sábado, 30 de maio de 2015

redemunho

líria porto

araguari –– minas gerais
o diabo passa a vassoura
e espalha as almas

(cada canto
um conterrâneo)

*

antes do fim

líria porto

talvez eu possa
posseiro do meu corpo
passear meus olhos
passar mel na boca
lamber-te

*

pulso

líria porto

selvagem
um cão viveria em matilha

domesticado
se não obedece o dono
o cão se torna seu líder
:
assim o filho
do homem

*

das lentes

líria porto

da cor do espaço
depois olhos de folhas secas
burro fugido
sei lá

só sei que não vejo bem

*

sexta-feira, 29 de maio de 2015

ex-mãe

líria porto

abriu mão dos mal-tratos
dos desprezos
do peso nos ombros
por um ingrato

muita vez cria-se cobra
em ninho de passarinho

*

ruminantes

líria porto

com tanto para se ver e viver
e nós - confinados - a mascar capim seco
ração de gado

*

facebook

líria porto

vasto pasto onde nós –– bestas
pastamos e cagamos sem ousar
pular a cerca

*

quinta-feira, 28 de maio de 2015

marginal

líria porto

esbarro transbordo derrubo
perdi a noção das bordas
quem vai me impor limites?

*

adoração

líria porto

rodeava o umbigo com o dedo
metia-lhe a língua e bebia
a vaidade que eu tinha

*

baião de dois

líria porto

feijão velho não presta
mantém-se duro e cascudo

arroz novo é que prega
vira papa no fogo

o segredo - arroz velho
feijão novo

*

quarta-feira, 27 de maio de 2015

atalho

líria porto

corto caminho
troco a rota das certezas
por desvios

e faço perguntas

*

terça-feira, 26 de maio de 2015

natimorto

líria porto

entre as irmãs
um menino
feliz infeliz machista
hétero homo bissexual
solidário com as mulheres
bom ou mau amante
socialista reacionário
como seria meu filho
que não chorou nem sorriu
e hoje teria
quarenta e cinco anos?

*

do tempo

líria porto

na alegria um corisco
na amargura uma lesma

*

dos deuses

líria porto

do alto do pedestal
ao rés do chão
um abismo

eu sou um reles mortal
e conto mesmo
é comigo

*

segunda-feira, 25 de maio de 2015

ho(r)mônimos

líria porto

a saia suja o sangue do chico
levei um susto do chico?
respondeu-me – sim  do chico
fiquei velha e ainda menstruo

*

pau oco

líria porto

pessoas muito santas têm uma fúria
em seus olhos mansos –– prefiro
quem não finja

*

domingo, 24 de maio de 2015

branca de neve

líria porto

as maçãs me acalmam
não pelo sabor propriedades
antes pela cor e beleza
da casca

*

crateras

líria porto

vão-se os bons – os vãos ficam
acumulam-se em vácuos buracos
e despenhadeiros

*

camaleões

líria porto

nada como um namorado
para mudarmos de vida
deixar que ele decida
o que é bom para nós

só quando o amor termina
voltamo-nos à rotina
àquela monotonia
que é a nossa cara

(cada um é uma cartilha)

*

sábado, 23 de maio de 2015

absurdo

líria porto

o silêncio absoluto
tem um zumbido – quanto mais surdo
mais barulho no ouvido

*

poda

líria porto

para escrever um poema
eu uso poucas palavras
e das palavras que eu uso
eu capo mais da metade

*

noite na roça

líria porto

céu bordado com lantejoula
mas uma vez ou outra
chove vaga-lume

*

saara

líria porto

ser_tão deserto
no silêncio barulhoso das tendas
rendas sedas e tafetás

*

hímen

líria porto

o papel virgem
e a ponta do lápis
não sua direção

(um ponto uma vírgula
uma gota de sangue)

*

sexta-feira, 22 de maio de 2015

agora ou nunca

líria porto

vou e voo
ou me contento
com um relato
bem diferente
do que sinto
e penso

a vida ruge
batom

*

no divã

líria porto

extrair do sonho
aquele sentido
não o óbvio
o do labirinto
que antes nos dribla
mascara a censura
até conduzirmo-nos
ao farol

*

quinta-feira, 21 de maio de 2015

vogal

líria porto

aposto  a peste despista
enquanto pasta nossas pústulas

*

vaidades

líria porto

andei a pisar em ovos
uns chocos de casca mole
cozidos de gema dura
outros fritos

andei a pisar em ovos
masculinos

*

quarta-feira, 20 de maio de 2015

dos ciúmes

líria porto

muita vez
enquanto dorme
sussurra no meu ouvido
uma palavra obscena

(então me ponho em vigília)

será que sonha comigo
ou co'a morena fogosa
que passa o dia com ele
naquele escritório?

(eu já fui mais eu)

*

perdas

líria porto

tempos de luto fechado
olhos baixos roupas pretas
a dor se abrandava aos poucos

hoje tudo é descartável
os enterros viram festas

*

terça-feira, 19 de maio de 2015

rochedos

líria porto

com elas fiz alicerces
ergui muros e muralhas
com elas deitei no rio
peitei a água dos mares
e rolei pelas vielas
:
eu tive pedras nos rins

*

segunda-feira, 18 de maio de 2015

bênçãos

líria porto

olhas-me e me reconheces
poros vertem rogos secas 
banzo 
sede de mil cântaros 
então me recolhes 
banhas-me 
limpas meus pecados culpas 
e depois me benzes

*

sexta-feira, 15 de maio de 2015

panças

líria porto

sargentos coronéis generais
a guerra ficou buchuda
de tanto verme

*

o teatro

líria porto

drama tragédia comédia
a vida é um grande espetáculo
:
após o último ato
a morte cerra as cortinas

*

trampolim

líria porto

no auge e em grande estilo
um salto antes do tombo
qual um suicida

*

quarta-feira, 13 de maio de 2015

à luz do dia

líria porto

no miolo da cidade
no olho do furacão
uns ratos usam disfarce
às vezes ternos
gravatas
forjam atas e contratos
iludem os cidadãos

*

perfume

líria porto

voaste um voo longínquo
partiste sem despedida
às vezes voltas no sonho
o que esta flor faz aqui?

*

quitinete

líria porto

a lesma tem casa própria
ali se esconde da chuva
na casa cabe ela mesma
e a lesma nem é viúva

eu acho a lesma moderna
a lesma e a tartaruga

*

terça-feira, 12 de maio de 2015

fendas

líria porto

portas janelas basculantes
pálpebras mentes escotilhas 
braguilhas bocas e pernas 
abri-vos

segunda-feira, 11 de maio de 2015

bola de neve

líria porto

fosse pouco
quase nada
causava-me pesadelo
pois que o medo
num crescendo
era um horror
:
sombras viravam monstros

*
 

segunda-feira

líria porto

sair da modorra
sacudir o esqueleto
vou adiar pra depois
porque hoje
quero sombra
e água fresca

*

domingo, 10 de maio de 2015

a revolução

líria porto

necessitamos pólvora
explosivos
palavras comedidas irão pr'os ares
de cada estilhaço virão livros
clareiras no caminho do insensível
e da brutalidade

*

sábado, 9 de maio de 2015

sanguinário

líria porto

de ponta cabeça
o morcego dorme e sonha
com o mar vermelho

*

balangandãs

líria porto

anéis colares pulseiras
brincos grandes de argola
um laço ou flor nos cabelos
a saia - claro - é de roda

(maria é toda exagero
tem mais pétalas
que a rosa)

*

deslize

líria porto

perdeu toda a graça
maria foi com as outras
alisar os cachos

*

sexta-feira, 8 de maio de 2015

fera

líria porto

o pigarro
a tosse seca
o pai chegava
e a gente piava fino

*

pluft

líria porto

não sei como achá-lo
ele não tem facebook
o bicho-do-mato

*

quinta-feira, 7 de maio de 2015

pedigree

líria porto

de quem se acha puro-sangue
prefiro manter distância

(aprecio os vira-latas)

*

herança

líria porto

meu verso se aquiete
também eu sossegue o facho
deixe para os meus netos
riachos da minha terra
pedaços da minha verve
as minhas flechas
e arco

*

quarta-feira, 6 de maio de 2015

humanos

líria porto

cheios de empáfia
e menores que o cuzinho
da formiga

sabes com quem estás falando?

*

barreira

líria porto

não sei se lealdade ou burrice
defendo o indefensável
embora saiba e acredite
a qualquer hora eu me calo
tudo tem limite

*

ignorância

líria porto

procura a saída
e sem tabuleta que a indique
gira igual barata tonta

entrar pelo cano é a saída
ir direto para o ralo

*

segunda-feira, 4 de maio de 2015

peleja

líria porto

no jogo do amor
arriscou todas as fichas
mais perdeu que ganhou
contudo
um lucro extra
uma renque de filhos
de todas as raças

*

adolescente

líria porto

nem menino nem adulto
(susto encanto
surpresa)
uma rocha uma gota
uma pedra em degelo

*

alfinetada

líria porto

vírgulas espetam-me a língua
por isso vivo eu sem elas
a mim me restam as mazelas
de ser incompreendida

*

alma penada

líria porto

campeio meu sono vasculho o escuro
procuro procuro tateio as paredes
tropeço nas coisas

cansaço desânimo retorno à cama
porém eu não durmo a noite é tão funda
seus olhos tão grandes

(e o galo não canta
e a vida não cuida)

*

domingo, 3 de maio de 2015

derradeira

líria porto

para a última viagem
nem bagagem nem matula
vais tu dentro da embalagem
numa caixa dura

*

sábado, 2 de maio de 2015

destino

líria porto

os trilhos do trem
chegaremos ao inferno
juntos
:
diante da cara do demo
que eu temo
fecha meus olhos e me puxa
pra dentro

*

platônico

líria porto

não virias
nem iria eu te encontrar
o amor nos bastasse
matássemos a fome da carne
noutros braços
:
mais próximos
mais práticos

*

sexta-feira, 1 de maio de 2015

obrigação

líria porto

a chuva chove – grossa fina
chove como sabe e pode
cumpre a sua sina

*

o trabalhador

líria porto

dia após dia
a mesma rotina
acordar bem cedo
comer qualquer coisa
pegar a marmita
e a pé
de bicicleta
ônibus ou metrô
chegar ao destino

marcar ponto
começar a lida
:
quatro horas no batente
uma para o almoço
outras quatro horas
(o chefe irritado)
intermináveis horas
ao final
do expediente

tocam a sirene
já é quase noite
trânsito cansaço
voltar para casa
tomar um bom banho
requentar a janta
beber a branquinha
jogar-se na cama
(nenhum sonho)

despertar de novo
enfrentar o trampo
e no fim do mês
o salário mísero

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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