sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

tim tim

líria porto

saúdo o vind_ouro
                     e o ano que finda
:
um brinde à beleza ao amor
ao riso à amizade
                             à poesia         
e ao tantim de sacanagem
que de ferro
nem as montanhas de minas
(cavadas por trás)
                            
*

oferenda

líria porto

vou jogar flores no mar
levar comida perfume
espelho pentes enfeites
agradecer janaína
pelo balanço das ondas
pelo azul pela espuma
pelo ano de fartura
pela coragem saúde
e também pedir perdão
por ser assim imperfeita
e até pela tristeza
que às vezes
finjo

*



à perfeição

líria porto

fosse a lua um abajur
eu me vestisse de nuvem
usasse estrelas no cabelo
dormisse em lençol azul
escrevesse igual clarice
cheirasse como cecília
tivesse o miolo de adélia
a raiz de coralina
amar-me-ias

*

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

pinguços

líria porto

entretanto
entre tantos tontos
tinha um tal
que trocava tequila
por cachaça

*

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

heterônimos

líria porto

a poesia em pessoa
            tem muitas faces

*

re_visão

líria porto

olhos que me olham desde sempre
olhos do passado olhos de hoje
mesclados de olhares impotentes
reconheço nestes olhos os meus olhos
a olharem-me por dentro e por fora
a observarem-me ora amorosos
ora cruéis

*

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

ao apagar das luzes

líria porto

bebo água do regato
(é quase um resgate)
e de fato ganho força
pra seguir em marcha
:
ninguém sabe
       a hora da morte

*

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

utopia

líria porto

meus melhores pensamentos
e bandeiras são vermelhos

*

passagem

líria porto

procura-se quem queira
ir à beira da loucura na noite
de sexta-feira

*

domingo, 26 de dezembro de 2010

reserva

líria porto

para ser usado no futuro
o presente foi passado a ferro
e pendurado num furo

*

sábado, 25 de dezembro de 2010

desassossego

líria porto

a desconfiança a dúvida
não se saber do amanhã
a vida sem corrimão
o medo a causar angústias
dores de cabeça úlceras
não resolvem nada adiantam
só quando o agora surge
aparecem as soluções

(escapam de quaisquer planos
as certezas no futuro – cada coisa cada uma
tem a dimensão que damos)

*

presente

líria porto

de nós
        castanhas

de min_as
        meninas
        de olhos
        castanhos

*

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

cartinha de malandro

líria porto

o que queres ninguém dá e nem se sente obrigado
pois champanhe e caviar arrebentam o orçamento
de quem vive de salário

vai trabalhar vagabundo

*

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

febre

líria porto

havia um vazio
tão frio por dentro
eu não chorava
nem ria

um dia veio um sujeito
encheu o vazio de um jeito
o frio que eu tinha no peito
entrou em ebulição

(paixão ferv_ilha)

*

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

alimento

líria porto

como a lua
engordo emagreço
mínguo cresço
:
eu sinto fome
de sól_ido

*

soluços

líria porto

um de nós tinha morrido
e eu sussurrava para consolá-lo
:
não sofras meu bem - é assim
mais dia menos dia
                               tudo finda

*

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

douto mundo

líria porto

meteu-se a terra
entre a lua e o sol

eclipse?

não não
ménage à trois

*

mea culpa

líria porto

não vou para o céu
pequei por prazer por vontade
fá-lo-ia mil vezes sem me arrepender
sem me curvar às igrejas
aos que se julgam melhores que os outros
proclamam-se santos
e são podres

*

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

êxtase

líria porto

a pele fez crec
saiu-lhe a alma pela fresta
voou para onde pairam os poetas
os artistas - aqueles que livres do corpo
tocaram o infinito

*

madrugada

líria porto

entre a noite e a manhã
antes da hora do galo
do cantar da passarada
um azul muito encorpado
(vou chamá-lo azul-cobalto)
e o brilho das estrelas
encobriram-me a carcaça
qual o manto de brocado
da rainha

*

domingo, 19 de dezembro de 2010

viés

líria porto

a vida balança
nem cai nem haicai

a esperança?
bonsai

*

con_traste

líria porto

lá fora
a aurora
bonita
que dói

cá dentro
as paredes
mofadas
e verdes

*

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

desdita

líria porto

o sal na saliva a conversa ácida
a fala ferida o frio sem face
cuidado menina o tempo é severo
a mesma chama que ilumina
derrete a cera

*

teimosia

líria porto

a poesia some
não me desespero
ela volta um dia
e traz tanto verso
que a mando embora
para ter sossego
:
ela só faz
o que quer

*


*

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

rodeio

líria porto

o mal do girassol
embora (h)aja ríspido
não é torcicolor
im_postura

é câncer de pétala

*

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

nada se perde

líria porto

não demora serei leve
breve breve  pó de ossos
comida para peixes

*

servo

líria porto

lavo
passo
limpo
cirzo
coso
cozinho
esfrego
lixo
:
assim
   suji_gado

*

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

pre_meditado

líria  porto

na verdade eu tinha mentiras para lhe dizer
mas frente à sua ira resolvi calar-me
e o que (h)ouve
                         permanece

*

vice-versa

líria porto

tem botas chuteiras sapatos bigodes
mas dribla de sapatilhas

*

para 黒澤 明

líria porto

patinhos amarelos
com laços de fita vermelhos
voavam no meio do sono

(travesseiros de penugem)

*

sentada

líria porto

à madrugada espera-os
o dia comparece mas os versos
(r)areiam

*

domingo, 12 de dezembro de 2010

caráter

líria porto

todas as coisas
grandes pequenas boas ruins
fizeram-vos sólidos

sóis

*

sábado, 11 de dezembro de 2010

telegrama

líria porto

a grama mucama
tem trama de aranha
e fama de sem-vergonha

*

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

vendaval

líria porto

a hora do verso é no meio do caos
:
pensamentos se desordenam
e a vida valsa

*

comilança

líria porto

mal / bem desnecessário
saco de papai noel

*

soberania

líria porto

voei conheci o céu
mergulhei em todo abismo
tirei o mel das colmeias
morei em palácio hospício

fui pra guerra viajei
noutras terras renasci
quebrei pedras singrei mares
vi tubarões vi delfins

liberdade liberdade
é dormir entre os teus braços
enroscar-me no teu corpo
erva-de-passarinho

*

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

chamego

líria porto

gato velho qual tapete
a alisar-me os pés
a ronronar para as minhas

cadeiras

crítico

líria porto

de dentro de cada verso
não sei dizer dos enguiços

então me ponho distante
a lê-lo com olhar cítrico

destroço tanto cavaco
tanta sombra adjetivo

pode perder em tamanho
mas ganha maior sentido

(pelo menos para mim)

*

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

para relembrar ava gardner

líria porto

nos teus olhos de petisco
um chuvisco me matava

eu por isso me arrisco
e rebusco a tua lava

há nesta área de risco
o fogo que me faltava

alguma espécie de isca
alguma espécie de trava

*

nós - filhos da meada

líria porto

olhos nos olhos tão intensos
sempre penso – mais que amantes
somos cúmplices

*

brejo-me

líria porto

choro orvalho chuvisco
marejo empoço infiltro
enxurro-me alago-te
rio-me

para crocodi-lo
pântano

*

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

tédio

líria porto

em sua casa
tudo era móvel  menos ela
olhos fixos no caos

*

para os poetas da rede

líria porto

a cama rilha
bruxismos de gastar os dentes
até as gengivas

*

desafeto

líria porto

não mato com bala
nem com veneno
:
risco do pensamento
tiro
                       
*

tonel

líria porto

não quero prosa
eu bebo verso
e me embriago
de poesia

um gole outro
mais uma taça
dá-me outro trago
uma garrafa

na saideira
não faço fita
sem brincadeira
dose infinita

*

domingo, 5 de dezembro de 2010

hospitalidade

líria porto

entra senta-te - queres um doce
pergunta o menino à visita
e por certo imita a mãe
:
as tradições

*

a_puro

líria porto

a chuva
lavou a ladeira
tirou a poeira
deixou tudo
um brinco

então meu amor
sobe a serra
de alma lavada
sorriso nos lábios
e pés limpos

*

sábado, 4 de dezembro de 2010

invernal

líria porto

o verso inverte o avesso
e o inverossímil

*

africanos

liria porto

negros retintos dentes de marfim
olhos e cílios tão lindos
mais parecem desenho
em nanquim

*

penas de ganso

líria porto

o homem dormia
um sono profundo
ali na calçada
e eu que comprara
dois travesseiros
pensava  oh mundo
só preciso de um
e tenho insônia

*

rabanadas

líria porto

papai-noel aperta o cinto
e eu sinto muito

*

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

vovós

líria porto

a um 
          a dois

a que faz bolos
(deliciosos)

a que manda livros
(ótimos)

a que mora perto
(em araxá)

a que mora longe
(em belo horizonte)

:
duas vovós
e uma linda neta
de olhos cinzentos

*

equiparação

líria porto

brutas
lapidadas
pedras

doutores
operários
gente

uns
outros
:
a mesma
essência

*

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

extrassístole

líria porto

segue o método
vai no ritmo
num caminho
de sossego
de repente
o requebro
:
perde a compostura

*

palhaço

líria porto



choro por dentro
por fora
rio

transbordo
alegria

*

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

sonetímido

líria porto

eu não sei fazer sonetos
eu juro que não consigo
os meus versos são gravetos
não é isso que persigo

procuro rimas eu tento
a que me chega é tão pobre
falta mesmo de talento
ao contrário de ouro - cobre

ilumine-me esta luz
eu não saia dessa trilha
do encanto do rouxinol

quero um verso que reluz
a perfeita redondilha
uma nesga do arrebol

*

palavras da minha avó

líria porto

não batas em teu menino
tal atitude é covarde
humilha-o mais que o ensina
deixa-lhe marcas na alma

ele em teu colo – sê firme
usa palavras suaves
pronuncia os sins possíveis
os tantos nãos necessários

quem ama aponta orienta
alisa e alarga a estrada

*

celi_batráquio

líria porto

não se acerta lá
não se acerta aqui
não ganha beijo na nuca
nem come doce de cidra
:
fica às moscas

*

terça-feira, 30 de novembro de 2010

devota

líria porto

oiá oiá
hoje é sete terça-feira
toma conta desse vento desse raio
e protege meu cafofo
tenho horror a tempestade
as paredes nada valem
vivo cercada de morro
e não sei pra onde corro

oiá oiá
agradeço o obséquio
trago a minha oferenda
um colar branco e vermelho
um saquinho de pipocas
e prometo minha mãe
a galinha carijó
chegará assim que eu possa
que eu tenha novo emprego

oiá oiá

*

inoportuna

líria porto

ora aurora
justo no meio do sonho
tu me acordas

*

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

para mama dulce

líria porto

peço-te que intercedas
junto a teu filho caçula
diz-lhe que necessito
(antes que seja tarde)
um coração vagamundo
igualzinho ao que ele guarda
a sete chaves

*

no alto da pouso alto

líria porto

a serra que eu relo
aquela
onde ralo o cotovelo
é tão bela
que o sol o vento
as estrelas
a lua
circulam à sua volta
:
por amor vim morar
          por amor fui embora

*

à espera dos pirilampos

líria porto


eu vejo um mar de janelas
e detrás de um tanto delas
olhos se acendem

será que alguém me vê
ou se põe a imaginar
que aqui tem gente?

bastava um aceno

*

domingo, 28 de novembro de 2010

pela raiz

líria porto

cortou-a
e às árvores que plantou
(ciprestes carvalhos flamboyans)
com machadadas
e ódio

fez da questão pessoal
um crime ecológico

*

sábado, 27 de novembro de 2010

redução

líria porto

camas largas
sapatos e roupas largas
sentimentos largos
:
largou a fartura e apertou
os cintos

*

vezes

líria porto

um dois três erros
melhor arriar o pangaré e sair
à francesa

*

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

manipulação

líria porto

ria dançava cantava chorava sofria
pela vontade de quem comandava
os cordéis

*

estilhaços

líria porto

para controlar o descontrole
cercou-se de espelhos
                    de retrovisores

viu fantasmas com mil olhos

*

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

fadiga

líria porto

amanhã
vou passar a manhã em manhattan
levarei sais de banho
um casaco castanho
sonharei que eu sou magnata

amanhã
vou ganhar tanto estanho
barganhar um rebanho
bamburrar

amanhã
hoje não

*

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

lilitchika

líria porto

como maiakovski
odeio pontos vírgulas
(ainda mais reticências)
e por minha conta e risco
adjetivos advérbios
(embora vez por outra
necessite-os)

como maiakovski
eu te amo e visto
nuvens

*

coletivo

líria porto

na semente mora a floresta
eu sou também multidão

*

aposto (para nina rizzi)

líria porto
um espinho
é um espinho
:
é uma dor

*

a verdade

líria porto


tem um jeito justo
de dizer as coisas
tudo assim - na lata

de tão diminuto
um segundo basta
e não se discute

(amo-te)

*

terça-feira, 23 de novembro de 2010

alhures

líria porto

na proa - à toa
na cara a garoa
ô vida boa

à volta
        o azul

*

aedes

líria porto

vazio o coração
não o jogues em terreno baldio
:
solidão mata mais
                          que mosquito

*

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

para talheres

líria porto

comer manga às bocadas
e com a cara e as mãos caldeadas
puxar entredentes
                           a infância

*

cigarra (um poema para ayla)

líria porto


cantar dançar e mais nada
nem ao menos pensar
que há vida ou morte
:
deixar a alegria bailar
                                bailar
                                        aylar
                                             
(tristezas são formigas)

*

domingo, 21 de novembro de 2010

precisão

líria porto

colibri invade a sala
e beija flor
             de plástico

*

poeminha

líria porto

desenho de ray respall - cuba

um barquinho na enxurrada
e a poesia
                  nada

*

sábado, 20 de novembro de 2010

en_fado

líria porto

três comeram-lhe a fruta
o marido o amante o amigo
:
foram iguais em tudo

(viraram pro canto
e dormiram)

*

rascunhos

líria porto

pre_textos
letras sem lume
que roo igual unha
e cuspo nas águas
de um rio sem peixes

*

senti_nela

líria porto

meu pai (não) compareceu
ao septuagésimo terceiro aniversário
de minha mãe

à beira do corpo coberto com flores
entre filhos e velas mamãe lamentava-se
: logo hoje meu velho
                               logo hoje?

(20 de novembro de 1995)

*

enquanto

líria porto

um ciclo se fecha
o novo me anima

o nunca não existe
nem o sempre

*

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

alheio

líria porto

meu amor olhava a vaca fria
convidei-o para o pastoreio
para o meu re_banho

*

confissão de mãe

líria porto

nunca fiquei grávida
:
tu a primeira
mais bonita que flor
colhi num jardim

a outra
coitadinha
pedia pão
           não tinha rima

achei menino na rua
em porta de igreja
na praça na loja
nove ao todo
:
de um
(o preferido)
não me lembro
os pedaços
da história

meu amor
legitimou-os

*

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

acabrunhado

líria porto

não atento
ao chamamento
da poesia

fecho os olhos
cerro o cenho
feito morto

depois choro
e meu choro
é tão convulso
:
ressuscito o coração
ou corto o pulso?

*

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

desenlace

líria porto

não foi a morte que o levou de mim
foi a vida que ele levou e ao fim
aquilo nem era vida

*

longevos

líria porto

a pressa tropeça
a paciência caminha
:
de_vagar se vai

*

autoritários

líria porto

por horas e horas
pensavam no assunto
e a resposta era não

então nós fugíamos
pulávamos o muro
burlávamos
             a vigilância

*

domingo, 14 de novembro de 2010

poesia em pessoa

líria porto


coração disparado
:
na bagagem
a duração do dia

e solta os cachorros

*

sábado, 13 de novembro de 2010

a fundo

líria porto

a vida é veloz
e assim - a galope
apeia-nos

*

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

partida e/ou versos para quem sabe o quê

líria porto

não entra em dividida
porisso esta noite
(descobriu sem querer)
foi posta a escanteio

(eu_nice é nov_idade)

triste
         triste
                  triste
abandona a reserva
e pendura as chuteiras

(ah se ele lhe desse bola)

*

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

dilacerado

líria porto

um verso que-
brado vai as-
sim aos brados
de galho em g-
alho com ag-
onia e tristeza
que a aleg-
ria é vir-
tude de p-
oucos
e a poes-
ia não perd-
oa

*

só_letrar

líria porto

vovó viu a uva

vovô viu a eva
                e o vinho

*

palavrório

líria porto

foto de walter firmo

não se cansa nunca de gastar palavras
fala na janela na missa na praça – solidão
fala sozinha e acompanhada

*

reticente

líria porto

afasta de mim esse quase
desata amor
              o nó da gravata

*

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

lotação

líria porto

sardinhas
:
em óleo diesel
e molho de sovaco

*

para bom entendedor um pingo pinga

líria porto

foice
deixou-me um ex-trago

/sou eu qu'em_pena
e paga/

gota a gota
a contragosto

*

terça-feira, 9 de novembro de 2010

pelicano

líria porto

a poesia não é para o meu bico

*

para além da casa do sol

líria porto


vou a marduk passear com hilda hilst
ela de vermelho eu de preto
:
céu e inferno dá no mesmo

*

nesgas

líria porto




a casa cravada no alto da serra
janelas e portas abertas ao vento

paredes caiadas barulho de água
arrulhos sibilos orvalhos gorjeios

o verde arrepia-se no pasto nas galhas
há cheiro de mato café e pão quente

as gentes
são simples

*

pós-chuva

líria porto

nos olhos de raquel
a delícia das jabuticabas

*

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

espectros

líria porto

espelho velho  temo que reflitas
criaturas mais aflitas do que eu

*

viúva negra

líria porto

tece sua teia rede de intrigas
mata inocentes e culpados

*

resistência

líria porto


murcham-lhe as pétalas
perde o perfume porém os espinhos
permanecem e espetam-nos
::
rosa é osso duro

*

domingo, 7 de novembro de 2010

deus salve a amélia

líria porto

a neblina encobre a colina
bolina-a debaixo dos panos

(séria não é santa)

*

sábado, 6 de novembro de 2010

coletivo

líria porto


não me animo a deixar de ser anônimo
número – peixe no cardume
rebanho

valho tanto quanto uno

*

canoa

líria porto

chorar
caminhar na chuva
lavar a mágoa
a secura
:
enxurrar-nos

*

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

entre fraldas cueiros e bicos

líria porto



ele nasceu em setembro
ela nasceu em outubro

) almas gêmeas
com diferença
di_fuso (

*

real_idades

líria porto



infância - o tempo não passa
e os passos voam


velhice - o tempo voa
e os pés
        são de chumbo

*

nebulosas

líria porto

(tri)ângulos esquinas curvas e poetas
dão margem a dúvidas
                                 a perguntas
:
poucos se revelam

*

apoucar

líria porto

quem se diz enamorado
é parvo tonto
              e faz tudo errado
:
ninguém ama quem rasteja

*

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

palavras do meu avô

líria porto

para as guerras três desgraças
barras de ouro de terra
e de saia

*

esqueleto

líria porto

no tempo do amor não fiz versos
felicidade só m'inspira
quando finda

*

deve haver o céu dos cachorros

líria porto


não me fites com o teu olhar comprido
nem me olhes com este jeito teu - pidão
tu me envolves e eu fico tão perdido
não consigo sair mais de tal prisão

*

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

camaleões

líria porto

tem gente que é isto ou aquilo conforme o contexto
tem gente que se confunde com a multidão
tem gente que se afunda em si mesmo
tem gente que não é gente
                                            nem disfarçando

*

best seller

líria porto

chega de ser livro de poemas
na próxima encadernação
quero fama e romance

*

despedida

líria porto



nem muito santo
nem muito bento
um anjo torto
de patas e rodas
a voar com os olhos
atrás das borboletas

*

terça-feira, 2 de novembro de 2010

netos - os frutos mais saborosos da árvore genealógica

líria porto


todo dia uma nova descoberta
um som uma sílaba uma palavra
maria luiza cresce como abóbora
e francisco nascerá
                                em breve

*

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

silvícola

líria porto

a olhar o indiozinho aprendo
ele sabe o que é bom
pra o planeta

selvagem sou eu

*

onde há fumaça não há fôlego

(líria porto)

*

domingo, 31 de outubro de 2010

gooooooooooooooooooooooolll

líria porto



!!!
!!!!!!
!!!!!!!!!!!!
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

viva o brasil
viva o povo brasileiro


*

bafômetro

líria porto

pergunto ao santo
um tanto tonto
se é faz de conta
a autoimagem

jorge responde
:
é tatuagem
a lua e eu
bebemos vinho

(cai do cavalo
pois perde ponto
na montaria)

*

sábado, 30 de outubro de 2010

amarelinha

líria porto

céu inferno céu inferno
menininha estica o pulo
e bate a cabeça
na nuvem

*

militante

líria porto


se ganhar por um voto é o meu
que retém a vontade de dois

brilha-me
            a estrela

voilà

*

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

neném

líria porto

não sei se pelo cheiro ou pela inocência
o chorinho soa como um sino um canto
um hino
                                   um querer bem

*

molho pardo

líria porto

afio a navalha corto-te a jugular
aparo teu sangue numa tigela cozinho tua carne
e te sirvo à cabidela

*

ceia

líria porto

a nudez lateja debaixo do vestido
o marido chega as vontades pulsam
e ana corta cebolas

*

íntegro

líria porto

tem si-
do o que o par-
tido não pede
:
inteiro

*

rio

líria porto

vida - ida sem volta
da nascente à foz

*

formiga

líria porto

venenosa cortadeira
carnívora qualquer tipo
vive de migalha mas
quer tudo

(a fome maior que a barriga)

*

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

foice

líria porto

casca estirada 
chegada a minha hora 
nada mais a fazer
lacrem a tampa do esquife
para eu não fugir

*

veneno

líria porto

certa - andava no trilho
veio a ratazana
           roer-lhe a linha
:
a sanha arranha a aranha
ferro

*

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

freirinha

líria porto

borboleta no casulo
segura-se a todo custo
para não perder o hábito

*

terça-feira, 26 de outubro de 2010

panela de pressão

liria porto 
pedra cimento brita
uma sopa bem pesada
pra matar a gulodice



(na marmita do peão
apenas sal e farinha)

*

chuá

líria porto

a chuva encharca o chão
o choro enxurra
                          a alma

*

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

presságio

líria porto

há horas que te manda embora
noutras já voltou atrás

(comerás do pão que a diaba amansou
frito)

*

belô

líria porto

cidade pra todo canto
para toda melodia
cidade para a poesia
para o pranto
o acalanto
:
capital
         de min(as)

*

domingo, 24 de outubro de 2010

ímpio

líria porto

igreja tem sino
devoto tem sina

eu?
    nem sinal

*

roda mundo

líria porto

voltas e revoltas rasguei a camisa
andei sobre espinhos com bandeiras roxas
e pés em carne viva

*

linha de fogo

líria porto

na orla dos ricos guaritas
e homens armados com fuzis e revólveres

na orla dos pobres viaturas
e homens armados com fuzis e revólveres

*

sábado, 23 de outubro de 2010

estalo

líria porto

o verso gelado
sem sangue
sem vísceras
da boca pra fora
é só exercício

vício

(troque traque por foguete)

*

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

existencial

líria porto




neste mundão de teu deus
somos formigas – umas doceiras
outras cortadeiras

*

o sol me cega

líria porto

a lua tira cisco do meu olho
faz compressa de nuvem
e cura minhas perebas
:
com_paixão
                de estrela

*

estropiados

líria porto


era seu apoio
sua bengala

então ele a_traiu
e amou muleta

*

pirose

líria porto

um vulcão dentro do estômago
em plena erupção

uma lava que o queima
dia e noite noite e dia
:
azia

*

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

concepção

líria porto


se o sol tomasse a lua como noiva
nasceriam sóis e luas a granel
e no mundo haveria tanto brilho
e veríamos o sol doce e a lua
de mel

*

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

medição

líria porto

meço o que faço com a régua do horizonte
e tudo fica tão pequeno que os erros
não me massacram

*

terça-feira, 19 de outubro de 2010

novela

líria porto


magricela
meio matusquela
tem erisipela
a pele amarela
remela nos olhos
porém para ela
aquela donzela
era filha
             e bela

*

aniversário

líria porto

muitas décadas
e a cabeça repleta de (a)luares

(flecha em câmara lenta)

pássara depressa
                        mas dá tempo

*

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

mãe de leite

líria porto

após a segunda guerra
outubro uma sexta-feira
décimo nono dia
meia-noite e meia
ninguém me contou – eu sei
foi da lua cheia
o peito que mamei

*

domingo, 17 de outubro de 2010

consciência

líria porto

não pensem – são miudezas
as tristezas que o assolam

rugas sulcam-lhe a pele
pesada é a sina do pobre

mamãe repetia incansável
o sol é de todos nós

*

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

liberta

líria porto

voar pela janela
como ana cristina césar
e sem deixar pegadas
achar o céu
na terra

*

exceção

líria porto

o galo o cachorro
o canário o padeiro o padre
o sino a empregada a chaleira
a mãe o pai o menino
o automóvel a buzina
a rua a escola
o vendeiro
a loja

(cidade em polvorosa)

morgana espreguiça-se
mas só sairá da cama com o sol
a pino

*

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

extrem_idades

líria porto

o amor apagou
e o fogo que nos consumia
é fumaça e cinza

(esfria chove
não temos luvas
nem meias)

*

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

bomba

líria porto

balão de pele delicada
que o amor cutuca cutuca

cu
    tu
       ca

(coração não bate
apanha)

*

terça-feira, 12 de outubro de 2010

poetar é impreciso

líria porto

a prece
a terra
a flor
erótica
e nua

os versos
     de adélia

*

: férias conjugais

líria porto

lua míngua
nuvem acumula tensão
desaba torós

sol escapole
vai pro polo norte
por seis meses
:
quero variar
o cardápio

*

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

à toa

líria porto

o pensamento voa
desliza qual canoa pelo cio afora
aporta no teu corpo roça tua boca
vadia entre os fios
                       do teu bigode

*

domingo, 10 de outubro de 2010

brabeza

líria porto

olhos cravados na fera
pronunciou entredentes
q u i e t a

ela murchou num repente
pôs o rabinho entre as pernas
e saiu de fininho

*

cerca

líria porto

entra se quiseres - o cão fica de fora
só entro se for com ele
:
não neste território

*

sábado, 9 de outubro de 2010

passarim

líria porto

eu amo mario quintana
e desse amor quase brisa
nasceu um verso pequeno
com duas asas na bunda

*

gene_a_lógica

líria porto


vó maria tão franzina
teve um montão de filhos
e um punhado de netos

eu - a segunda de nove
da prole de minha mãe
um exército de primos
e filhas em profusão
:
sementes viram floresta
maria luiza veio - e francisco
está na trilha

(viva)

*

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

fogo na roupa

líria porto

na idade média
morreria na fogueira

em idade avançada
solto chispa

*

rubra

líria porto

remar rumo à rima
como a derrama
das romãs

*

bruta

líria porto

a chuva esmurrou a parede a vidraça
parecia uma doida com pedras e chutes a arrombar
nossa casa

*

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

à floresta

líria porto

a farra dos bichos
os nichos do verde

canoa no rio
a vara de pesca

sem rima sem pressa
viver de_vagar
:
volver

*

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

nenhuma poesia

líria porto

murmúrio nas ruas
milhares de bocas
vozes graves agudas
palavras
        palavras
               palavras

eu
sozinha           

*

lábil

líria porto



tem sido
sadomasoquismo – boca
e cigarro

*

terça-feira, 5 de outubro de 2010

coisa de passarim

líria porto

na ponta d'antena
captam ondas do infinito
pro canto ficar bonito

*

¿donde estas corazón?

líria porto

sumiu de mim de tal jeito
suspeito haver algo grave
:
trava no esquerdo do peito
segredo debaixo de chave

*

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

(l)eito

líria porto

tremor arrepio transbordamento
o rio passou dos limites
depois retomou o traçado
e seguiu a corrente

(prisioneiro das margens)

*

domingo, 3 de outubro de 2010

amar é pouco

líria porto

o outro existe - com e apesar
das nossas precisões

*

nós

líria porto


um poeta sem versos é tão triste
quanto o rio seco

*

sábado, 2 de outubro de 2010

maria santa

líria porto

meio lua meio nua
usava blusa rasgada
a pele fina bonita
quem visse aquela menina
sentia pena
rezava

treze catorze anos
olhos imensos candura
um porco a espreitava
um dia arrombou-lhe o corpo
e conspurcou sua alma

*

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

a vida imita a poesia

líria porto



deus descansa
tira um cochilo na cadeira de balanço
e sonha que é pixinguinha

*

foto do meu amigo walter firmo, um dos grandes talentos brasileiros

cólera

líria porto

a ira
ora espera a hora
ora dilacera

e vira úlcera

*

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

cochicho

líria porto

terra e saliva
jeito teu de dizer
(sotaque)
:
música para meus ouvidos

*

doutrinação

líria porto

a liberdade era algema
obrigava-nos a ter asas
                            e não somos anjos

voar como
se o infinito do homem
é o pensamento

*

em tese

líria porto

não derrames inutilmente tua doçura
se ele só quer phoder

*

terça-feira, 28 de setembro de 2010

no lusco-fusco da madrugada

líria porto

olho num relance vejo um clarão
chega-me de esguelha e o que me espera
dá-me um baita susto
:
mantenho-me firme eu não tenho medo
(pelo menos não muito)

ufa - um menino verde lambe minha orelha
e chispa

*

num laço de arco-íris

líria porto

a chuva chegou mansa
fez nascer amor-perfeito

*

domingo, 26 de setembro de 2010

lavoura

líria porto

sente o cheiro da chuva da terra do capim
sente o cheiro de mim  vem roçar o meu corpo
lavrar meu espírito plantar-te
                                         colher-me

*

por estes olhos que a terra há de lamber

líria porto

para te dizer olho no olho
não mintas para mim tu não precisas
eu nada pergunto não sou a tua dona
digo e repito - tu não me deves
nem eu quero
                     explicações


*

sábado, 25 de setembro de 2010

do cerrado

líria porto

não chora não ri como se esperasse
a chuva que não virá

(resisto)

*

rega

líria porto

ouve a água que murmura
toca a terra com ternura

se esta fica tão quieta
com certeza não é rude

agradece a esta chuva
petúnias rosas antúrios

e cereais
e legumes

*

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

das pétalas

líria porto





ipês voltaram a florir
saúdam a primavera
sem uma gota
                 de chuva

*

fraquinha

líria porto

pequena
branquinha
os ossos
rendados
a bruma
a brisa
por leves
que fossem
fariam
titia
alquebrar-se

) no último
tombo
trincou
o asfalto (

*

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

flor de abóbora

líria porto

nada lhe sobra nada lhe falta
o corpo balança e na passarela
tem a perfeição da primavera

*

do desfazimento da memória

líria porto

lapsos
pedaços de vida deixados nos parênteses
lembranças coaguladas
vácuos

(antecipação do desenlace)

*

esforço

líria porto

para se manter no ar
um passarinho pena

*

terça-feira, 21 de setembro de 2010

dois

líria porto

um queria meu corpo – o outro
dado a desvendar-me a alma
pedia mais um pouco

*

companhia ilimitada


líria porto

para combinarem
precisava ter
sangue cor-de-rosa
(o dele era azul)

comprou a boneca
manequim de loja
com ela mantinha
enormes monólogos

trocava-lhe as roupas
perucas sapatos
e assim se sentia
menos solitário

que vida
    que morte
        que louco
            que fiapo

*

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

crateras

líria porto

as subidas as descidas
e a rua se esburaca em cansaço
de avenida

*

cunhados em brasa

líria porto

meus calos
tantos pés esquerdos
querem me pisar

falo grito apito
                   denuncio

eu não tenho medo
vou dizer a eles
quem pintou a zebra

entornar o caldo

*

sufoco

líria porto

nós na garganta é uma corda que nos mortifica
e quando não se diz um basta ela vira
forca

(são dois pesos
e muitas medidas)

*

domingo, 19 de setembro de 2010

fênix

líria porto

ressurgir como labareda
e com a brasa acesa
                       incendiar tua vida

*

providência

líria porto

boa - só a da garrafa
as outras são fria

*

os sapatos

líria porto

ora lhe apertam ora são imensos
: pé de pobre não tem tamanho

*
      

volta por cima

líria porto

o discurso excludente
de quem só enxerga o umbigo
não deve nos atingir

em frente então - prossigamos
e de cabeça erguida

*

sábado, 18 de setembro de 2010

estatueta

líria porto

dura cheia de si
plena de verdades
de convicções
:
não se dobra aos flatos
mas se expõe aos ventos

*

recaídas

líria porto

nunca mais escrevo verso
isso penso todo dia
vem a noite eu me arrependo
madrugada recomeço
                  poesia poesia
poesia

tanto mar me espera
tanto rio

*

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

pacífico

líria porto

pacato não é dar um boi para entrar
é dar toda a carne couro osso sangue chifres vísceras
para permanecer

*

lavagem cerebral

líria porto

bater bater bater – malhar em ferro 
forjar verdades com a matéria
da enganação

*

velho lobo

líria porto

a lua
quase uma papoula
eu não vou poupá-la
meu olhar apalpa-a
sinto-a na língua
na extrem_idade
do pau

*


publicado em putas resolutas

gris (para roberta silva)

líria porto

o tempo faz-me o mise-en-plis
e eu faço onda

branco cinza-me

*

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

sardinha

líria porto

o_mar é meu latifúndio
eu sou farinha de peixe
:
tenho pele pintadinha
olhos meio verdes

*

cala-m'idade

líria porto



do óleo que unta as juntas
eu gastei gota após gota

(o corpo dói
ossos rangem)

ficar velho  novidades
umas atrás das ostras

*

chuva

líria porto

canta para eu dormir
a canção das águas

*

represa

líria porto

o choro incontido estoura-nos os diques
jorra e inunda nosso mundo
de tristezas

*

magrelo

líria porto

bem-te-vi me disse
que te viu e eras
pensamento

cigarro é coisa antiga
a fumaça se dissipa
acabou teu frio                                                    

*

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

sétimo dia

líria porto

passado o vendaval tua alma pouse
descanse numa nuvem diga à lua
que não me demoro

*

no beiral da prima_vera

líria porto

bando em algazarra
a rodar no céu - suas asas
rabiscam o azul

*

terça-feira, 14 de setembro de 2010

pescador

líria porto

sem saber direito onde vou parar
caio no teu laço rolo feito seixo
roço-te a pele
amarro-me em teus braços
afundo-me em teu leito
atado por um fio

escorro pelas margens
espalho-me n’areia
rio rio  rio-me

*

nem parece

líria porto

a moça mora com o velho
arrumadinha bijuteria dourada
perfuminho da avon sabe fazer miojo
gosta de frango assado
pão com salame
cerveja marmitex

(tudo por conta)

o velho adoece a moça até chora
se ele morrer agora haverá alguém
tão pródigo?

(em compensação pode pedir pensão)

alfredo no quarto ao lado
o velho não liga não se importa
nem percebe ou faz

vistas grossas

(tem coisa melhor?)

coberta de cisma

líria porto



pilha de nervos
ameaça os outros
e a si mesma


*

chupim

líria porto

as pessoas a quem se aliou
são vampiros e o nosso sangue
seu objetivo

*

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

tropa de choque

líria porto

ancestral e descendente
avó mãe filha neta bisneta
pilha de nervos

*

domingo, 12 de setembro de 2010

dueto

líria porto

um quer seu corpo - o outro
dado a desvendar-lhe o coração
almeja-lhe a alma e mais
um pouco

*

alçapão

líria porto

quem ousar o topo
ou pisar em falso

não tiver um álibi
e por ser um tolo

vai cair de quatro
vai ficar no toco

parecer um pato
aos olhos de todos

*

pensamentos

líria porto

palavras do silêncio

*

lástima

líria porto

comeu a comida de ontem
bebeu café frio fumou cigarros e guimbas
perdeu a honra a fortuna engasgou-se
sofreu o diabo
:
e não viu crescerem os filhos

*

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

des_vario

líria porto



nãO fOra a lOucura
O mundO seria cOmO nO dia da criaçãO
sem versOs inversOs avessOs
recOmeçOs invençÕes descObertas

para O bem Ou para O mal
Os dOidOs são munidOs cOm varas
de cOndãO


*

até que a morte nos junte

líria porto

eu tento te esquecer tentar eu tento
relembrar-te no entanto este é meu vício
eu tenho recaídas e a cada uma
a minha (in)dependência cresce
resiste

*

terça-feira, 7 de setembro de 2010

flor

líria porto

vestiu o crepúsculo
e sentiu ao redor do decote
o sol arder

*

e_levo-te

líria porto

revelo-te os relevos as grotas as grutas
os gritos e o silêncio das madrugadas

*

zen

líria porto

supre-me o que possuo
:
se algo for acrescido será bem-vindo
embora não o ambicione necessite-o
ou o persiga

(existir é dádiva)

*

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

poema

líria porto

arquipélago de palavras
rodeado pela sensibilidade

*

marca

líria porto

infelicidade sara
mas deixa cicatriz

*

proteção

líria porto

para apartar nossas brigas
mamãe se punha entre nós
algodão entre os cristais
seda nas nossas vidas

*

noli me tangere

líria porto

ante a coragem
covardes se curvam
:
pisa nesta risca
coxinha

*

soldo

líria porto

sol dado
soldado
com câncer
de pele
ou mau pago
:
estaremos
protegidos?

domingo, 5 de setembro de 2010

minúsculas

líria porto

curam feridas e pústulas
mas provocam efeitos colaterais
:
insônias angústias boca seca gosto de cabo
de guarda-chuva

ora pílulas
antes de abusá-las
                         leiam a bula

*

sábado, 4 de setembro de 2010

do berço à tumba

líria porto

a via é permeada de espinhos
pétalas tristeza alegria medo
coragem e susto                          

*

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

emoção

líria porto

as palavras que te escrevo
terão sentido di_verso
se pensares que o poeta
com a caneta entre os dedos
estremece-se

*

suscetibilidade

líria porto

tudo é passivel de poesia
até o impossível

*

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

) (

líria porto

crescente
abre o parêntese (

minguante
fecha-o )

(cheia fica dentro)

nova
fica fora

*

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

perdas e dramas

líria porto



na sola dos pés dos velhos
calosidade amarela
fá-los pisar com esforço

tantos passos foram dados
por caminhos tortuosos
na procura do tesouro
:
alguém viu minhas pantufas?

*

ouvidos moucos

líria porto

pão de quê?
de queijo

pão de beijo?
pode ser

quantos?
tantos

assim seja
cerveja?

*

não há escapatória

líria porto

sobe
morro
desce
morro
fomos
somos
cromo
somos

*

terça-feira, 31 de agosto de 2010

xixi

líria porto


nesta noite tem morcego
tem aranha tem enxofre
neste medo tem capeta
tem veneno tem chocalho 
nesta manhã tem menino
deitado dentro
do lago

*

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

segundo grau

líria porto

matemática é antipática – gosto é de português
bigodões e bolinhos de bacalhau

*

bonitão

líria porto

dize-me com quem andas e eu te direi
que inveja – queria ser a mulher
que caminha do teu lado

*

sábado, 28 de agosto de 2010

matadouro

líria porto

acho que foi
o olho do boi
o olho parado
o olhar de lado

a vaca fraca
caiu de quatro
mudou do pasto
para o açougue

essa cadeia
essa parede
é uma rede
de pegar mosca

ora freguês
é a tua vez
agacha-te
entrega o c_ouro

*

ex_pião

líria porto

se teu amigo é um doce
cuidado  fica ex///////perto
ele é agente da cica
:
para obter a receita
ele te usa
               usa
e ab_usa

(e pede asilo na rússia)

*

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

a menininha do espelho

líria porto



nas  horas mais tristes
quando todos somem
ela se importa 
e não me abandona

*

brin_cadeira

líria porto



disse ao carlos  estátua
não te mexas nem pisques
e corri pra itabira

*

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

in veritas

líria porto



a verdade ao avesso
a viagem nas veias
o vinho

(nem que a vaca tussa)

*

descobertas

líria porto

ao invés de expectativa
possibilidades

se uma não der certo
haverá outra e outras
e ostras

e pérolas

*

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

linha de fogo

líria porto

avós
pais
filhos
netos
:
na sequência

e que ninguém fure a fila

*

fêmea

líria porto

lua linda louca ilícita
sem licença para se deitar com os homens
enche as ruas de volúpia

de malícia

*

terça-feira, 24 de agosto de 2010

liberdade é balela

líria porto

faz-se o que se quer
dentro dos limites

pedra sobre
a rotina impede-nos
o voo

*

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

tourada

líria porto

cutuco-a provoco-a
a palavra se zanga e me fere - tira de mim
a poesia

*

coragem

líria porto

a mão seja firme o tiro certeiro e a ferida
uma explosão de pétalas –– uma rosa encarnada
no peito

*

domingo, 22 de agosto de 2010

sismo

líria porto


o coração da terra - quente e maciço
bate descompassado
:
cisma de mãe

*

voo

líria porto

no ensejo do verso o manejo da palavra
o desejo de expandi-la – de vê-la roçar
uma estrela

*

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

algoz

líria porto

prognóstico – seis meses
pouco mais / pouco menos

o tempo ri_bomba o relógio não para
e as horas são feras gulosas

*

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

vícios

líria porto

I

na taça o vinho
sorria para a boca

e a louca sorvia
sua língua solta


II


saía-lhe fumaça pelas narinas
e as pupilas aprendiam
que a vida é nicotina


III

o corpo - massa amorfa
derrama-se sobre a cama

e permanece
                      poça

*

vício

líria porto

:
o cigarro manda
o fumante obedece

invertebrado

*

fértil

líria porto

desci subi retornei
vi um caminho incomum
era a trilha do tatu
por onde me enveredei

uma semente só uma
capaz de gerar a árvore
caiu em mim transformou-me 
em algo verde encorpado

virei um galho um arbusto
cresci cresci santo deus
tão amarelas as flores
pau-brasil 
:
sibipiruna?

*

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

in_versus

líria porto

cai do teto do meu quarto
um poema intermitente
à noite pingam umas letras
nas chagas que tenho

o que eu buscava – silêncio
não pude ter eu não pude
cantaram galos canários
a cachoeira o açude

são muitos os pensamentos
essa mistura de assuntos
eis que chega a prima_vera
cheiro de flor me confunde

não sei se acordo
se durmo

*

terça-feira, 17 de agosto de 2010

desabamento

líria porto

o pó das paredes e das vigas
vagueia como um fantasma
pela cidade

*

no meio e no fim do caminho

líria porto

pedras nos rins na vesícula
e a vida a (em)pedrar
gelo

*

o mágico de ósculos

líria porto

(des)conhece-me os picos os abismos
navega entre eles naufraga
e volta à superfície

*

domingo, 15 de agosto de 2010

portal

líria porto

no dia da minha morte
transporta-me pelo azul
e semeia as minhas cinzas
onde o vento faz a curva
onde a lua se embeleza
onde mora o pôr do sol

*

da situação

líria porto

pior que perder o par
é perder-se o pé

*

sábado, 14 de agosto de 2010

a pena bica o poema

a poesia gorjeia-o

(líria porto)

*

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

inventário

líria porto

a vida é uma bola uma bolha um círculo
aos quais circundamos por ar mar ou terra
onde retornamos em dias estéreis
ao ponto da partilha

*

prendam-me em camisa de flor

líria porto

) conde d'eu para a corte
menos à mulher – dona isabel
que o chamava luís filipe
:
escreveu-me em letras garrafais
quando vieres traz tequila
ou cachaça das gerais (

(prima vera se aproxima
e ainda há névoa)

*

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

que ódio

líria porto


vejo-as - lua e vênus
se ao menos me dissessem a que vêm
mas não - uma ri a outra olha
                                         e é só

ai
a vontade que eu tenho de dizer-lhes
desembuchem falem logo de uma vez 
(entre nobres não devia haver deboche)

*

crionças

líria porto




vovó temia trovões
e quando um clarão ribombava
ela tapava os ouvidos

nós – aquele dilúvio de risos
aquela maldade asas

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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