

de ter verruga no dedo

*

pensamento

líria porto

havana lisboa londres madri
santiago beirute viena bagdá
istambul tóquio roma paris
moscou méxico nova york
são paulo toronto luxemburgo
cabul brasília pequim pretória
jerusalém damasco luanda jacarta
sófia buenos aires

em pouco mais de um minuto
revirou mundos e fundos
sem sair do lugar

*

d'amoníaco

líria porto

à noite brincava com fogo
em sua cama entranhava-se
o cheiro fatídico

*

psicodélicas

líria porto

confusas difusas intrusas
as musas são um barato
e são caras

*

dona doida

líria porto

abrir os braços
beirar o horizonte
rodear a montanha
ir à espanha colher flores vermelhas
levá-las para maria seixas
em portugal

sonhar fingir-nos mágicos
fazer o que se nos der na telha
voar sem asas

*

amorzinho

líria porto

para te dizer ai loviú
adoro teus bigodes
pintei as unhas de azul
vamos a são roque comer alcachofras
amanheceu tão bonito
tenho carne de sol
comigo ninguém pode
odeio tuas amigas
comprei um mimo pra ti
voo no domingo
vou de vassoura
não vejo a hora

vamos beijar juntos?

*

sábado, 5 de julho de 2008

avó

líria porto

um carneirinho
perdeu-se no céu
:
não chores meu bem não chores
mamãezinha foi chover
e não demora

*

fatídico

líria porto

a vida nos trata conforme a tratamos
a morte nos mata em quaisquer
circunstâncias

*

avessos

líria porto

eu sou minha tu és teu
sem caras-metades sem meias verdades
e seguimos felizes até a crise

(ou a crase)

*


evolution

líria porto

coça a cabeça o corpo a orelha
quase um mono

pensa?

*

sexta-feira, 4 de julho de 2008

marginal

líria porto

acalento versos
como se fossem bebês

cuido deles alimento-os
dou-lhes as melhores letras

nem sempre consigo
cada verso tem sua própria
índole

*

quinta-feira, 3 de julho de 2008

'délia

líria porto

a dona que compra quiabos na feira
diz cada coisa e nada tem de doida

a mulher do zé de freitas
é sábia

*

obstrução

líria porto

um poema ocluso amarrado dentro
a gritar calado a soar silente
a enlouquecer-me

*

quarta-feira, 2 de julho de 2008

caríssima

líria porto

vou juntar num só buquê lírios e flores do campo
amarrar laço de seda enfeitar com pirilampo
e mandá-lo para mim

*

íngua de sogra

líria porto

lua-de-mel minha linda
só lhe adoça o céu-da-boca
pois depois a vida a dois
pode amargar a língua

*

lacrima

líria porto

no tempo dum pingo d'água
eu nunca vi tanta mágoa desprender-se
duma rima

*

orgulho

líria porto

quando as tias disseram
em tom muito humilde
ele é bom para nós
dá-nos o arroz
num pulo reagi
: não devam tão pouco
a homem tão rico

eu tinha dez anos

*

segunda-feira, 30 de junho de 2008

cismas

líria porto

entre o dia e a noite
mesclam-se retalhos de sombras
corro para casa e me escondo
dos monstros e dos fantasmas

*

domingo, 29 de junho de 2008

parelha

líria porto

a pequena morte
dá-nos corpos
inocentes

estrelas se desfazem
e nus nesse oásis
quedamo-nos

entre as frestas
o caldo da entrega
sal do amor

roupas largadas
pegadas
suor

*

quinta-feira, 26 de junho de 2008

ainda

líria porto

não vou me deixar morrer por um sonho arruinado
mesmo que me amargue a boca talhe-me o sangue
e eu chore um oceano

não vou me deixar morrer
por ninguém

*

jaça

líria porto

saltou o sol do poleiro
acendeu o seu luzeiro
debruçou-se à janela

amanheceu azulinho
há um filhote no ninho
bico aberto para o céu

o resto da passarada
canta em louca revoada
a festejar a manhã

viver não é azinhavre
rói-me é dormir sozinho
acordar em cama larga

*

fantasia

líria porto

bastou uma rachadura
uns pingos de chuva fina
e o cimento impassível
vestiu-se de bailarina

*

mano a mano

líria porto

a lua branca e bela
rolou debaixo da tela
e foi brilhar no japão

do lado de cá do sol
pintaram um arrebol
da cor do seu coração

sonhei com ele essa noite
esta saudade um açoite
parece estava ao portão

ele de mim se escondeu
a vida da cor do breu
encheu-me de escuridão

este poema infantil
tão cheio de ão e til
eu fiz para meu irmão

vaca amarela
pulou a janela
quem falar primeiro
come a bosta dela


*

roseiras

líria porto

fora de tempo e por gosto
meninas em festa

tínhamos espinhos
espinhas

adolescíamos

*

voo

líria porto

sabino fernando mineiro
marcaste encontro com deus
espera menino  no espelho
que dentro em pouco
vou eu

*

deslumbramento

líria porto

quando a lua fica acesa
meu olhar de folha seca
o vento leva

o luar é tão bonito
um colírio verdadeiro
a curar os olhos velhos

*

quarta-feira, 25 de junho de 2008

líria porto

cheirava pólen
foi rechaçada

recusaram suas cores
retiraram-na da relva
recortaram-lhe as asas

morreu lagarta

*

terça-feira, 24 de junho de 2008

libertação

líria porto

quando eu morrer
não fiques triste
consola-te assim
:
ela agora é pensamento
não tem mais limites

não guardes as cinzas
mandarei um mandarim
trazer notícias

(que sono)

*

segunda-feira, 23 de junho de 2008

bem-te-vi

líria porto

ao abrirem-se as janelas
assistimos com prazer
o maior espetáculo da serra
direto de belo horizonte

*

domingo, 22 de junho de 2008

ao_moço

líria porto

papa de arroz
(errei a mão)
feijão ralo
tomate verde
couve amarela
falta farinha
e o preço dos ovos
pela hora da morte

carne –– a minha

*

bangalôs

líria porto


num tempo de paredes brancas
pintava a fachada das casas
com tintas de coloridas
:
fisgava olhos
e almas

*

sexta-feira, 20 de junho de 2008

instintos

líria porto

não subestimes um vulcão extinto
toda terra tórrida tem na memória
histórias de explosão

lembras-te das brasas
cobertas de cinza?

*

quinta-feira, 19 de junho de 2008

blá blá blá

líria porto

parlendas empolam as pérolas
embolam falácias à língua
pelejas entubam a prosa
e a impelem à berlinda

*

enfiada

líria porto

lá no fundo da bacia
passarim largou a pena
para mim serviu de guia
vou escrever um poema

uma pena tão pequena
com a ponta amarelinha
grandes são as minhas penas
eu as carrego sozinha

afundei a vida assim
bem dentro desse balaio
criei raízes entraves
mais pareço um para-raios

meu coração bate bate
pirulito me bateu
desta vida quis melado
e por isso o pau comeu

chorei dentro da peneira
coei dor e muita mágoa
soçobrei pedra de sal
vou beber a caixa dágua

meu amor saiu de cena
fiquei assim puro enjoo
aproveito a porta aberta
vou tentar não sei se voo

quem quiser seguir comigo
vem depressa vem ligeiro
acaso eu perca a cabeça
nunca mais terei conserto

canta comigo a cantiga
canta agora nesse instante
eu além de tua amiga
também posso ser amante

saiu água da mangueira
num esguicho decidido
quase igual namoradeira
com vontade de marido

encontrou terra sedenta
entrou logo sem bater
ponho-me a pensar lá dentro
no que pode acontecer

apareceram três brotos
os dias passam corridos
mesmo assim com essa chuva
beijou o chão ressequido

esta vida é traiçoeira
arapuca gigantesca
se não fores muito esperto
levas pancada na nuca

vou parar com a loucura
desse verso compulsivo
ele não me leva à cura
de ser doida eu não me livro

*

grávidos

líria porto

vou te falar a respeito
talvez me possas entender
minhas letras pequeninas
um enigma para mim
navegam das águas limpas
para o centro das tormentas

eu as queria serenas
elas nunca se contentam
agitam-se por qualquer sopro
sacrificam-me os dedos
roem-me as unhas e cospem
versos inversos esquerdos

por vezes só inquietas
outras cruéis ciumentas
minhas letras miudinhas
estejam tristes ou não
aparecem-me assaltam-me
em horas inusitadas

difíceis choram chateiam
escondem bocas de lixo
ficam letras alteradas
trêmulas tímidas implícitas
borradas sujas de medo
quais letras recém-nascidas

a sua essência é em sumo
o resumo das vivências
experiências e sonhos
não somos papel em branco
onde tem versos há fetos
poetas em sofrimento

*

muita esmola

líria porto

supõe que eu me resolva
de mim afaste os entraves
arranque a pedra do rim
retire espinhos e cacos
apague a sombra
os fantasmas
encontre o pote de mel
implante um sorriso largo
acerte na loteria
e ao final eu me case
:
seria bom
e ruim

*

nas franjas do horizonte

líria porto

a minha história de hoje
enlaçada de bonina
pingada de água de cheiro
é a história duma rosa
dum beija-flor todo prosa
e das tramas do destino

no corredor que é a vida
lá pelas bandas de lá
não sei se sorte ou azar
ou se já estava escrito
uma rosa perfumosa
entreabriu mui dengosa
lindas pétalas de seda

voava nos arredores
um beija-flor aprumado
de colarinho azul claro
querendo comprar bolinhos
e ao ver tão rubra rosa
assanhou-se chegou perto
gostou da cor e do jeito

bons dias bela menina
posso ficar por aqui?
:
tu que sabes beija-flor
não te posso fazer sala
tu já és comprometido
além do mais és metido
e estou muito ocupada

ele insistiu implorou
beija-flor é bom de bico
a rosa não resistiu
é doce rosa amorosa
os dois logo se entenderam
e teceram num instante
aquele romance ilícito

ao despencar o astro rei
na hora de ir-se embora
o beija-flor apressado
limpa o bico alisa as asas
pisca os olhos miudinhos
observa um lado e outro
depois bate em retirada

toda semana é assim
o beija-flor tem desejos
e finge comprar bolinhos
a rosa gosta dos beijos
desabrocha sem recato
e se repetem os fatos

(esta história não tem fim)

*

reencontro

líria porto

ver-te-ei em breve
leve-me um furacão
ou a brisa leve

*

quarta-feira, 18 de junho de 2008

insensível

líria porto

quarto crescente indiferente
ao quarto minguante das nossas paredes
chorosas do tempo do amor fremente
entre os dormentes da nossa cama

*

trovadiagem

líria porto

vento norte que vem vindo
destramela meu portão
fome de amor estou indo
vou comer na tua mão

*
vaga nuvem vagabunda
nave vaga navegava
vaga-lume vala funda
era a vela que velava

*
lá no alto existe um moço
cheio de olhares pra mim
fui comprar jiló pro almoço
trouxe rosas e jasmins

*
tua gaiola é dourada
sou livre no meu poleiro
tu tens as grades mais nada
eu tenho meu mundo inteiro

*
as distâncias comprovadas
não são distantes assim
se eu viajo é nos sonhos
não há lonjura nem fim

*
ninguém me chama pra dentro
ninguém me bota pra fora
sou eu quem sabe se entro
ou se preciso ir embora

*

providências

líria porto

preciso limar as pontas
arredondar as arestas
perfumar minhas cobertas
colher morangos silvestres

o meu amor vai chegar

que venha tal como é
e traga tudo que queira
chinelos discos tristezas
as portas já estão abertas

*

pequenininha

líria porto

vitória é coisa grande
virada de jogo euforia
no entanto
a vitória mais bonita
que me faz tão feliz
não mede nem um metro
sapateia dança sorri
prende-me em sua teia

seus olhos são pretos

*

mãe áfrica

líria porto

ouvi os lamentos
açoites gemidos
nas minas igrejas
nos tanques das casas
cozinhas cadeias
barracos cortiços
espinhos no coração
do brasil

e vejo seus filhos
na universidade

*

tarde da noite

líria porto

enquanto a lua e a nuvem
brincavam de esconde-esconde
estrelinhas piscavam
tontas de sono

*

domingo, 15 de junho de 2008

medo de defunto

líria porto

irmã ilza - professora de religião - afirmou solenemente
apenas os escolhidos os abençoados os muito santos
verão almas doutro mundo

(ufa - podia dormir sossegada)

*

sexta-feira, 13 de junho de 2008

arrimo

líria porto

um dia descobres
quem mantém os ricos
são os pobres

*

quinta-feira, 12 de junho de 2008

principesca

líria porto

no alto da serra
assistir os crepúsculos
olhar o sol nos olhos
a lua as estrelas as nuvens
dançar na chuva
viver de asas abertas
azul no topo e verde
ao sopé
:
isto sim é que é poder

*

terça-feira, 10 de junho de 2008

lâmina

líria porto

o poeta caminha descalço
pisa na ponta da estrela
o universo se abrasa
sangra uma rima
um poema

firifiu firifiu
canta passarinho
(eu bem te ouvia)

*

devastação

líria porto

não tentem estancar-me o choro
conter o meu sofrimento
a dor é a expressão das perdas
a possibilidade de consolo

*

quinta-feira, 5 de junho de 2008

borboletas brancas
meninas vestidas de anjo
cantam no coreto

(líria porto)

*

quarta-feira, 4 de junho de 2008

meu silêncio é um calo com_sentido

par de vasos

líria porto

para o meu vestido de bolero
quero o azul cheio de noite
que antecede as manhãs
:
vai combinar com teu terno
e o batom vermelho
com as tuas
bravatas

*

terça-feira, 3 de junho de 2008

desorientação

líria porto

abateram o abacateiro
e os passarinhos
cujos filhotes pereceram
e perderam os ninhos
parecem-se àqueles órfãos
cujos olhos tão imensos
cheios de interrogação
sentem o coração vazio
como um rio seco

*

segunda-feira, 2 de junho de 2008

ramerreme

líria porto

inquieta no meu canto
não perdia uma letrinha
tal e qual um pirilampo
queria a luz que alumia

eu teci diversos versos
uma tiara um destino
então veio uma andorinha
e desfiou meu tecido

hoje é segunda-feira
dia de limpar a casa
pôr a sujeira no lixo
asa é coisa de domingo

ô vida ingrata

*

quinta-feira, 29 de maio de 2008

retalhos

líria porto

parecia qualq
uer coisa que
brada e ao mes
mo tempo int
eira embora não
passasse de ped
aços de pap
éis rasg
ados por men
ino desalmad
o antes do te
mpo

*

domingo, 25 de maio de 2008

troca-troca

líria porto

sou vira-folha amor
maria vai com as outras
por quaisquer olhos verdes
caio em tentação

*

lapsos

líria porto

nesgas importantes
somem da memória
e saias de roda
viram saias justas

só a velha lua
fica nova

*

vendaval

líria porto

o vento
vai
vem
volta
vira
revolta-se
revira-se
e vertical
varre
devassa
vilipendia
devasta
devora
o vale
a vila
o verde
a vontade
de
v
i
v
e
r

*

sábado, 24 de maio de 2008

curiosidade

líria porto

amor é dose
paixão overdose

estás bêbado
ou à beirada da morte?

*

quinta-feira, 22 de maio de 2008

ambiental

líria porto

as pedras deitadas no leito do rio
cobrem-se com lençóis d'água
o frio não entra e os peixes
amam-se à vontade

*

terça-feira, 20 de maio de 2008

derrapagem

líria porto

depois da curva uma cruz
e outra depois de outra
assim se fazem as tristezas
as lágrimas copiosas

há tanta coisa bonita
ao longo da vida
ao canto
              dos olhos

pra que pressa?

*

quinta-feira, 15 de maio de 2008

da última vez

líria porto

meu coração sorrateiro
faz canção de bem-te-vi
e ao som de um bolero
no laço do teu abraço
vira flor de sabugueiro
cheiro de mato
capim bravo

com a sede do deserto
pede água chega perto
rodopia tem vertigem
tem inocência de virgem
recebe a ti todo
inteiro

(não desmaiei
eu morri)

*

cadeia

líria porto

a borboleta tão linda
tinha a ilusão de voar
cheirava pólen

disseram que traficava
acharam traço evidente
nas cores das suas asas

condenaram-na  és lagarta
de hoje em diante rastejas
esta é a justiça dos homens
:
arrasta a sentença

*

sexta-feira, 2 de maio de 2008

desencontros

líria porto

a tua e a minha pele
assim como nossas almas
fazem um tal encaixe
que às vezes eu me pergunto
porque o céu nos nega
a eternidade
desta engrenagem

quando não vens
quando me faltas
fico a vasculhar segredos
a entrelaçar meus medos
nos teus recados

*

terça-feira, 22 de abril de 2008

jornal

líria porto

palavras vagas escorregadias
melhor deixassem o papel sem nada
ele próprio a se fazer destino
sem o amontoado
de bobagens

*

labuta

líria porto

coar nuvem co'a peneira
encharcar inteira a terra
pra depois secar o barro

viver não é um folguedo
às vezes dá um cansaço
o dia-a-dia tem peso

*

vazamento

líria porto

existe um furo percebo
por onde nos desfazemos
perdemos nossa energia
esse orifício é o medo

medo da morte da vida
das dores cismas tristezas
das incertezas velhice
dos sofrimentos
das perdas

*

na fila

líria porto

igual a lagarta em cima da folha
a moça deitada na beira do poço

o sol a banhava envolvia-lhe o corpo
a água esperasse tocasse-a depois

*

arrogância

líria porto

seu orgulho sua pose
em nada vão lhe ajudar
o nariz sempre empinado
impede-o de olhar abaixo
onde se encontram buracos
armadilhas vãos e fossos

quem tem o rei na barriga
sabe a fezes e lombrigas
seja rico ou indigente
feito de lata ou de ouro
e a morte – esta fulana
não poupa ninguém

*

ao tom da pele

líria porto

o meu verso ganha cor
cheiro bom sabor tempero
toda vez que um forasteiro
abre as portas do meu corpo
e deixo que ele entre

depois quando vai embora
o versinho se descora
fica assim
tolo
sem jeito

*

pé na cova

líria porto

engoliu pus e coágulo
fecharam-se-lhe as narinas
a febre vinha voltava
ficou um fiapo

cansou-o viver chinfrim
deu então grande guinada
passou gilete n'artéria
de_terminado

*

espaço ermo

líria porto

sentiu o amor arder sem endereço
procurou astros príncipes mendigos
não houve correspondência

desistiu evaporou-se
sumiu lentamente

seu nome?
poema

*

repescagem

líria porto

vida estranha
mudou de cima pra baixo
ou seriam os meus olhos
o jeito meu cabisbaixo?

filhos partem amores somem
as cores perdem seus tons
vermelhos ficam marrons
os azuis acinzentados
ainda bem à manhã
restou-me o canto
do pássaro

frio aumenta lua míngua
navegar tristeza é sina
não há saída

coragem

*

segunda-feira, 21 de abril de 2008

flagrante

líria porto

o grilo quieto no teto
parece grilado com algum pensamento
parado no meio do pulo

não vou estragar-lhe a sesta
só mato em legítima defesa

*

fantástico

líria porto

leio deitada e o sono
leva-me ao inimaginável
sonho com mundos mágicos
seres alados
príncipes cascatas delícias
e nas ondas do absurdo
ultrapasso tudo

cubro-me com lençóis d'água

*

a implacável

líria porto

mais ágeis que os pássaros ou o vento
pensamentos transportam-nos
fabricam deuses demônios asas
só não conseguem driblar
a indigitada dos tempos

*

revisão

líria porto

seguro com firmeza as rédeas do coração
retiro-lhe as reticências  imponho um ponto final
ao amor que agoniza

*

oblíquo

líria porto

deitado na transversal
a cama fica melhor

t u d o cabe

e dos lados
triângulos

*

domingo, 20 de abril de 2008

minhas rimas

líria porto

não têm rumo
não se arrimam
não se arrumam
não se arredam
não se arriscam
não se arranjam
não se arrulham
não se arrepiam
mas se arrastam

arruinam-me

*

vergonha

líria porto

escondo a timidez barulho
arrulho embrulho entulho
encalho falho empalho
atrapalho-me

e tenho um filho azul

*
lar é uma casa
com jeito de útero
*

líder

líria porto

peito pra frente
bunda pra trás
e o batalhão atrás

*

conquista

líria porto

a pele da piscina arrepia-se
com as tuas braçadas

*

a caneta

líria porto

deu o sangue
por estes versos
descartáveis

*

arquivo

líria porto

ficaram na memória
o abraço o beijo e a carruagem
que virou abóbora

*

plenitude

líria porto

gosto de um tanto muito tão demais tão sem cabimento
tal como um gatilho a disparar intenso extenso imenso
completamente

*

cãs

líria porto

no esdrúxulo o deplorável
:
debaixo dessas madeixas
um corpo flácido

*

lazuli

líria porto

não olhou não viu
o anil do céu abril
parece o criador
fez amor e o azul
surgiu

*

anoitecer

líria porto

a noite se expande
o dia míngua

aproxima-se a viagem
ao desconhecido

*

sábado, 19 de abril de 2008

mirante

líria porto

soltei o corpo no mato
destravei o pensamento
pude voar ver as coisas
a montanha a terra o vento
as nuvens o verde as sementes
as flores as galhas tenras
e a ausência de gente
devolveu-me a paz

agradeci ao bom espírito
à mão invisível que me guiou
além da civilização

*

ultimatum

líria porto

nem mas nem meio mais
menos ainda aliás
sequer desculpas poréns
ou encerramos o caso
não sem tempo
ao acaso

outros virão
nulos somenos
sem rumo
nenhuns

chegarão apesar de ti

*

coleira apertada

líria porto

plantou vento - colheu nada
nem passatempo

ficou no banco de trás
igual vira-lata
sem ração e sem torrão

nem rosnava

*

clímax

líria porto

o amor
escorre da redoma

morte
ectoplasma

*

desatenções

líria porto

coloca água no fogo
separa e lava os feijões
os feios deixa-os de lado
os murchos os carunchados

bate os bifes amassa o alho
corta a cebola em rodelas
frita o torresmo as batatas
refoga arroz faz farofa

enquanto espera trabalha
prepara a mesa pra todos
:
não te demores seu moço
se se cansar faz tua mala

*




apagão

líria porto

não lhe deixou lembrança
fiapo cisco poeira sombra traço
risco nada

era o que havia a ser feito
pelos beijos que lhe negara
pelas grosserias proferidas
pelas noites mal dormidas
pela intensidade do bocejo

*

segunda-feira, 14 de abril de 2008

in_ver_nada

líria porto

a lua míngua neblina 
e a virgem ferve

*

demora

líria porto

olhos distraídos
fingem ler o livro
porém miram o portão
à espera da visita

*

sábado, 12 de abril de 2008

perfídia

líria porto

olhos de vidro
chocalho no rabo
língua bipartida
chega-nos de través
com muito veneno
igual cascavel

(o couro - cuidado
precisa ser grosso
imune às víboras)

*

sexta-feira, 11 de abril de 2008

os amores de lúcio

líria porto

a água treme arrepia-se
é toda ela emoção

a pedra mantém-se firme
bem agarrada à montanha

a água desce desliza
a pedra cuida ampara-a

águas maria luiza
pedras maria eduarda

*

conclusão

líria porto

tal como a corda ruiu
sem que ninguém percebesse
por desamor ou descuido
rompeu-se o elo entre eles

ficaram sem se falar
um no quarto um no sofá
até que à porta da casa
a tabuleta – aluga-se

*

o frio

líria porto

enfia agulha no poro
e quando chega no nervo
torce-o

*

debaixo do tapete

líria porto

não gostas quando me queijo
luscofusco-me tu não vês

se agente não vale transporte
então – para quê?

*

mosqueteira

líria porto

decidi ser feliz
escrevi em toda parte
eu por mim hoje e sempre

quem me quiser então venha
quem não quiser siga em frente
e nem sinta culpa

estou
mais que nunca
sob minha responsabilidade

*

retalhos

líria porto

procuro-te entre as pessoas
encontro-te ora numa ora noutra
(um sorriso um olhar um dar de ombros)
apavora-me perder tuas migalhas

*

comandante

líria porto

não crês em deus e nem eu
no entanto –– fidel –– protejam-te o céu
e as estrelas

*

utopia

líria porto

de lá e de cá
ipês jorram flores
forram a terra a serra
o tapete dos sonhos

*

vovô

líria porto

bigodes cabelos brancos
mãos postas cara inocente
posava na fotografia
como um deus brincalhão

*

adolescente

líria porto

aquele amor panfletário
bem-humorado gozoso
foi perdendo a alegria
ficando desanimado

não quero não podes não vais
fez muxoxo cena birra
e por coisas pequeninas
transformou-se em sacrifício

eu desisti desististe
arranjei um namorado
partiste não mais te vi
nunca mais tive notícia

*

papelão

líria porto

manobra suas carências
tal como deus poderoso

ela ali – em seu regaço
entrega-se de alma e corpo

toma posse toma conta
suga-lhe o caldo o sabor

e ela vira bagaço
e ele some no mundo

*

quinta-feira, 10 de abril de 2008

reprovação

líria porto

roubava o pai
perdão pai – roubo mais não
eu só quis o teu olhar
e tive

*

folie

líria porto

o sol dormia
sonhava com as estrelas

a lua cheia e grávida
chamou o sol às falas

*

compaixão

líria porto

só confio em anjos
de asas tortas

*

balanço

líria porto

quem tem rede boa
como a tua a minha
quer ir para o quarto
não para a cozinha

*

passarinhando

líria porto

ando vôo
no pensamento
nas asas do vento
sonho

do beiral da alma
ao colo do moço
coração à boca
cúmplices

*

quarta-feira, 9 de abril de 2008

desnorteio

líria porto

cabeça transtornada
ideias obtusas
falo descalabros
rabisco garatujas
qual um marujo
em primeira
viagem

*

maria bonita

líria porto

acendia lampião
percebia sua força
e mesmo que tropeçasse
não levava tombos

caminhava - levava a vida
a soprar feridas a sonhar
seus sonhos

*

flor da pele

líria porto

a palma da minha mão parece seda da china
azar o teu não tocá-la deixá-la roçar o teu corpo
nas noites findas

*

travesseiro

líria porto

durmo acordo
é caso de amor antigo
de confessionário

*

terça-feira, 8 de abril de 2008

nostalgia

líria porto

ao me haver triste
sem razão determinada
fico a pensar em minh'alma
tão cheia de cicatrizes
em quantas foram as feridas
lá de longe doutras vidas
quem as fez
como sangraram

dá-me então um tal vazio
igual se as águas de um rio
em plena enchente
secassem

*

mau-tempo

líria porto

madrugada carrancuda
não quis acender o sol
manchou o arrebol de cinza
fez cara brava ranzinza
mandou-o dormir de volta

*

lusco-fusco

líria porto

as madrugadas os crepúsculos
a beleza entranhada na penumbra

os filhos mestiços da noite e do dia
são lindos

*

a prole

líria porto

empurradoa de mau jeito
uns brutamontes machões
grudada à nossa saia
dependentes e frágeis
:
os nossos filhos e filhas
melhor deixá-los crescer
respeitar-lhes as tendências
as vontades os talentos

(e amá-los)

*

sexta-feira, 4 de abril de 2008

sinuca

líria porto

quanto mais te explicas
tanto mais fico na dúvida

*

quinta-feira, 3 de abril de 2008

ofensa

líria porto

jamais diga a verdade aos vaidosos
mesmo que insistam – eles preferem bajulação e lisonja
à sinceridade dos amigos

*

terça-feira, 1 de abril de 2008

bico doce

líria porto

traições ironias inverdades
caramba – tira as mãos dos meus quadris
não vou permitir que te imponhas

*

quarta-feira, 26 de março de 2008

tesouros

líria porto

seu cachorro fiel
seus homens infiéis
seu hímen complacente

*

sexta-feira, 21 de março de 2008

sem rumo

líria porto

lá no lugar onde vive
os seres entram em conflito
por qualquer coisa-me-dá

deixou de ler os jornais
não vê o noticiário
em busca de alguma paz

parece bicho-do-mato
acuado sem saída
em meio às balas perdidas

o corpo barco à deriva
enquanto a morte não chega
fica assim - ao deus-dará

*

carne de pescoço

líria porto

megera era bela nariz empinado
o rei na barriga

quisera vê-la velha a levar no dorso
fardos de remorso

como peso morto

*

quinta-feira, 20 de março de 2008

madalena

líria porto

tal e qual mulher da vida
das que trocam os seus corpos por vinténs
auscultou as almas loucas desvalidas
fez-se roupa maltrapilha de ninguéns
mitigou a fome a sede dos mendigos
afogou-se em tristeza sofrimento
muitos bêbados vomitaram em seu colo
foi abrigo de leprosos de bandidos
copulou com viciados assassinos
mas não pode nem consegue
ser feliz

*

terça-feira, 18 de março de 2008

partida

líria porto

meia-noite
meia-lua
meia-idade
meia calça
meia taça
meia boca
meia sola
meia hora
meia entrada
:
metades
de noz

*

completude

líria porto

vulcões em erupção
a lava incandescente
as chamas as encostas
as grutas

depois o sono
o amor saciado
as águas serenas

a quietude

*

perdição

líria porto

se eu for a tua amiga
vou te dar mais do que beijo
vou te entregar a montanha
de minas terás o queijo
vou te segurar a mão
engomar tua camisa
refrescar a tua água
fazer o teu doce diet
vou te dar meu travesseiro
o meu colchão a coberta
deixar contigo meu lenço
cantar para a tua festa

mas se eu for a namorada
vais ter tanto prejuízo
perderás o teu juízo
no teu colo eu vou sentar
vou querer da tua boca
beijos beijos e mais beijos
vou deitar na tua cama
roubar o teu coração
vasculhar tuas gavetas
usar teu pente o perfume
provocar o teu ciúme
deixar-te desesperado

*

contradições

líria porto

não há correntes que me prendam
muros que me cerquem
homens que me oprimam
não tenho fronteiras
sou liberta

no entanto
enraízo-me na montanha que me soterra
um rio me inunda deixa-me submersa
da rima do teu verso sou cativa
escrava prisioneira

*

terça-feira, 11 de março de 2008

viciados

líria porto

os mesmos passos caminhos gestos atitudes
e permanecem o sarro o borrão o tremor
de sempre

e ficamos cegos
e continuamos escravos

*

segunda-feira, 10 de março de 2008

livre-arbítrio

líria porto

não pedi tua partida
não pedirei teu regresso

cada qual sabe de si
todos seus erros e esses

*

quinta-feira, 6 de março de 2008

cinzento

líria porto

o amor é morto
o céu poluído

perdeu-se o tom
do azul

*

identificação

líria porto

entre amigos não há constrangimentos
sempre se retoma o momento anterior
é uma alegria receber e enviar notícias
e nada se iguala ao prazer à felicidade
do reencontro

*

coragem

líria porto

deixar o sol para trás
atravessar o portal
e enfrentar a treva

*

tiro de letra

líria porto

não quer não quer
se vier será bem-vindo
se faltar tem o direito
não nasceu grudado em mim

corpo caminha
sem lamento sem rancor
coração é porta-joias
bugiganga é noutro pouso

(a vida sem trambolho)

*

quarta-feira, 5 de março de 2008

é simples

líria porto

batatinha quando nasce
espalha ramas no chão
meu amor não vás embora
estou cheio de vazio

não me peças um soneto
não sei pintar aquarelas
a minha alma devaneia
andarilha pela terra

as palavras me embaraçam
eu tropeço aos pés da letra
quisera escrever bonito
dar-te o verso mais perfeito

fica

*

compreensão

líria porto

passa o tempo
passa a idade
nosso corpo se acomoda
o espírito no entanto
aprimora-se cria luz
rompe as barras da matéria
entende a miséria
dos homens

*

à moda antiga

líria porto

se eu pudesse ah se eu pudesse
como aquela ave ter um par de asas
ia para as grimpas do ipê amarelo
e jogava as flores
                       sobre o teu telhado

se eu soubesse ah se eu soubesse
cantar tão bonito quanto o sabiá
afiava o bico na tua janela
gorjeava alto
                       para te encantar

se tu quisesses ah se tu quisesses
eu faria um ninho bem no teu jardim
rezava uma prece para o azul celeste
que felicidade
                       viver junto a ti

*

sórdidos

líria porto

como se fora um escarro um cuspe
arrastaram o corpo do pequeno anjo
deixaram rastros de sangue e martírio
na alma de pedra da metrópole

diante da barbárie da maldade explícita
diz-me eu te peço o que fazer agora
a terra tão bonita rica maravilhas
é palco de torturas

homens-feras rosnam

*

sem cabimento

líria porto

sussurra varre esbarra corre
empurra derrama derruba
urra
:
o vento

*

um e um

líria porto

apesar das rusgas
rugas peso e pesares
somos parceiros

*

minhas penas são de cárcere

líria porto

quisera ser passarinho
no azul a liberdade
de voar como se queira
mudar de forma lugar
recortar bordas e beiras
trovejar soltar faísca
permitir-se o arco-íris
o sol as nuvens as pipas
os aviões pára-quedas
asas-deltas devaneios
mergulhos sonhos
delícias

*

desbandeirada

líria porto

não quero nada
nem ir para pasárgada

passei da idade
de seguir viagem

aqui – sozinha
sou rainha

*

humanização

líria porto

aquecer as pedras
colocá-las ao sol

abraçar os velhos
são eles o sol

quarar nossos versos
deixá-los ao sol

enluarar

*

faróis

líria porto

não deixem que a luz se apague
acendam velas e velas
permitam que elas propaguem
o fogo que agora é delas

de lá de onde estiverem
perceberão o clarão
daqueles homens mulheres
que levam tochas nas mãos

*

pesquisa_dor

líria porto

pássaro no meio do mato
assim esse homem no seu habitat

deseja abarcar desvendar
entender tudo

sons letras palavras
metáforas significados

*

grafite

líria porto

letras palavras versos
podem causar o avesso
daquilo que pretendíamos

(risco)

é preciso estar atento
treinar bastante a contento
conferir fim e começo

(rabisco)

acaso não dominemos
as rachaduras as frinchas
cobri-las com tinta fresca

(borrão)

*

segunda-feira, 3 de março de 2008

retrato de família

líria porto

a mulher vestida de preto
com bordados de strass
o marido de terno azul claro
e sol na lapela
são pais das crianças mestiças
aurora e crepúsculo

*

impassível

líria porto

viu-me grávida
com filhos ao colo
gorda
magra
nua
vestida
descalça
de saltos
chinelos
sandálias
triste
alegre
doente
saudável
apressada
(in)feliz
risonha
chorosa
exausta
grisalha

o que espera
um corredor 
ver-nos
mortos?

*

sabedoria

líria porto

toda palavra
precisa ser lapidada
esmerilada polida
lavada com muita água
pra depois ser engolida

*

vicioso

líria porto

acordava triste sem motivo
ou sem motivo acordava 
e ficava triste

*