sábado, 28 de dezembro de 2013

mormaço

líria porto

de sol até as tampas
segurem o mar –– o sal me altera
a pressão

*

água na boca

líria porto

o mar que tens e não tenho
toca meu céu só de longe
então eu te envio um beijo
a ti que viraste monge

(enquanto isso vou a pique
fico aqui – a ver navios)

*

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

torrão

líria porto

com as solas dos pés
como as palmas da mão
reconheço-te

*

relâmpago

líria porto

voz de trovão
numa topada de nuvens
natureza bruta

(não sei
pra quê tanto
escândalo)

*

domingo, 22 de dezembro de 2013

cremação

líria porto

alguns amigos
parentes
vão se lembrar
e é só

alimento vermes
ou viro pó?

*

presentes

líria porto

os cabelos sedosos da mica
os cachinhos da iara
os versos cantados por elas
pela dri pelo imperador
ecoam na sala
no quarto

eu me ouço e me calo
descanso os pés

*

sábado, 21 de dezembro de 2013

comemoração

líria porto

bolachas maria ou maizena – uma caixa
e dois pacotes de margarina

mastigar a noite inteira
sem fazer perguntas

(há quem prefira hóstias)

*

vigília

líria porto

perco o sono
e quando ele me acha
aaaaaahhhhhhhhhhhh
bocejo

volto para a cama e tenho
pesadelo

*

moreno

líria porto

não me saem do pensamento
o sal o céu o sol
a tua pele

tu
a minha praia

*

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

fúria

líria porto

vou em frente volto atrás
ando pro lado se o motivo
é convincente
:
quando empaco
sai de cima sai de baixo

*

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

estágios

líria porto

dela ouvi de um tudo
da boca de minha mãe
houve bronca houve carinho
ordem pedido oração
lamúria canto revolta
canção de ninar menino
muita verdade e por certo
muita mentira

mamãe era humana
e divina

*

basta

líria porto

beijei a lama que pisavas
lambi tuas botas e ainda riste

fui besta mas nenhuma bisca
vai rebuscar os meus dias

*

convivência

líria porto

no cerne da minha ignorância
a ânsia de aprender com as andorinhas
a viver e a voar em bando

*

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

malandragem

líria porto

nua e linda –– despudorada
a lua me olha com cara de puta
depois da noitada

(eu podia ter feito um haicai)

*

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

dos males o melhor

líria porto

se o céu desabar pego um santo
anjo não – que anjo não tem sexo

*

víboras

líria porto

rodeiam-te antes do bote
rastejam – nós temos pena
é quando elas te engolem
:
tu morres
elas procriam-se

*

nuvens

líria porto

um pato um leão um sapo
um cachorrão bem peludo
um mundo todo de espuma
coroado de azul

*

rebarba

líria porto

um agulheiro nos pés
uma pedreira no lombo
nos olhos cacos
de vidro
:
a alma?
plena de assombro

*

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

auge

líria porto

subo subo
escalo a nuvem mais alta
depois eu salto em teus braços
e afundo fundo
em tua
alma

*

dependência

líria porto

brota de ti lá do fundo
dum ramo de fedegoso
uma erva tão daninha
a tirar-nos a alegria
(a tua e a minha)
de vadiar como a lua
livre no céu e sozinha
sem agarrar-me
ao pescoço

(acabe a tua anemia)

*

turbulência

líria porto

o vácuo
um frio na barriga
e a vaca no pasto
nem se aflige

*

um poema para ana elisa

líria porto

o céu
não dos anjos
nem dos santos
o céu dos poetas
tão mesclado
de infernos

*

verso

líria porto

não com fórceps
parto natural e se possível
de cócoras

*

barreira

líria porto

alguém me interdite
retire de sobre meus ombros
o peso de mim

alguém me imponha limites
e se puder me devolva
algum sonho

alguém me livre

*

antiagenda

líria porto

misturo departamentos
troco ponteiros horários
confio desconfiada
no que chamo de memória
(principalmente na minha)
então se houver certezas
melhor conferir primeiro
para não se quebrar a casca
antes do tal momento

(ou vou chegar atrasada
no meu próprio enterro)

*

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

fim

líria porto

as meninas dos olhos
saltam sem paraquedas
no sono eterno

*

cabisbaixo

líria porto

andar sobre pedregulhos
buscar nas sombras a cruz
consigo mesmo apostar
quem vai vencer a corrida

brincar sozinho
perder-se dentro
de cismas

*

o grito

líria porto

um berro preso na goela tão calado quanto o túmulo
fazer o quê com a vida – esta porrada no fígado
esta sucessão de sustos

*

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

autocrítica

líria porto

falhei pelos cotovelos e as falas repetitivas
são verdadeiro atropelo

*

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

césar

líria porto

artista de circo olhos verdes
dava voltas no globo da morte
e nem sei se era bonito

(fazia barulho em meu corpo
de menina-moça)

*

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

no calor

líria porto

o leque de madrepérola
e eu fechava os olhos para sentir a brisa
sobre a corcova de um dromedário

*

desfalecer

líria porto

o dente quebrado a poça de sangue
o corte no queixo e eu sem saber
vai para onde?

desmaio – morrer por instantes
perder por nocaute

*

domingo, 8 de dezembro de 2013

antropófago

líria porto

queria-me nua
tão completamente
que depois das vestes
arrancou-me a pele
fiquei carne viva

então me salgou
comeu uma parte
e não satisfeito
congelou o resto
pra comer mais tarde

*

menta

líria porto

o amor é uma saraivada de balas
contra e a favor

*

patins

líria porto

não tinha equilíbrio
mas bem que eu quis
ter rodas nos pés

sair por aí
romper as barreiras
sorriso de corpo
inteiro

*

neuroses

líria porto

humanos mamíferos
grudados às tetas
famintos de vida
cheirados lambidos
em tudo outros bichos
ou feras distintas?

*

sábado, 7 de dezembro de 2013

eva

líria porto

ah – aquela zinha
falava-se vinha
dava no pé
:
cachos maduros
uvas

*

pro_lixo

líria porto

meu vestido de bolero lero
comprado em boutique
tinha tanto zero e era tão chique
parecia feito por um costureiro
de paris ou londres

usava-o e ficava tão bonita
(eu me achava)

um dia um moreno me olhou de cima abaixo
e o meu amor –– só de ciúme –– transformou o meu vestido
em trapo

(o filho da puta)

*

habilidades

não fiz crochê fiz tricô
que tem apoio mais firme
duas agulhas compridas
contrói-se toda a carreira
conversa-se - vê-se tevê

já crochê acho difícil
os pontos de um em um
contá-los bem e medi-los
olhos ali sempre fixos
(sem falar que é mais bonito)

*

crescimento

líria porto

eu andei corcunda porque te amava
carreguei nas costas o teu e o meu peso

agora resolvi – toma tuas pedras
eu só levo as minhas

(e um alívio dentro)

*

domínio

líria porto

eu – minha patroa – sou um ser terrível
tento me enquadrar pôr sela e cabresto
no que em mim é livre

(o espírito)

*

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

glutões

líria porto

comia-a comia-a não se saciava e quando lhe pedia
dá-me um descanso reclamava –   já não gostas
de mim

*

papagaio de pirata

líria porto

não pouses
em meu ombro
ave de rapina

*

congênita

líria porto

a cicatriz junto ao nervo
um triz e eu cegava – por isso
a neblina

a cortina cinzenta

*

resquícios

líria porto

sexta fera
sábado trôpego
domingo deprê

*

tantos homens

líria porto

deitou-se com uns e com outros na ânsia de um
fosse o amigo o amante o pai da criança
que não há e nem ouve

(abortou-se)

*

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

mandela

líria porto

a tua cor de terra
deu-me humanidade
:
ela te seja leve
um dia – logo
em breve
vou aí
beijar-te os lábios

*

vade retro

líria porto

de dar nós nas tripas entupir as veias
areia nos olhos ou cacos de vidro
a tua mentira a fazer-nos tolos
és tu o tal lobo em pele
de velho?

*

tosse

líria porto

pode ser tuberculose alergia
insuficiência cardíaca virose
pode ser muita coisa – até asma
engasgo pneumonia
ou esse nervoso que me ataca
quando preciso falar
e mais que a necessidade
faz-se forte a timidez

*

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

estouro

líria porto

dizer as coisas como prece
ensinaram-me – assim era minha mãe
(eu fui bem criada)
porém me dou conta e saem-me à boca
cobras e lagartos

*

cisma

líria porto

tais quais helicópteros
uns grilos sobre meus
pensamentos

a rima é no esquerdo do peito
em cima do nódulo

*

portais

líria porto

castanhos terrenos – teus olhos
nada mais nada menos

*

re_curso

líria porto

quando o sonho é pesadelo
uma ducha fria pode
                        desfazê-lo

*

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

sem choro

líria porto

quando eu morrer
ninguém me mande coroas
enviem-me buquês de noiva
de toda cor e espécie
e façam festa
e dancem
:
a lua seja de mel

*

bu_cólica

líria porto

cheiro de mato me mata
arvoro-me e sou poeta
verso e reverso por terra
a poesia na lata

*

colegial

líria porto

blusa branca saia azul
joelhos sempre à mostra
a calçola o soutien
(eu nunca usei anágua)
sapatos meias soquete
assim eu ia à escola

a cabeça?
nas nuvens

*

inovação

líria porto

quis ensiná-la do meu jeito
reagiu – fritou-os com casca

falou do sangue das regras
e tal inventara foi
um sucesso

cada um
cada qual

*

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

quase se_tenta

líria porto

a vida me roça
esfrega-se em mim
com segundas intenções

(e nem precisava)

ao mais leve aceno
agarro-me a ela
entrego-me

(em posições inusitadas)

*

volúpia

líria porto

vago o lume
pisco pisco
meu amor
está em casa
pego a faca
corto o impulso
faço canja
molho pardo
com cebola
e muita salsa

*

associações

líria porto

o pó preto a água fumegante
o cheiro da casa de mamãe
e eu –– filha e mãe –– a sorte
no fundo da xícara

*

infestação

líria porto

a batida do verso que faço
qual aço sobre minha cabeça
martela martela martela
e mata o piolho
na marra

(preferia que fosse na unha)

*

equipe

líria porto

sem a proteção da rainha
dos peões
dos cavalos torres e bispos
o rei do xadrez
sequer chegaria a príncipe

*

pedalar

líria porto

lá ia eu
com equilíbrio
e sem atropelar
a lei

*

revide

líria porto

nariz empinado
o rei na barriga
faz pouco da dona do fusca
entra no carro de luxo e o motor
não funciona

sorriso nos lábios
a moça vira a chave
e a viagem continua
:
quem bole com bruxa
tem troco

*

domingo, 1 de dezembro de 2013

entendimento

líria porto

para que me ouças
eu me silencio

um dia saberás
palavras dizem pouco
(pensamentos têm força)
e mesmo que não vejas
estarei por perto

na voz do mar
do vento

*

perdição

líria porto

doce deleite
dez litros de leite um quilo de açúcar
a vida à beira do fogão

na boca – com ou sem queijo
um manjar dos deuses

*

sempre

líria porto

aqui ali acolá
onde ele anda ela vai
(ora na frente ora atrás)
conforme o lado da luz
segundo o flanco do sol
(a sombra segue seus passos)

*

sábado, 30 de novembro de 2013

mama mia

líria porto

na hora do amor
subiu nas paredes
depois despencou
mas não se arrepende
:
o inferno e o céu
são faces da mesma
moeda

*

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

seleção

líria porto

sou a minha casa e me cerco de cacos de vidro
só entra quem tem asa ou suporte rasgar
corpo e alma

*

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

o impossível

líria porto

não consigo nem comigo
nem contigo nem com
ninguém

*

tecido

líria porto

tal como as leses
tenho pele fina e furos
de nascença

*

sem corrimão

líria porto

viver é subir e descer escadas
com degraus de gelatina

*

natimorto

líria porto

que olhos teria o filho
que não viveu?

o que lhe diria hoje?

*

esquecimentos

líria porto

fora do alcance das mãos dos olhos
fora do alcance do coração

de ausência em ausência
deslembro-te

*

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

cuidado

líria porto

poesia na seringa
a penetrar nossa veia

a poesia é uma droga
madrinha?

não meu bem – porém
vicia

*

banzo

líria porto

trocado por quinquilharias antes de embarcá-lo
obrigaram-no a sete voltas ao redor da árvore do esquecimento
sem pertences sem parentes nem nada
apenas as correntes
que o prendiam

(a áfrica nas entranhas)

*

enxame

líria porto

os peitos choraram o filho morto
o cheiro atraiu as abelhas
beberam-lhe o néctar
e fizeram
mel

(mulher na flor da idade)

*

acenos

líria porto

o barulho verde
do bando de periquitos
crianças pequenas

*

asilo

líria porto

o corpo em concha
igual dos fetos
vovó tem filhos
netos bisnetos
mora lá longe
com outros velhos

a morte espreita-a
ninguém se importa
vovó é como
a folha morta
que se desprende
na hora certa

o vento é forte

*

terça-feira, 26 de novembro de 2013

tardança

líria porto

já fiz isso pelo muso
faço isso pelo verso

um muso do avesso
um verso inconcluso

(um poeta
patético)

*

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

finados

líria porto

é tão bonito chorar
à beira da sepultura
viúva então acho lindo

(não vou espalhar tuas cinzas
eu quero roer-te o osso)

*

os telhados

líria porto

cada casa um penteado tem uns lisos uns com ondas
com topetes para o lado – uns com franja
ou com telhas coloridas

(vaidosos os seus donos)

*

desnudo

líria porto

atrás das lentes 
faço silêncio 
peço licença 
tateio tudo 

então concluo 
fora de alcance 
tão absurdos 
só os gigantes

eu sou miúdo

*

domingo, 24 de novembro de 2013

silêncio

líria porto

coração de mãe
marca passo
devagar
para não acordar
as crianças

*

dose

líria porto

pinga pinga pinga
até que chega uma hora
a vida acaba e a morte
recolhe a garrafa

*

de_feitos

líria porto

o olho manco
de um eu vejo do outro
eu me esforço

um rim manco
com um eu filtro co'o outro
eu tenho febre

um ouvido manco
de um eu ouço no outro
eu ponho tampo

e dou mancadas
de deixar os pés
perplexos

*

na ponta dos pés

líria porto

quanto mais espano a lua
retiro pó das estrelas
mais me embranquece
a cabeça

*

grilos

líria porto

boneca de barro
com minhocas na cabeça
mente (in)fértil

*

repugnância

líria porto

tinha cheiro de flores de pétalas
deu-lhe enjoo e o vômito
jorrou pânico

imprimiu-o em papel higiênico
e sentiu-se pérfido

*

sábado, 23 de novembro de 2013

transparências

líria porto

desvias os olhos
não me queres ver por dentro
temes queimar as pupilas

tu - o próprio incêndio

*

domínio

líria porto

vaias ou aplausos
dependem da concordância
entre quem toca e quem
dança

*

arrelia

líria porto

agora ou quando quiseres
dizem as mulheres – eu não
se não houver um acordo
fico de fora

(ora bolas)

*

amantíssimos

líria porto

meu amor repartido entre os homens
multiplica-se milhares de vezes

a cada um
conforme a sua fome
de acordo com a sua sede

*

temperamento

líria porto

menina menina
teu pai não suporta
esta espécie
de olhar

mamãe prevenia-me
porém era  forte
ninguém me impusesse
limites

desde pequenina
dona do nariz
domar nosso gênio
é difícil

(só por amor)

*

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

na lama

líria porto

perder as estribeiras
arrancar seu sangue a unha
dar um jeito na galega
que achou se engraçar
para os lados do meu
homem

ele diz que não dá bola
que não gosta do seu tipo
nega tudo – mas duvido

a vovó me garantiu
eles são todos idênticos
desde então adeus
sossego

*

leitor

líria porto

só os teus olhos completam
a poesia dos meus versos

*

vício

líria porto

não fumo não bebo não uso drogas
nem preciso - leio e escrevo poemas
dia e noite

noite e dia

*

limitações

líria porto

depois que fiquei velha
meus ósculos já não me servem
vejo mais do que preciso
fico cega

*

caracol

líria porto

lá vai ele vagaroso
a arrastar sua bagagem
de editora em editora

(a poesia é sua causa)

*

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

tendências

líria porto

a árvore dos enforcados – não passo nem perto
temo que tenha imã que me leia os pensamentos

*

progresso

líria porto

demoliram a antiga casa
cercaram todo  o terreno
prepararam os alicerces
trouxeram cimento brita
e muitas barras de ferro
:
vão erguer o edifício
vão tapar minha janela?

*

mordaça

líria porto

as palavras que eu não disse
soam-me como gritos – cacos de vidro
goela abaixo

*

carbono

líria porto

no espelho
os olhos de meu pai
a cor da pele
:
o que saio aos meus
me regenera

*

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

alfabetização

líria porto

parou
encarou o muro e soletrou
bu bu
ce ce
ta ta

nesse dia descobri
a lia lia

*

evasiva

líria porto

com asas de urubu
embolou o papel e cagou por cima
um caldo branco e fétido

nem sempre foi assim
às vezes aparecia aberta
como a borboleta

já surgiu igual lobo
a lua na boca e até pode ser
um cravo uma flor

a poesia tergiversa

*

convite quase enganoso

líria porto

vem desmorrer nos meus braços
sentir prazer remoçar – alargar corpo e espírito
satisfazer os sentidos

o amor é mágico

*

terça-feira, 19 de novembro de 2013

arisco

líria porto

já peitei a trabuzana furei onça foi no bucho
matei cobra cascavel enfrentei um touro à unha
tirei leite até de pedra mergulhei dentro
do escuro

aprendi
fiquei esperto

*

gerações

líria porto

o tempo despetala as flores
faz surgirem os frutos - amadurece-os
devolve as sementes
à terra

*

lanterna

líria porto

o sol de banda
a alongar as sombras
a iluminar as laterais

*

à flor da pétala

líria porto

a lua acordou de ovo
e o sol nem trisque

*

domingo, 17 de novembro de 2013

pobreza

líria porto

maria helena trouxe conchas – um vidro cheio delas
eu nunca tinha visto o mar

senti uma saudade oceânica de tudo que não conhecia
e sofri pela primeira vez

*

e_terno

líria porto

dia de descompensar de cair de boca
de tomar sorvete de comer pipoca
de dizer a ele – loviú xuxu
para sempre é hoje

*

sossego

líria porto

as manhãs de domingo
com toda a gente a dormir
são minhas

*

plantação

líria porto

moro em mim
e quando eu me mudar
vou para sete palmos
do solo

(di_vagar
vou cavar minha cova)

*

remanso

líria porto

eu e eu – morar comigo
assim só sem mais poréns
ser dono das minhas horas
dos dias das meias-noites
ser-me boa companhia
a discutir relação
apenas com os espelhos
com os cálices adivinhos
com as xícaras de café

*

sábado, 16 de novembro de 2013

porrete

líria porto

filtrar as palavras
não para usar sua pureza
mas para utilizar toda a borra
onde se esconde
a violência

*

traição

líria porto

recebo-te
e quando me viro
tu me apunhalas

a língua na minha ferida
tu dizes – sangue azul me salva
(só pode ser ironia)

a poça sob meus pés é da cor
das regras

*

caminhada

líria porto

o passado a amarrotar o futuro
deixar-se levar sem contudo
esmorecer

*

gratidão

líria porto

passarinhos cantam hinos
pra louvar mãe natureza
que beleza passarinhos
nossa mãe merece

*

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

entrega

líria porto

no que falo tem uma certa ereção
um quase tanto de orgasmo
retirado das entranhas

*

desviagem

líria porto

o coração me pede  não vás
eu fico

ultrapássaro as fronteiras é aqui
na escrita

*

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

sem protocolo

líria porto

na testa não
guarda este para a tua irmã

aqui – na boca – na face também podes
no pescoço na nuca nos ombros nos braços
mas não me beijes as mãos
não sou daquelas damas
tão distantes

*

figos

líria porto

lá no fundo da cratera tenho uma figueira
carregada de delícias

figueiras não dão frutos – dão flores
comestíveis

*

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

aguardo

líria porto

eu ia – aí caiu um toró
recuei

às vezes a chuva me encolhe
recolhe-me as vontades

vai ver amanhã eu me molho
sem medir consequência

*

pensamento

líria porto

eu sou volúvel volátil
nasci para flutuar

o corpo – esse castigo
é a paga pelos pecados


*

fuga

líria porto

a donzela voou e com ela
o que lhe coube na alma

a liberdade é sem beira
tem a lonjura das asas

*

terça-feira, 12 de novembro de 2013

cataratas

líria porto

no inverno de mim
olhos novos em folha
entre pés de galinha

*

brisa

líria porto

há quem necessite
de fama e poder

eu me realizo
com sombra água fresca
e um livro

*

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

incompatibilidades

líria porto

se tu te comportas
como uma represa
não contenho o riso
rio que gargalho

*

sovina

líria porto

pelo teu enfoque tudo é reduzível
até mesmo o estoque de amor
deve caber numa xícara

*

lentes

líria porto

a vida
quarou as nódoas
pôs no varal
lençóis de listras

azulzinho
azulão

*

cálculo

líria porto

um mergulho
um romper da superfície
uma luz a furar-te o olho
a implantar profundo
um mundo sem borrões

*

registro

líria porto

enxergo cada vez mais claro e longe
e a vida tem contornos tão precisos quanto preciosos
para os olhos

não para as nossas almas – estas veem
doutra forma

*

domingo, 10 de novembro de 2013

farejador

líria porto

pelo cheiro pelo tato
eu te reconheço por seguir
teu rasto

*

fama

líria porto

prefiro o anonimato
mas a vida me convida
e eu salivo

*

é isso che

líria porto

o olho bom
o ouvido são
o coração
o único rim
o melhor de mim
tudo à esquerda
:
fez-se
fácil
a opção
política

*

des_humanos

líria porto

comparáveis a répteis como cobras e lagartos
uns rastejam têm sangue frio e há os que destilam
veneno

*

meio às cegas

líia porto

curvas e curvas
cada detalhe
nada é difuso
nem mesmo a falta
asas nos olhos
flores são flores
e não há manchas
nódoas borrões
só a espera
da luz que volta
de pouco em pouco

*

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

dança

líria porto

cento e cinquenta anos
o salão era pequeno e o amor
transbordava-nos as margens

pisei o teu pé de propósito

*

in_quietude

líria porto

voa em mim
baila como vespa
o verso que não fiz

*

porém

líria porto

no porão toda a covardia
és vítima de ti mesmo
não minha

*

estilingue

líria porto

em meu encalço
a vasculhar-me as pistas

) nem asas me livram (

as pedras acertam-me as costas
e nada tem rima

*

espeto

líria porto

carne sobre o braseiro
fá-lo salivar

salga-a come-a
boca lambuzada

(no sangue do porco)

*

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

rixa

líria porto

afiou o som
subiu a escala
um tom acima
da minha fala
:
nossos agudos
tais como agulhas
feriram fundo
as nossas almas

*

ninhada

líria porto

os cinco dedos da mão
as quatro filhas da mãe
semelhanças diferenças
e tão (des)iguais
que nos confundem

*

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

morto-vivo

líria porto

cheio de caminhos vazio de vontades
deixou-se cair numa cova e não impediu
que o enterrassem

*

crossa

líria porto

escrava da escrita escrevo escrevo escrevo
sem achar que tenho cruz – sem conferir o tempo
no cronoscópio

*

glutão

líria porto

a beata tinha
uma pomba gorda
despertou no padre
um grande apetite

logo após a missa
ele sugeriu
que ela o esperasse
lá na sacristia

a beata foi
e o senhor vigário
comeu sua pomba
com pão e com vinho

*

terça-feira, 5 de novembro de 2013

benta

líria porto

depois que virei santa
recebi faixa e diploma
aí é que peco mesmo
por cima e por baixo
dos panos

e sem arrependimentos

*

arauto

líria porto

galos em greve
e o silêncio fere
as madrugadas

*

dedo-duro

líria porto

apesar do peso
vivo a pesar-me
e a balança acusa
o que como e bebo

*

domingo, 3 de novembro de 2013

de furação

líria porto

arde demais
e lacrima

depois vira cicatriz
tremor

nervo psicótico

*

urtiga

líria porto

dos homens que amei
reais ou imaginários
só um deles foi meu muso
o que me deu na bandeja
todos os homens do mundo

um homem justo
que teve a sabedoria
de esquivar-se de mim
de impedir que eu me tornasse
sua via crucis

*

sábado, 2 de novembro de 2013

in_frações

líria porto

nas paredes
no teto no assoalho
nos espelhos na escada
nas vidraças azulejos
e até nos rodapés
versos versos
versos

*

condenação

líria porto

quem faz aquilo que quer está no caminho certo
errado é contorcer-nos mudar nossa natureza
o que nos dizem as igrejas não me interessa

eu peco

*

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

acabamento

líria porto

croc croc croc – passei overloque por cima da rima
agora ela não desfia

*

falecimento

líria porto

todos tem a sua hora
eu salto primeiro – na véspera
antes da ressaca

*

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

vadiação

líria porto

eu nem queria
mas ele insistiu
e eu fui

olha amor
essa eu te devo
comer tudo e lamber
a travessa

*


raio-x

líria porto

um olho cega e o outro
para compensar os dois
vê tudo em dobro
:
o que enxerga
e os sonhos

*

terça-feira, 29 de outubro de 2013

chatura

líria porto

a mosca da padaria
zumbia a meu redor
eu dava tapas
espantava-a
ela fingia não ver

pus cerca elétrica
que nada
ainda assim insistia
fazia plantão
dia e noite

tomei banho de sal grosso
comprei figa pé de coelho
pus vassoura atrás da porta
ramo de arruda na orelha
e arranjei espingarda

(ufa)

*

vovó

líria porto

ela é quase setentona - a nona
e em breve vira a décima

*

bipolar

líria porto

a alegria
a tristeza

ora uma
ora outra

batem
sopram

(eu que sofro)

*

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

incréu

líria porto

pastor padre papa monge
eu só quero ver de longe

*

revisão

líria porto

sou a que me reescreve
muda-me os pontos de vista
também para a nuca

*

carcará

líria porto

passou arame farpado em torno do meu corpo
estanquei o sangue e pulei a cerca
só por desaforo

*

uvas verdes

líria porto

contigo iria a paris
tu não quiseste então fico
nem gosto de viajar

*

domingo, 27 de outubro de 2013

vertigens

líria porto

tango em buenos aires
valsa em viena samba no morro
crepúsculos com almodóvar
al pacino e eu –– em qualquer lugar
a qualquer hora

*

sábado, 26 de outubro de 2013

infeliz

líria porto

cheio de vazios
vazio de si
a vagar no nada
a nadar nos vãos
nos nãos
nos retalhos
no fiapo de vida
que ainda lhe resta

(o pobre diabo
com chifres na testa)

*

sirena

líria porto

gostava da asfixia
das mãos que lhe apertavam
o pescoço

a areia movediça
tragava-lhe as pernas
o sexo os seios
a cabeça

recusou socorro

*

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

inconsequentes

líria porto

mordes e sopras
jogas nas minhas feridas
teus perdigotos
eu me incomodo
mas não tanto
pois te mantenho por perto
e também te infecto

neste jogo de poder
tu que não és
ainda és
eu que não sou
ainda sou
a engrenagem que gira
que faz mover
o motor

somos loucos

*

paixão

líria porto

uma espécie de tara
que tira toras da gente
bem na altura do peito
e altera o batuque

*

sumiço

líria porto

eu saí
quis voltar
abortei-me
de tudo
e de mim

já não sei
quem eu sou
onde estou
só sobrei
esta sombra

quem me achar
por favor
me devolva
ainda sinto
pesar

*

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

enxame

líria porto

uma colmeia no ouvido
zumbidos – eu fico zonzo
a cera me deixa surdo
:
o mel foi na meninice
ouvia palavras doces
como suspiros

*

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

cutelaria

líria porto

as palavras são de aço
é preciso aquecê-las até que fiquem maleáveis
e possamos forjá-las

*

eu sou a minha terra

líria porto

mineira e velha
(em posição de sentir-me)
o corpo igual um mastro
(não se pode curvá-lo)
e a alma - ah a alma
(esta só dá bandeira)

(liberdade
ainda que à tardinha)

*

terça-feira, 22 de outubro de 2013

a maré

líria porto

amarguras escorrem dos olhos
marulham-nos infiltram-se
e salgam a nossa carne
:
marias morrem na praia

*

domingo, 20 de outubro de 2013

neura

líria porto

pisar em ovos
dosar as palavras
fechar os olhos
frear o riso
para contentar
o dono da praça
:
isso é vida?

(enforca-me melhor
a corda)

*

camelo

líria porto

quando digo que não presto
que sou um prato indigesto
e insistes em comê-lo
penso
este homem tem estômago
ele me aceita sem molho
:
este me rumina

*

tardias

líria porto

há quem mande flores quando morremos
podiam enviá-las enquanto podemos vê-las
retribuí-las colocá-las no jarro da sala

*

clã

líria porto

recebe-nos
com tanta distância
chego a pressentir
a mão que me arreda

melhor eu não ir
ficar no meu canto
deixar vir a mim
quem é do meu bando

*

sábado, 19 de outubro de 2013

pira

líria porto

outubro te desequilibra
ou tu brotas de ti mesmo
e desequilibras todas
as certezas

*

raso

líria porto

o olho
é um globo
achatado
nas bordas
um disco
voador
em que etês
me transportam
para estar
entre a estrela
e o asteroide

*

falta

líria porto

no vão do rim
o espaço do não
e a cicatriz

*

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

teclado

líria porto

de pouca visita
nunca vai ninguém vem
a porta sempre trancada
as janelas
mas toca piano
e sua música
atravessa as paredes

*

de assalto

líria porto

maria é flor que se cheire
e usa saia rodada
o vento vem e maria
segura a cabeleira

*

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

tatear

líria porto

nos pés do menino uma bola
nos olhos da avó a neblina

sentidos mais aguçados
tentavam buscar na memória
o que era ser criança

*

desolação

líria porto

nuvem prenha
chão que racha
é sertanejo
à espera

gado morre
rio seca
sem feijão
vai comer terra?

implorou
já fez promessa
céu é isso
que se nega?

*

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

arrastão

líria porto

teus olhos são rede
eu – peixe

*

terça-feira, 15 de outubro de 2013

extrem'idade

líria porto

na dobra do morro uma pedra fincada
qual fora a amada no aguardo de alguém
nem vento nem chuva conseguem arredá-la
há séculos a pedra espera seu totem

mas ele não vem

*

a_penas

líria porto

pergunto ao vento o que fazer com a liberdade
ele responde - não faças nada
eu vento apenas

é que o sol arde

*

meu pai e eu

líria porto

quando fica bravo
um estouro de palavras
quando fica manso
um silêncio que me mata

podia ter um jeito
de equilibrar a balança
de pôr em pratos limpos
a nossa convivência

*

oh céus

líria porto

corpo
estirado
no esquife
não precisa
camisa
de grife

*

domingo, 13 de outubro de 2013

aos pés da letra

líria porto

o teu olho é raso
disse-lhe o doutor
igual um soldado
ela perguntou

não teve resposta
pôs-se a imaginar
esta parte verde
deve ser a farda

agora ela prende
no fundo do olho
todas as belezas
e passa o ferrolho

*

cachorro

líria porto

come a carne
(esta parte lhe interessa)
rói o osso um pouquinho
mas depois
enterra-o

vai vadiar
encontra outras cadelas
come carniça
e retorna

remexe a terra
suja o corpo
o focinho
rosna
(um osso precisa saber que tem dono)

então deita
e dorme

*

sábado, 12 de outubro de 2013

enfadonha

líria porto

a mocinha de olhos tardos
puxa-me pelo estômago
reclama chocolate
e homem

*

camaradagem

líria porto

amigo é aquele que abana
que tem a leveza do leque
e troca o mormaço
pela brisa

*

osmose

líria porto

poema é cubo de gelo
dentro do copo de uísque
o entorno deixa-o bêbado
exato a cor da poesia

ninguém sabe quem
é quem

*

embebedar-se

líria porto

navegar dentro da garrafa

*

umidade

líria porto

humildade de água é mostrar-se em forma de mofo

*

autoconhecimento

líria porto

metade da vida eu dormi
metade do sono eu sonhei
e nesse quarto de vida eu me vi
eu me li
de olhos voltados para dentro

perdi tempo – para mim continuo
um enigma

*

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

insistência

líria porto

primeiro pegou no seu pé
então escalou suas pernas
subiu depois nos quadris
rodeou-a na cintura
espiou-lhe o decote
e até beijou-lhe a nuca

(como se fora uma pulga)

*

pós-parto

líria porto

secou o leite 
e foi preparar docinhos
para a festa de um ano 
da pequena lili

coragem arrancada do útero
mal chorou o seu menino
cujo corpo foi-lhe entregue
em caixa de papelão

*

sem família

líria porto

banguela e de bengala
ficava à porta do asilo
para o banho de sol

um xalinho encardido
cobria-lhe os ombros
fazia o papel
da visita

*


na janela

líria porto

antes vinha um urubu
pousou hoje o bem-te-vi
coçou penas cantou baixo
assobiou para mim

retribuí com olhares
cantei sua cantoria
bem-te-vi ouviu calado
timidez de passarinho

(bateu asas foi-se embora
outra vez fiquei sozinho)

*

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

mula

líria porto

o tempo montou-se-me às costas
mete-me as esporas sem dó
a estrada é ruim pedregosa
troto de_vagar

(vez por outra eu comia um capim
mas o tempo é de seca
e de pó)

*

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

avulsa

líria porto

falar mal eu não permito
não dela  da mulher legítima
a mãe dos seus quatro filhos

(eu era por querer ser
a que atiçava o apetite
eu era a outra)

*

supérfluo

líria porto

o frio na barriga – fome de ti
em nada se compara à falta
de feijão
:
por um prato feito
eu te troco fácil fácil
depois eu te bebo

*

maríntimo

líria porto

desde ontem
uma onda rebenta em meu peito
traz à tona o que vem lá de dentro
e me tinge de urgências

desde sempre

*

terça-feira, 8 de outubro de 2013

marujo

líria porto

esse olho infiltrado de distâncias
esse corpo maltratado pelo tempo
essa vontade te buscar sem saber
onde estejas em qual mar
e com quem

*

salta-martim

líria porto

nem que a vaca tussa
tenha que tomar xarope
entrego-te esse envelope
com o salário do mês
:
vai trabalhar vaga-lume
bota recarga na bunda

*

estimação

líria porto

as botinas do francisco
usadas de sol a sol
vão pra escola vão pra roça
sem precisar meia sola

as botinas quando sujas
vovô engraxa-as

*

introspecção

líria porto

ceguei-me e li pensamentos
mas quando voltei a mim só me percebi
aquém do meu nariz

*

lereia

líria porto

enxerga-se a barriga
e lombriga não é
:
pipoca por aí que espiga
está grávida

*

transitórios

líria porto

não somos o que fomos nem o que seremos
estamos o que nos é possível
no momento

*

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

piá

líria porto

eu te vi com trinta minutos trinta horas trinta meses
não te verei com trint'anos – tampouco verei tua irmã

mas estarei por perto

*

cócegas

líria porto

a vista turva desfaleço
então a vida passa uma pena em mim
um pouco de arrepio

*

gota d'água

líria porto

o rio secou e com ele
tudo o que era perene –– a colheita
o barro de moldar panelas a fartura de peixes
as roupas clarinhas

o rio secou e com ele
a vida sertaneja

*

domingo, 6 de outubro de 2013

roldão

líria porto

meias arrastão levaram-me ao cais
marinheiros atracaram-se às minhas coxas
quando o navio zarpou voltei para casa

(frouxa)

*



abismos

líria porto

os meus olhos veem mais do que precisam
veem o homem poderoso massacrar o homem pobre
veem padre e pai pedófilos corrupção na política
veem tráfico na escola menino a cheirar cola
filho que mata pai mãe que abandona filho

os meus olhos têm calos
e enxergam só uma parte
mais não suportariam

*líria porto

o mundo dá voltas

líria porto

cansado de rodar em vãos
aguarda um buraco negro
para se jogar

*

desfalecer

líria porto

o medo faz-nos reféns
a pressão vai aos píncaros
depois nos empurra de lá para o fundo
do precipício

*

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

mandão

líria porto

tão ácido tão azedo
que o limão sentia inveja

e quis salgar minha carne

*

conservação

líria porto

passar o coração no multiprocessador
retirar o medo e deitar o bagaço
na salmoura

(coração é carne de segunda)

*

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

amor

líria porto

eu – colibri – adentro-te
enfio meu bico em teu peito
à busca de néctar

*

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

à beira do caminho

líria porto

ancoro no teu colo
nem me olhas

grito que te amo
não me ouves

não me consola
o destino das pedras

*

terça-feira, 1 de outubro de 2013

para-brisa

líria porto

no sábado retiro a neblina
do olho direito

do esquerdo tiro-a em novembro
depois do dia dos mortos

*

pé-d'água

líria porto

em dias de muita chuva
eu nem disfarço a tristeza
ponho a culpa numa nuvem
nus meus olhos
                       têm goteira

*

ultrassomos

líria porto

o fato é que o feto nem fita a foto e furta a cena

*

danado

líria porto

um anjo buliu comigo
passou mel na minha boca
sumiu mas deixou vestígio
:
a pena para o tinteiro
e esse arrepio

*

domingo, 29 de setembro de 2013

duble face

líria porto

os meus olhos d'água
teus olhos barrentos
e o amor cachoeira
a inundar nosso leito
transbordar nossas margens
oceano de gozos
e prazeres

os teus olhos d'água
meus olhos barrentos
e o amor pantanoso
a espalhar-se na cama
derramar tantas lágrimas
ausências tristezas
e sofrimento

*

genealógica

líria porto

minha raízes são árabes
o meu tronco português
das minhas galhas mestiças
nasceram frutos saudáveis
cujas sementes brotaram
na américa do sul

*

sábado, 28 de setembro de 2013

roda

líria porto

o tempo das lembranças
de saber-me os passos recordar quem fomos
evocar histórias segredos amores
recônditos

*

vampiro

líria porto

pudesse
ele me bebia
direto da jugular
e com canudinho

desde então
amarro um lenço
embebido
em água-benta

quando vem
nem me desvio

*

atabalhoado

líria porto

eu meto os pés pelas mãos
desarrumo até a alma para encontrar
meu rumo

*

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

desilusório

líria porto

faz de conta que me ama – finjo que acredito
e fica o dito pelo inaudito

será o benedito?

*

tipos

líria porto

carioca

maneiro
qual mineiro descansado
com um pão de açúcar dentro
muito mar e muita
praia

*

paulistano

terno
gravata
corro corro
morro
entre a garoa
e a fumaça

*

baiano

uns se espetam de pé
outros esperam sentados
eu espero na rede

(o violão
do meu lado)

*

mineiro

da falta de mar
só queijo me consola
:
ele um pito
e uma cachaça

*

gaúcho

um chimarrão um churrasco
uma prenda um chapéu
umas bombachas

*

entremeio

líria porto

nós
que vivemos bons e maus bocados
sabemos que alegrias e tristezas
intercalam-se

*

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

a esmo

líria porto

muros paredes
estilhaços vidraças
vislumbro sombras
fantasmas
bruxas

perambulo pelo casarão

*

líria porto

não sei se rio se largo
ai que sinuca de bico
eu fico dentro é amargo
eu saio fora trumbico-me

*

parênteses

líria porto

(ai moço
quando tuas rimas internas
fincam-se entre as minhas pernas
aí então é o gozo)

*

pacote

líria porto

ninguém vai desfazer meu riso
controlar minhas palavras nem dosar
meu  bom-humor
:
em nome do amor meu bem
só posso ser como sou

(ou tudo ou nadas)

*

folga

líria porto

quem eu peço não me impede
e por isso eu deito e enrolo

*

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

futilidade

líria porto

não me deixei cair
ao desabar segurei-me
rasguei a mão no arame
não esgarcei minha meia

*

autocrítica

líria porto

saio de mim
viro bicho
:
inseto
dos mais
nojentos

*

percurso

líria porto

velozes ou vagarosos – uns e outros
os passos percorrem caminhos
de ida volta e retorno

subidas descidas obstáculos
vencidos com muito esforço
são das estradas da vida

ao final estamos
os mortos

*

terça-feira, 24 de setembro de 2013

tapete

líria porto

não quero pisar as flores
magoar as suas pétalas
elas se impõem enfiam-se
debaixo dos nossos pés

*

da experiência

líria porto

passado é passado
mas para tentar ir em frente
prevenirmo-nos dos apuros
manter os olhos na estrada
e nos retrovisores

(tendemos a repetir
os mesmos erros
descuidos)

*

troco

líria porto

ao moço
que me ensinou beijo de língua
eu mando um verso

ao outro
que estourou meu hímen
eu mando um beijo de língua

aos bacanas
que só me olharam de longe
eu mando uma banana

*

caramujo

líria porto

eu sou um ser arredio
um rio oculto na mata
um bicho que se esquiva
atrás da moita das galhas
o meu verso é caudaloso
porém não vou a saraus
:
a timidez é uma crosta
a disfarçar o orgulho

a timidez é o caos

*

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

plenitude

líria porto

espreguiçar
alongar a alma
e que ela preencha
os recônditos do corpo
até roçar os poros
as unhas
as pontas dos pelos

*

domingo, 22 de setembro de 2013

prenhez

líria porto

a gravidez permanente
amamenta enquanto
espera
:
poesia não tem regra

*

sábado, 21 de setembro de 2013

sádico

líria porto

apunhalas-me e me olhas pelas gretas
frestas buracos de fechadura para assistir
a minha morte

*

seletivo

líria porto

vovô – surdo por conveniência
barbeiro por precisão
só dava ouvidos aos netos
e aos fregueses

às lamúrias de vovó
vovô impunha
um muro

*

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

corcova

líria porto

cintura fina
as pernas bem torneadas
a boca carnuda vermelha
eu era outra

com tanto tempo nas costas
enruguei fiquei corcunda
afinei os lábios

ninguém mais mira-me os olhos

*

egoísta

líria porto

amor para dar alegria e conforto apenas a um
o outro que se dane – não passa
de coadjuvante

*

abalo

líria porto

sequer
preservo
a fachada

era forte
não tenho mais
estrutura

desabo
poeira cacos
entulho

*

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

a lombriga

líria porto

aprendiz de sopro e bailarina
beatriz tocava flauta nos saraus
morava na barriga de luís quinze
um homem de saltos
e baixos

*

fúria

líria porto

depois da ferroada
dei de endoidar
trepar nas paredes
falar impropérios
engrossar a voz
destilar veneno

*

mando

líria porto

zangão que se cuide
quem fecunda morre
é a lei da colmeia

*

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

urgência

líria porto

nem antes nem depois – agora
que o amor é inadiável como a sede
e a fome

*

terça-feira, 17 de setembro de 2013

baque

líria porto

esta atração por abismos
é de maior gravidade

*

reações

líria porto

ferida eu seco
chovo é quando coço
a cicatriz

*

renascer

líria porto

despencar do penhasco
transformar penas em asas
não há escolha

*

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

após o após

líria porto

a luz a escuridão
apenas terra por cima
caminhos a percorrer?

*

monstruosidades

líria porto

descarnar uma galinha
sem desfazer-lhe a carcaça
conservar seu bico a crista
preservar as suas vísceras
decepar-lhe os pés as asas
entregá-la morta em vida
fazer dela alma penada

*

domingo, 15 de setembro de 2013

boca suja

líria porto

pimenta curtida no azeite
para as bocas das crianças
que falassem palavrão

puta que me pariu – padeci
carne viva

*

combustão

líria porto

arde nu meu peito
qual uma pimenta
com o teu tempero
:
meu temperamento

*

malandra

líria porto

a lua atrás da montanha
a lua fora de foco
sorve a beleza c'os olhos
dança tango valsa
samba
come homens
e meninos

*

sábado, 14 de setembro de 2013

sísifo

líria porto

eu me levava nas costas
sentia imenso o cansaço
eu tropeçava caía
deixava-me ficar à margem
:
eu reduzi-me
à metade

*

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

persuasão

líria porto

a culpa é convincente
faz-nos fazer o que nós não faríamos
nem por desencargo de consciência

*

poema de época

líria porto

num tempo de flores e frutos
antes de me caírem as folhas
abria as galhas com facilidade
:
hoje doem-me os quartos

*

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

sonhos

líria porto

uma parte do meu corpo
acorda enquanto eu durmo
é lá que tudo acontece
o fantástico o absurdo

*

pela culatra

líria porto

desprezo-te olho
preso ao olhar
do ferrolho

*

bote

líria porto

tal como fosse serpente
letal veneno o da morte

*

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

asno

líria porto

não não me bastas
posso fingir-me de besta
mas esta bosta de vida
é um embuste
                   um abismo

*

conchavo

líria porto

visito palavras
palavras me visitam
juntas fazemos coisas
que até deus duvida

*

incomunicáveis

líria porto

tu aqui
e eu com saudades
de ti

não do que és – do que foste
da alegria que havia
em teu rosto

*

terça-feira, 10 de setembro de 2013

folga

líria porto

sol fogoso
salta a janela do quarto
e solta o corpo
na cama

*

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

o neném

líria porto

quem pariu embale-o para presente
ou aguente madrugadas mal dormidas

(o sorriso compensa-nos)

*

modéstia

líria porto

anjo toca trombeta
tem eco de estampa
vaidade camuflada

(ninguém é santo)

*

domingo, 8 de setembro de 2013

amado

líria porto

sou o atalho o desvio
não a estrada que te leva
ao paraíso

*

sábado, 7 de setembro de 2013

a viúva

líria porto

cama larga confortável e tem uma vaga
quem quiser pode ocupá-la sem compromisso
casamento e minério não dão duas safras

*

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

tremor

tremor

o arrepio por dentro
é como um sopro da alma
areia embaixo da pele

*

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

nau frágil

líria porto

esbarrou na dor
e para não naufragar
jogava pelo caminho
parte da carga

de novo teve outro baque
partiu-se o casco
o capitão foi a pique
salvou-se o mar

*

broto

líria porto

a chuva chegou mansinha
tirou-lhe o peso dos ombros

floresce e se frutifica
sem muito esforço

*

terça-feira, 3 de setembro de 2013

pressão

líria porto

se precisar
se houver necessidade
eu retiro o sal do mar
pras marés ficarem baixas

*

a fera adormecida

líria porto

beijei a boca da morte
ela me olhou e cuspiu
:
nunca mais me incomodes
quem gosta de beijo
é a vítima

*

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

setembro

líria porto

soldadinho camuflado
boina verde fuzil ao ombro
ouve o hino canta rouco
:
em posição de senti-lo
eu me calo baixo os olhos
emoção é minha pátria

salve a terra
salve o povo

*

domingo, 1 de setembro de 2013

fatal

líria porto

tentas parecer que não tens idade
pintas os cabelos usas creme
cílios postiços maquiagem
não adianta

atrasa

*

sábado, 31 de agosto de 2013

prenha

líria porto

a vida pelos confins
quem vai aparar meu menino
amparar os seus dias?

o moço
entrou e saiu quanto quis
semeou-se em meu ventre

(caduquice minha
perdidas regras)

*

comemoração

líria porto

a infância – um espectro
apaga as velas dos bolos de aniversário
dos velhos

*

duas pontas

líria porto

aos oito anos ninguém anda devagar
só o tempo

(um martírio)

aos oitenta anos ninguém anda depressa
só o tempo

(um martírio)

*

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

chaga

líria porto

pedras só ouvem desesperos
a dor tem que ser convincente

*

sacrifício

líria porto

embaralham informações
complicam a burocracia
e o homem que trabalha
anda em dia paga impostos
não tem ao final das contas
um retorno uma recompensa
por tentar viver em dia

(fazem o fácil
difícil)

*

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

esclera

líria porto

o branco dos olhos
raja-se de vermelho nas horas
de crepúsculo

*

marulho

líria porto

o sol ronca – arranca piscadelas das estrelas
a lua cochila nuvens dormem lá longe
só o mar sofre de insônia

*

volúpia

líria porto

deito meu sono de pedra
o sonho me leva do leito e me põe
à margem da correnteza

*

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

ditador

líria porto

o cão me estranha
seu ladrado de mil decibéis
faz-se ouvir da alemanha

*

serviçal

líria porto

meu ofício é escrever
transportar a carga das palavras
:
algumas são gramas – outras são
toneladas

*

no quarteirão

líria porto

o vento atropela as borboletas
um cão me olha faminto
e eu caminho às tontas
atrás de um prato
de comida

*

penitenciária de mulheres

líria porto

as barras de ferro
a pena

para não enlouquecer
tocava harpas nas grades da cela
dedilhava-as
(chegava a ouvir-lhes o som)
e cantava a liberdade

(cantava em silêncio)

*

sumo

líria porto

o cheiro da mangueira eleva-me às galhas da infância
e as folhas rosadas farfalham como as saias
da mocidade

*

discriminação

líria porto

trato vaga-lumes como mosquitos
ele se acendem me apagam
sou eu o inseto

*

no bolso

líria porto

uma conta redonda repleta de zeros
bem melhor que a fileira de noves
mais sincera

*

sem lugar

líria porto

gosto do meu canto
mas ando tão encantoada
que desafino

(nem a flauta me acompanha)

*

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

nihil

líria porto

no branco da folha
escrevo meu nome

pelo menos o autor
já nasceu

agora só falta
o poema

*

laços

líria porto

capaz de lustrar outra vez os meus olhos
devolver-me o sorriso espontâneo – o que mais me comove
é a infância

a alegria as descobertas
sua fala mesclada de sabedoria seu choro
e até mesmo suas manhas
suas birras

avós e netos
as pontas da vida
uma ciranda

*

shopping

líria porto

frustrações às sacolas
e efeitos hipnóticos

*

in_completude

líria porto

meia-lua
qual a hóstia repartida
onde o cristo só mostrasse
o lado humano

*

céu da boca

líria porto

esbarrar nas palavras sentir-lhes o aroma
o farfalhar das letras

os beijos da língua

*

domingo, 25 de agosto de 2013

capim

líria porto

tenro macio fresquinho
ainda pouco nutritivo
mas para o gado que pasta
um manjar divino

*

sábado, 24 de agosto de 2013

daninhas

líria porto

pragas espalham raízes
para exterminá-las não nos bastam
só enxadas e ancinhos

*

pássaro

líria porto

o poeta sobrevoa as palavras
escolhe as que lhe pareçam maduras saborosas
bica as duras quebra-lhes a casca e espalha as sementes
com a sua assinatura

(livros são florestas)

*

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

selvagem

líria porto

no sonho eu te rodeio
domo-te monto o teu lombo
mordo-te a nuca
desmancho teus cabelos
e agarrada a teus pelos
cavalgo-te

acordada olho-te estremeço
e pasto

*

beata

líria porto

para
o domingo
uma alma
penada
num corpo
peludo

na falta
santinha
faria
novena
depois
da missa

consolava-a
o novo
vigário

*

rocha

líria porto

uma palavra entalada
no centro da minha goela
como a pedra que entravava
no caminho do poeta

*

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

destemor

líria porto

é preciso peito
para abrir-se às pérolas

*

misericórdia

líria porto

não fiz amor com anjo
mas acordei assim – cheia
de pena

*

amor

líria porto

nunca é demais
nem menos

sofrimento?
faz parte

amemo-nos

*

metáfora

líria porto

a dor pode ser
de amor saudade enfarto
estou farto dessa dor

*

transpiração

líria porto

sem nenhuma ideia nova
nenhum verso no gatilho
eu me ponho atrás da porta
ajoelho sobre o milho

sinto o sangue escorrer
e como alguém que menstrua
trago à luz – num parto a fórceps
um arremedo de lua

*

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

mistura

líria porto

do jeito que der
do jeito que flor

tornar-se mulher
doar-se ao amor

qual garfo ou colher
num prato de louça

juntar ao feijão
um tanto de arroz

*

terça-feira, 20 de agosto de 2013

tirana

líria porto

a morte busca os velhos
mas também leva os meninos
e isso ninguém explica
nem adivinha os critérios

*

à moda de papai-noel

líria porto

semear as moedas no canteiro do jardim
e colher muito dinheiro para comprar lembrancinhas
nós – as crianças esquecidas

*

osso

líria porto

lívre como o espírito
sem as grades da prisão
da pele

*

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

perfume

líria porto

viver assim
do jeito que flor
morrer assim
do jeito que forca
até o fim

*

barrigudo

líria porto

um pum indeciso
empacado no meio da pança e o compadre a dizer-nos
não sou o pai da criança

*

achados tão pedidos

líria porto

poemas poesia tosse alergia pó de estrelas morte
reclamar de quê se foi uma sorte encontrar vocês

*

domingo, 18 de agosto de 2013

cura

líria porto

o amor
doa em quem doendo
é santo remédio

*

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

dia após dia

líria porto

tão reais os sonhos
a realidade é pesadelo
e os noticiários – filmes
de terror

*

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

prazer

líria porto

cravar os dentes na polpa – sentir a pera gemer
adocicar tua boca

*

adélia

líria porto

ela disse – não carece
ainda assim eu chorava
:
como olhar nos olhos dela
e não se sentir aluído

"comovido como o diabo"?

*

envelhecimento

líria porto

seus olhos se embaçam
não enxergam bordas
tudo se transforma
em manchas borrões
sorte é que a memória
tão prodigiosa
não se esquecerá
das cores
                dos tons

*

domingo, 11 de agosto de 2013

pecuária

líria porto

pegava o boi pelos bifes
mas demudou a dieta
trocou o boi pela vaca
bebeu leite igual bezerro

*

fora

líria porto

viver é estar no recinto
entre a porta de entrada
e a de saída

)ressinto muito(

*

sábado, 10 de agosto de 2013

ponto atrás

líria porto

eu me reviro do avesso
procuro nós não encontro

eu sou boa bordadeira
a_bordar só faz de conta

*

surto

líria porto

os olhos faíscam
:
não se cutuca a loucura
com vara curta

*

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

paupérrimo

líria porto

saraus me adoecem
adornos me roem
enfeites me enfeiam
e rimas me doem

*

deságua

líria porto

nem mar
nem rio
nem pasto

uma vaca
à míngua

*

pessoa

líria porto

acordava fernando
se não se acertava era álvaro
alberto ricardo bernardo
algum outro gênio

*

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

nós e laços

líria porto

o tempo
esse hiato
entre mim
e meus netos

o afeto
esse hífen
entre mim
e os meninos

o riso
esse verso
esse mito
essas rimas

*

ponto de vista

líria porto

teus olhos cor dos meus olhos
veem coisas que não vejo

*

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

variação

líria porto

mudar de casa de vida de ideia
e vez por outra mudar também
de nós mesmos

*

fatídico

líria porto

os dias passam como nuvens
acumulam-se sobre nossos ombros

a qualquer momento desaba
um temporal

*

terça-feira, 6 de agosto de 2013

versos

líria porto

confetes
pedacinhos de algum momento
fragmentos flocos de neve
breves instantes de vida e morte
efêmeros e eternos

*

domingo, 4 de agosto de 2013

miragem

líria porto

nós
um barquinho a remo
lá no outro extremo
a felicidade

ela nos acena
e é tanto o esforço
quando a alcançamos
já não temos fôlego

*

festa

líria porto

é chuva com sol
o casório da viúva
com o espanhol

*

sobrecarga

líria porto

o primeiro se amava
o segundo a amava
o terceiro não me amava
em compensação
o meu coração
foi dos três
ao mesmo tempo

*

sábado, 3 de agosto de 2013

para o brejo

líria porto

e assim sem fantasia
tu és sapo e eu
sou jia

*

rapunzel

líria porto

toda vez que o moço chega
jogo a ele as minhas tranças
pra que suba ao paraíso

ele não vem – treme e diz
que amor é abismo

*

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

legado

líria porto

não quero as paredes a louça a mobília
nem a porta de madeira maciça
quero o vão da janela

*

aos bonzinhos

líria porto

não sou como o sândalo
não perfumo o machado que me fere
faço escândalo e o machado
que se ferre

*

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

solene

líria porto

bebedor de cachaça
acha-se um estranho no vinho
e pede uma branquinha

*

ir_real

líria porto

pratos panelas talheres
amontoam-se na pia
:
mocinha lixa as unhas
sonha com príncipes castelos fadas
e varinhas de condão

*

quarta-feira, 31 de julho de 2013

divergências

líria porto

mais fácil um camelo passar no fundo da agulha
que a linha da cidadania costurar
desacordos

*

terça-feira, 30 de julho de 2013

folha seca

líria porto

à força da ventania
de um lado a outro
pousa aqui ali
            a borboleta            

*

segunda-feira, 29 de julho de 2013

tráfego

líria porto

transito entre estrelas
trafico pó de pirlim pim pim

tem quem cegue a luz que sigo
tem quem me segue

vamos todos para o abismo

*

desesperança

líria porto

procuro-me já não me acho
em meu lugar o que tenho
é este olhar sertanejo
tão seco não verto lágrimas
aqui não chove faz tempo
o gado morreu não há pasto
e tudo o mais como eu
perdeu o verde
o orvalho

*

domingo, 28 de julho de 2013

precisão

líria porto

a reza é rasa a missa omissa
um terço não é metade daquilo
que necessito

*

sexta-feira, 26 de julho de 2013

ocaso

líria porto

minhas janelas
abertas para o mundo
de tanto sol nos olhos
enceguecem

*

esquecimentos

líria porto

aqui ali acolá
quais folhas no outono
chuva seca
a fazer monturo
da nossa própria
poeira

*

distrações

líria porto

envelheci e em vão pergunto-me
em que gavetas enfiei as minhas horas
onde perdi meu tempo?

*

quinta-feira, 25 de julho de 2013

pelas costas

líria porto

o desamparo do frio a falta de agasalho
o tiro à queima-roupa – a salvação
ao contrário

*

adversário

líria porto

o galo uns gols
e uma gula de estrela
entalada na goela
da raposa

*

terça-feira, 23 de julho de 2013

solitário

líria porto

sem um corpo para matar seu desejo
o amor é criativo – dá seu jeito

*

segunda-feira, 22 de julho de 2013

tutela

líria porto

desta lua que navego
é que pego o impossível
e o mais incrível de tudo
é dela eu fazer escudo
para nos proteger

*

domingo, 21 de julho de 2013

caligrafia

líria porto

prefiro falar pela ponta do lápis
e esta fala calada diz de mim
quase tudo

*

em círculos

líria porto

atrás do vento vem chuva
atrás da chuva vem sol
atrás do sol vem a lua
atrás da lua meus olhos

*

benzinho

líria porto

se essa lua se essa lua fosse fixa
eu mandava eu mandava te buscar
para vê-la para vê-la aqui comigo
da janela da janela do meu quarto

*

beleza

líria porto

qual flor desprendida do galho
a moça de saia rodada atravessa
a alameda

*

pernas curtas

líria porto

não falo outras línguas
nem fui às estranjas
:
tudo que (d)escrevo
é fruto do chão
que me pisa

*

respeito

líria porto

à poesia que não cabe nas palavras
silêncio

*

sexta-feira, 19 de julho de 2013

disparidades

líria porto

um furacão entre as pernas
no coração a nevasca – o sexo no equador
a alma lá no alasca

*

quinta-feira, 18 de julho de 2013

rejuvenescer

líria porto

sorvia o olhar do neto
matava a sede de infância
chegava a beber frescor
no azul próprio
das manhãs

*

a culpa

líria porto

o cupido
não mirou direito
e acertou meu peito
fez uma ferida

*

domingo, 14 de julho de 2013

pira

líria porto

a escrita me chama
a escrita me arde  palavras são
labaredas

*

o míope

líria porto

vigia o que está
ao redor – não a mim
fora de foco

*

sábado, 13 de julho de 2013

para ouvir e olvidar

líria porto

o grito contido na dor
tem o som tão agudo que o mais
silencia-se

*

experiências

líria porto

para entender o veneno da serpente
rastejo

ponho-me depois de quatro
testo o chão sinto-o firme
submeto-me ao pasto

eu
por fim
fico
de pé
tenho
menos
equilíbrio
mas
assim
a vida
é

*


sem asas para voar

líria porto

um pensamento me salva
atira-me lá para o alto
depois me solta
:
d
e
s
a
b
o

*

alergia

liria porto

encafifei-me com o mofo
borrifei-lhe um antiácaro
quase morro

*

orfandade

líria porto

minhas asas não respondem
ao chamamento do voo – doem tanto
devo voltar para o ovo
:
quero minha mãe

*

sexta-feira, 12 de julho de 2013

desapaixonado

líria porto

e de tanto tanto
e de quase tudo
o maior espanto
foi nada restar
:
nem lembrança

*

sedutor

líria porto

não me cantou não me encantuou
mas cantou para mim e eu
caí na lábia

*

quinta-feira, 11 de julho de 2013

carma

líria porto

eu que vou que volto
que sou mais antiga que a própria idade
acumulo vidas
uma após as outras
procuro saídas para tanto
quase

*

quarta-feira, 10 de julho de 2013

fracasso

líria porto

a timidez salta aos olhos
:
vermelhos suados e trêmulos
somos poças de orgulho

*

terça-feira, 9 de julho de 2013

sossego

líria porto

não quero filhos na guerra – nem pais
eu quero é balas de caramelo

*

joias

líria porto

pescador de pérolas
mergulho na procura
das palavras

*

segunda-feira, 8 de julho de 2013

impudente

líria porto

desprovido de bom senso
lá vem o vento
levantar as nossas saias
expor as nossas vergonhas
até então bem guardadas
debaixo dos panos

*

des_tremor

líria porto

eu que ando atrás de mim
eu que sou a minha sombra
não me assombro com mais nada
o medo acabou e os fantasmas
são lençóis dobrados

*

carnal

líria porto

minhas pernas quando enlaçam tuas coxas
nossos corpos se preparam para um voo de cavalos
um galope selvagem que nos levará exaustos
para o céu dos loucos

*

domingo, 7 de julho de 2013

miss

líria porto

viçosa mas sem sabor
como maçã argentina
(gosto de isopor)

*

franqueza

líria porto

eu tenho mania de corte
tu tens mania de corte

(diferentes pronúncias)

eu risco o verbo
tu o adubas

*

quinta-feira, 4 de julho de 2013

fulano de tal

líria porto

coração cérebro vísceras
e ainda ginga?
:
é o bicho

*

quarta-feira, 3 de julho de 2013

chupins

líria porto

pegam-nos por baixo
agarram-se-nos à sombra
sobem-nos pelas coxas
enfiam-se-nos pelos orifícios
mamam em nosso peitos
depois nos asfixiam

*

engasgo

líria porto

palavra que me trava a goela
faz-me difícil engolir a vida
:
injustiça

*

terça-feira, 2 de julho de 2013

desastradas

líria porto

as minhas mãos nada fazem
mas também não se aposentam
vez por outra quebram a louça
precisam catar os cacos

*

segunda-feira, 1 de julho de 2013

desluz

líria porto

desse a alma para o capeta
e isso lhe rendesse bons lucros
não pensaria duas vezes

(para uns o inferno
é céu)

*

domingo, 30 de junho de 2013

a banana

líria porto

puxo-lhe
a casca
e de_vagar
desvisto-a

explícita
desvirgina-me
os lábios
(ah)

*

farol

líria porto

o sol que me aturde é o da tarde
o da manhã convida-me ao verso
a reparar que o universo
conspira por nós
e por laços

*

lenha

líria porto

depois do amor soçobramos
brasas cobertas de cinza

(ao leve sopro outro fogo
e o corpo todo faísca)

*

sábado, 29 de junho de 2013

despecado

líria porto

não desejo a mulher do próximo
desejo o próximo

*

avalanche

líria porto

promessas são pedras na encosta
se não forem removidas despencam
sobre nós

*

in_tolerância

líria porto

a dor por certo alivia
quando mudamos
de (o)posição

*

marionete

líria porto

faz e acontece
pelas mãos de outro
sem vontade própria

*

do golpe

líria porto

o susto a rasteira
o punhal nas costas
o medo de tudo
não vai mais à rua
a casa é uma cela
os muros são altos
não abre as janelas
:
fechou-se a tramela
da liberdade

*

o egoísta

líria porto

sofá – um espaço democrático
onde alguém se deita e ocupa
todos os lugares

*líria porto

sexta-feira, 28 de junho de 2013

d'efeitos

líria porto

gás de efeito imoral
câmara de gastos
holocaustos

*

eucaristia

líria porto

tens fome e estás por_vir
tomara te alegres com a ceia
:
teus gostos – sei-os
dar-te-ei também
de beber-me

*

fartura

líria porto

formigas arrasam o terreno
as sementes resistem e teimam
em frutificá-lo

*

quinta-feira, 27 de junho de 2013

overdose

líria porto

provou bebidas amargas azedas salgadas insossas
mas a que pode matá-lo
é doce

*