quinta-feira, 30 de junho de 2016

azarão

líria porto

não vou apostar na mula
quero mesmo é uma zebra
para acabar co'as certezas
e galopar nessa dúvida
que alimenta a corrida

(adeus sorriso amarelo)

*

boca amarga

líria porto

um jeito obeso de vida
(doces bolos chocolates
e demais pecados)
e um estilo sedentário
podem nos matar
mais cedo

também dizem
ninguém morre
antes da hora

vai aí um chá de boldo
ou a torta de morango?

*

renúncias

líria porto

fosse muito abriria mão
mas é pouco – não posso me dar
ao luxo

*

quarta-feira, 29 de junho de 2016

aninha

líria porto

ela vende muamba da china
eu quero comprar um chinês
de olhos bem puxadinhos
sorriso fácil pelos lisos
para brincar comigo
ensinar-me a comer com palito
e a falar mandarim

(peço socorro
ela aninha-me)

*

truz

líria porto

o vento é veloz é voraz
e na sua avidez faz beatriz
esconder-se detrás do capuz

*

misturas

líria porto

teu corpo/meu corpo
um só corpo

arroz/feijão –– pão e manteiga
café com leite

con_fusão

*

terça-feira, 28 de junho de 2016

equipe

líria porto

sem a proteção da rainha
dos peões
dos cavalos torres e bispos
o rei do xadrez
sequer chegaria a príncipe

*

segunda-feira, 27 de junho de 2016

vingança

líria porto

não carece d'água
basta ir à forra
pra lavar a alma
:
pra lavrar a alma

*

a regra

líria porto

fácil não é – nem difícil
viver é possível e morrer
obrigatório

*

remédio

líria porto

meta a língua nos versos
nos poemas metalinguísticos
não os engula a seco
nem comprimidos

(especialista é que emite receita)

*

domingo, 26 de junho de 2016

em todo canto

líria porto

olhos para vê-la
ouvidos para escutá-la
olfato para senti-la
tato paladar
:
aqui ali lá
a vida faz sentido

*

sábado, 25 de junho de 2016

familiar

líria porto

a terra em torno do sol
e em volta de si a lua
sua única filha

*

quinta-feira, 23 de junho de 2016

insucessos

líria porto

a inveja trava-nos
faz-nos incapazes
de seguir em frente

a inveja é treva
é luz que nos cega
fura-nos os olhos

(inveja é fracasso
caruncho por dentro
e por fora)

*

quarta-feira, 22 de junho de 2016

fases

líria porto

um riso uma taça uma bola
um ovo uma foice
uma vírgula
:
a lua de todas as formas
no espaço público

*

folia

líria porto

falo-te – vais falhar falir
resfolegar na fuligem
do teu próprio fumo

(soçobrarás pedra
sob pedregulhos)

*

visão

líria porto

quase sete horas
a lua de xale rosa
qual fosse uma ninfa

*

terça-feira, 21 de junho de 2016

drogas

líria porto

as dores são múltiplas
agudas ou crônicas
e fincam e queimam
e ardem nas vísceras
nos músculos na pele
nas veias nos nervos
porém nos atestam
há vida
:
morte é freada brusca
derrapada no despenhadeiro

(eu quero morrer dormindo)

*

segunda-feira, 20 de junho de 2016

na veia

líria porto

por fora todo sangue é azul
por dentro nem todos somos
nobres

*

tipos

líria porto

na juventude
frustrou-se consigo

seu sangue raro/egoísta
seria salvo por outros

mas só ajudaria
pouquíssimos

*

domingo, 19 de junho de 2016

língua portuguesa

líria porto

roça minha boca
lambe-me os mamilos
faz-me cócegas entre as pernas
pergunta-me se o arrepio
é por causa dos bigodes
ou do inverno

*

sábado, 18 de junho de 2016

subconsciente

líria porto

u'a manada de búfalos
esmaga minha barriga
acordo com dor aguda

(acendo a luz a dor some
apago a luz vêm os tigres)

*

sexta-feira, 17 de junho de 2016

vampiro

líria porto

qual picolé de groselha
na boca duma criança
tu sorves minha energia
eu quase fico sem sangue

*

folhetim

líria porto

a ti que me esqueceste
estes mal traçados versos
plenos de recordações
de desejos inconfessos
de um tempo
em que nós nos tínhamos
nas horas mais descabidas
nas sombras da escadaria
ou no elevador do prédio

(tu eras dono de mim
a tua dona era ela)

*

quinta-feira, 16 de junho de 2016

voraz

líria porto

o tempo engole tudo
a goela do tempo é o túnel
que acaba no cu do mundo

*

invernos

líria porto

com roupa a velhice engana
põe luva meia agasalho
consegue certa elegância

sem roupa –– calamidade
é tanta ruga pelanca
eu quero a pele do armário

*

quarta-feira, 15 de junho de 2016

lembranças

líria porto

os sapatos velhos
estalos de folhas secas
nas solas dos pés

*

rasante

líria porto

de esfolar umbigo
procurar poesia e encontrar
pedregulho

*

terça-feira, 14 de junho de 2016

prazer

líria porto

a roupa limpa passada – com cheiro bom de manhã
penduro-a no armário como se ainda morasse
em meu corpo de criança
:
respiro fundo e me sinto
purificada

*

segunda-feira, 13 de junho de 2016

altamiro

líria porto

dá duro na enxada
(mísero salário)
e ao final da lida
(mãos calejadas)
os goles no bar
:
na rua os meninos
criados sem pai

*

bígama

líria porto

a poesia madruga
a militância anoitece
eu vivo entre elas duas
minhas amantes
mulheres

*

impaciência

líria porto

o tempo não para
as horas expiram
porém o futuro
sequer o vislumbro
:
cansei-me da espera

*

domingo, 12 de junho de 2016

assaz sina

líria porto

a morte é de morte
mata tudo e todos
e isso não é vida

*

(des)aparição

líria porto

de lá da neblina
como fosse um fantasma
o espectro do sol

*

sexta-feira, 10 de junho de 2016

foice

líria porto

a inocência
ceifada antes do tempo
qual pluma – sem rama
sem rima sem rumo
à mercê do vento

*

atitude

líria porto

aí me lembrei de bombril
(axilas – pelos pubianos)
mil e uma utilidades
mulheres na pia
e na cama
:
telefono e peço
pizza

*

quinta-feira, 9 de junho de 2016

das delações premiadas

líria porto

no vai e vem das palavras
nas intenções corrompidas
(manipulação dos fatos)
os delatores se prestam
(com o aval dos juízes
cumplicidade da mídia
e para se safarem)
a rechear as verdades
com fatias de mentiras
e desconfiança
(tudo bem engendrado)
:
entre notórios bandidos
introduzem gente limpa
que pelos seus compromissos
convicções atitudes
contraria interesses
escusos

(volta querida)

*

quarta-feira, 8 de junho de 2016

cãs

líria porto

quando ficarmos velhas
se parecermos uns cacos
nós montaremos mosaicos
encantaremos nos palcos
dos nossos netos

*

fatalidades

líria porto

não acontecem comigo
como não? não tenho estrela na testa
nem sou melhor que ninguém

(eu que tome tento)

*

vai-volta

líria porto

em hospitais pobres
caixão conduz um cadáver à cova
e é trazido de volta para servir
outro defunto

*

parceria

líria porto

nem era marido
sequer namorado
ou amigo

parentes amantes
unidos sempre juntos
mais que misto-quente

(o arroz e o feijão)

*

terça-feira, 7 de junho de 2016

projeção

líria porto

o espinho veio com tudo
formou-se a poça de sangue
a dor fincou lá no fundo

fica a pensar num punhal
no brilho da sua lâmina
na palidez do defunto

*

mulher de palavra(s)

líria porto

falo o que sinto e pressinto
cumpro o que prometo
digo a verdade possível
e minto às vezes
(quase sempre a mim mesma)

*

segunda-feira, 6 de junho de 2016

íngua

líria porto

perfuro-o com faca
o verso não sangra
parece batata
ou nabo
ou banana

na lâmina
a nódoa
e os nódulos
na garganta

a dor?
indizível

*

domingo, 5 de junho de 2016

sadismo

líria porto

amava as ervilhas
mas antes de mastigá-las
espetava-as uma a uma
divertia-se

*

colecionadores

líria porto

artigos poemas cartas
os livros que escrevemos
o que temos nos arquivos
nas estantes nas gavetas
nosso inventário de sonhos
pensamentos desejos delírios
frustrações

*

sexta-feira, 3 de junho de 2016

indigesta

líria porto

branca negra
pele vermelha
oriental
gente e bicho
sou fêmea
e sangro
:
sou mulher
para mais de mil
talheres

brocado

líria porto

forraram a noite com um pano escuro
tão velho e tão furadinho que através dele
a luz foge do céu

(estrelas são poás)

*

estilingue

líria porto

a caneta é meu bodoque
e palavras são pedras que atiro
com a pontaria dos sentidos

*

pássaro

líria porto

se me cercarem
impedirem-me de sair pela porta
fujo pela janela e não cantarão vitória

(moro no nono andar)

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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