sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

til

líria porto

o meu cão – o pulga – ah que cachorro
olha-me de um jeito pidão e abana
o rabinho

*

charlatão

líria porto

não crê no que diz
e nem bota freio

prega com tanta certeza suas dúvidas
com tanta verdade as mentiras

engana muitos
a mim não

*

análise

líria porto

não me conheço não te conheces
como dizer que seremos felizes
para sempre?

*

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

rasteira

líria porto

a morte aparece
bato o pé
ela se espanta
e por um momento
adio a minha hora

(mais dia menos dia
ela se acostuma)

*

correio

líria porto

o papel de linho a pena o tinteiro
o mata-borrão – já não se faz cartas
como naqueles tempos

*

beco

líria porto

o
sono
não
acabou
sonhos
são
pesadelos
:
a
saída
é
achar
a
entrada
ou
dormir
de
novo

*

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

de olhos vendados

líria porto

gaivotas voam em vê
(gaivotas? eu nunca observei as gaivotas
voarão assim em meu subconsciente?)
andorinhas voejam em bando
periquitos em dupla
(aviõezinhos no contrabando)
e eu
sozinha
obrigo minha sombra
a voar comigo

*

contrato

líria porto

unilateral
o amor
é doença

tem que ser de igual para igual
eu te quero me queres e nós dois
prosseguimos enquanto for bom

depois
cada qual
que se cuide
:
cada qual
com o seu
cada um

*

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

ninguém se importa

líria porto

o que nos martiriza é invisível
quem vai entender almas que mancam
dores do espírito?

*

cardiopata

líria porto

o coração não tem rédeas
galopa desenfreado – hora dessas
ele empaca

melhor assim
de repente

*

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

sovina

líria porto

o jeans não te serve mais
aperta-te a bunda os colhões
e conter assim o espirro
só faz aumentar
o incômodo

envia-a a quem precisa
pão-duro

*

faxina

líria porto

quando um armário vem abaixo
tudo o mais tem que sair  poeira roupa vaidade
e cocô de cupim

*

domingo, 26 de janeiro de 2014

patroa

líria porto

a poesia me exige
quer de mim tempo integral
dedicação exclusiva
que eu vista e sue a camisa
e defenda sua cáustica

*

marca

líria porto

a incendiar-nos
deixar-nos carne viva
fazer cicatrizes

(poesia é ferro
em brasa)

*

fiscal

líria porto

toda manhã ele vem
não sei se anjo se pássaro
olha-me pela vidraça
confere se escrevo
e o quê

anota
volta ao telhado
e conta não sei
pra quem

*

carambolas

líria porto

estrelas alongadas saltavam do vizinho
para o quintal de casa

*

sábado, 25 de janeiro de 2014

arrocho

líria porto

caturritas voam em duplas
formam casais permanentes

mulheres e homens
às turras

*

atroz

líria porto

a traça faz troça
destrinça e trucida
meus trecos

*

perversos

líria porto

comeram meu sorriso
morderam-no nas duas pontas
e ainda riram

*

disfarce

líria porto

para ser sincero
eu só sei fingir
faço cara alegre
nas horas mais tristes

quando me machucam
eu digo não dói
pensam que sou forte
verdadeiro herói

recebi medalhas
condecorações
debaixo da pele
o medo me mói

*

equilíbrio

líria porto

pleno é faltar
não se fartar completamente
deixar espaço à dilatação

pelas trincas
esgotam-se-nos os excessos
e as energias

*

por hoje é sol

pose

líria porto

de cima pra baixo
de baixo pra cima
a montanha domina
a paisagem

*

encarregado

líria porto

o vento urge ruge
o vento tem pressa
ora essa
o vento precisa empurrar
essas nuvens de chumbo
para o sertão

*

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

a cozinheira da paróquia

líria porto

izabel
nas formas arredondadas
na fartura dos pecados
na macieza dos lábios

izabel
tal qual moqueca de peixe
doce de leite quindim
ai do padre

"cordeiro de deus que tirai os pecados do mundo"

*

joias

líria porto

os pingos da chuva
sobre a folhagem do inhame
diamantes sem jaça

*

soluço

líria porto

chorei por tudo
por nada
com e sem motivo
mas hoje
na hora de mais sofrimento
como um açude no estio
sequei as lágrimas

*

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

frígida

líria porto

deitou-se com uns e com outros 
e não houve nenhum

*

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

labirinto

líria porto

o que fica de nós no fundo das gavetas
o que some

*

lábia

líria porto

bem-te-vi veio à janela
insiste na cantilena –– pensa
que me engana?

(em bico doce
eu não confio)

*

testemunha

líria porto

olho de gato
a lua espia do alto
detalhes desvios
atalhos escorregões
e pecados

*

caligrafia

líria porto

escrevo torto
por linhas certas

*

domingo, 19 de janeiro de 2014

nas pálpebras

líria porto

tão cedo
despenco
de mim

içar-me
é aquela
peleja

careço
dois paus
de fósforo

*

instintos

líria porto

o que um macho deseja
além do que esteja entre as pernas
da fêmea?
:
comida

*

sábado, 18 de janeiro de 2014

cena

líria porto

a chuva ensaiou
e agora se apresenta
:
a vidraça em lágrimas

*

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

morro

líria porto

a estrada que me leva
não é a que me trouxe

descidas se invertem
rios não voltam atrás

viver é contra
a correnteza

*

palheta

líria porto

sangue e céu sangue e sol
sangue e nuvem sangue
e areia

foram tantas e incríveis
as dores que obteve

tão iguais o arco-íris
efêmeras porém
eternas

*

reciclável

líria porto

ninguém jogue o verso fora
no lixo seletivo outro pode
aproveitá-lo

*

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

dança

líria porto

cento e trinta anos
(a soma de nós dois)
o salão era pequeno
transbordamo-nos

pisei o teu pé

*

correspondência

líria porto

ossos / vigas
paredes / músculos
cabelos / telhas
banheiro / vísceras
pele / pintura
janelas / pálpebras

((a alma fica no umbigo
cadê a chave?))

*

enfiada

líria porto

passou um fio pelas guelras
levou pra mulher fritar

quem tira as escamas?

*

corcunda

líria porto

primeiro cresceu
apequenou-se depois
e assim – encolhido
temia os besouros

*

cruel

líria porto

ele tem estilingue
e eu sou passarinho

*

humanismo

líria porto

o homem perguntou ao homem
qual homem era mais humano
o homem respondeu ao homem
a mulher

*

o medo

líria porto

um ermo de rua
e tudo vira ameaça
as sombras a luz

feras não pensam
reagem aos sustos

*

avoada

líria porto

carreguei tuas penas até me cansarem as asas
e só sosseguei a carcaça depois que as amputei
(não as asas – as tuas penas)
precisei muita coragem pois eu te amava
e era aérea
:
cabeça de borboleta

*

alegre

líria porto

rio
da esquerda para a esquerda
sem retorno sem vício inverso

morro nos braços do oceano
amazônico caudaloso
imenso

*

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

irmãos

líria porto

vão-se mas ficam
deixam algum rastro do cheiro
do riso

ficam mas vãos
corações fechados
noutra sintonia

nenhum é igual –– todos vindos
da mesma barriga

*

a lavadeira

líria porto

cinco e meia da manhã
a lua feita a compasso
ninguém esquenta a friagem
o galo canta e maria
estende a roupa no arame

*

rabo quente

líria porto

duas toras uns gravetos
soprar na medida certa
e em pouco o fogo
pega

*

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

beleza

líria porto

amor desamor sentimento ressentimento
interesse desinteresse traição lealdade
tudo foi cantado à exaustão

a musa é uma flor
:
silêncio

*

domingo, 12 de janeiro de 2014

retiro

líria porto

vestir-nos de silêncio
até que a alma reclame
e o corpo uive
pra lua

*

tudo

líria porto

causa casa asa
poesia é morada
e túmulo

*

flor de cactus

líria porto

a vida é questão de tato
de olfato paladar – na vida tudo
é sentido

o que houve
o que falta

*

r_uivos

líria porto

meu útero
deu de comer uns cachorros – os brutos
lobos vestidos de homens

*

fecho

líria porto

o amor de hoje
é bem melhor
que o antigo

o amor de agora
é próprio o amor próprio
não precisa de chás
nem de ópio

(bem-me-quero nem-te-quero
bem-me-quero)

*

re_uno

líria porto

parto e junto
áfrica américa latina
coração brasileiro

*

instável

líria porto

deu de sofrer
deu de se alegrar
deu de não querer
de amar demais
ao menos

doou-se até doer
e então parou
de dar

*

veterano

líria porto

há quem diga que não bato bem
apanhar também não apanho
prefiro colher maduro
à sombra da árvore

*

trégua

líria porto

igual égua disparada
ao cansar-se a vida para
e pasta

*

bafo

líria porto

fulano enxovalha as pessoas
aponta-as julga-as condena-as
fulano controla tudo
só não vigia
sua boca

fulano tem língua de gralha e hálito
de esgoto

*

agora

líria porto

ontem hoje amanhã
porém de concreto e palpável
apenas esse instante

*

sem festa

líria porto

o cinto apertado
e o menino a pedir-me um brinquedo mais caro
que o décimo terceiro

para o ano eu espero
justiça

*

alívio

líria porto

o vento seca-me os olhos
o vento sopra minha dor
o vento faz-me esquecer
que a morte
é questão de tempo

a vida é para os fortes
sussurra-me
o vento

*

profissão de ferro

líria porto

malhar o insuportável
o que deveria ter outra forma
outra fórmula
:
forjar-nos noutra bigorna

*

frustrações

líria porto

quanto de um pássaro
há em todo canto
tantas são as penas
em seu próprio ninho
as dores que temos
afundadas n'alma
são voos perdidos
dentro de noz

*

instinto

líria porto

fareja os pelos
o peito os braços as pernas
a virilha as axilas
o ranço

pasta até o fastio
e vira pro canto

*

vampiros

líria porto

tipo a 
erre agá 
negativo

sangue bom?

sei lá
só sei que é ralo

raro?

não
sangue vermelho
da plebe
que o grosso
é sangue azul

ah sim
sangue de caneta 

bic

*

tosquia

líria porto

sai neblina
some da frente dos olhos
deixa-me ver o horizonte
o sol está de saída
a vida a bailar tão distante
os sonhos ainda respingam
ao rés de min_as

*

paladar

líria porto

não gostava de pimenta
mas me quis – reclamou
de boca ardida

*

des_construção

líria porto

com quantas andorinhas se faz uma tarde
com quantas crianças se tece um recreio
com quantas mentiras se formam as dúvidas
com quantos chicotes se forja um escravo
em quantas curvaturas desfaz-se
uma gueixa?

*

(a)casos

líria porto

gosto que venhas
e quando partes
já não és meu
tens o teu canto
os teus parentes
assim vivemos
quatro paredes
uns bons momentos
depois voamos

o céu é imenso
não temos grades
nem somos presos
às convenções

*

sábado, 11 de janeiro de 2014

monstros

líria porto

a lagartixa me olha
a lagartixa me fita
eu na cama fico rija
lá no teto ela se move
e faz isso lentamente
como a medir o perigo

eu temo que ela despenque
mas não sei o que ela pensa
eu sou tão inofensiva
:
nós assim passamos horas
a temer a morte
a vida

*

anual

líria porto

eu só devo obrigação
dinheiro não devo nada
por mais difícil que seja
acerto o último centavo

tem gente que dá calote
dá golpe por todo lado
se não puder eu não compro
luxo ou pão - nada é de graça

(amizade não tem preço
agradeço e retribuo
os favores os amores
vão comigo para o túmulo)

*

casca

líria porto

quem nos olha não percebe
não sabe dos sentimentos
pois que os olhos não penetram
além da aparência

(temos broca no caroço
e bichos na polpa)

*

de cor

líria porto

amora
pitanga
cereja
maçã
e tudo
que seja
de beijo
de sangue
batom

*

morada

líria porto

a rua da minha casa
a rua da minha asa
a minha rua
a curva

a rua esburacada

*

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

meus sentimentos

líria porto

às lombrigas ocultas em minhas tripas
eu nada ofereço além do apreço
por tudo que me habita

somos a mesma criatura

*

madrugada

líria porto

afora as lâmpadas dos postes e as estrelas
que parecem piscar
nenhum movimento
as árvores não se mexem 
e não há ninguém nas ruas 

posso ouvir meu coração 
tum tum tum

*

infernal

líria porto

faz calor bebo gelado
três espirros quatro cinco
tosse febre o nariz pinga
no verão tudo é instável
:
pra paixão
não tem vacina

*

temperamento

líria porto

correnteza
mar revolto
faço o quê
com esta
cólica?

*

à coroa do rei

líria porto

das nossas montanhas
foi-se o miolo de ferro de ouro
de amantes

sobrou-nos a casca e nós
os bobos da corte

*

sábado, 4 de janeiro de 2014

agora

líria porto

camelo no fundo da agulha
desprezo promessas de céu
depois que eu morrer toda ajuda
será comida por vermes
:
desfruto tudo na terra
aqui liquido as faturas

*

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

adormecer

líria porto

a chuva cantarola canções de ninar
e com a gente no colo apaga a lua
as estrelas

o sono profundo é tão perto da morte
(sonhar é abrir os olhos)

*

lama

líria porto

as toalhas brancas
impecáveis
acabavam maculadas
pelos nossos pés
:
do barro viemos
ao barro voltaremos

(nas próximas férias)

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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